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Texto de Eugênio Maria Gomes publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 23/07/2017

As redes sociais são um campo fértil para você encontrar o torcedor de carteirinha. Não, eu não falarei aqui de futebol, do torcedor do Galo, da Raposa ou do Urubu. Eu falarei sobre o torcedor dos políticos e de seus partidos. No Brasil, esse grande, nobre e pobre país dirigido – há décadas – por cruéis e irresponsáveis gestores, desenvolveu-se a tal “torcida organizada” na Política, com alguns chatos torcedores de carteirinha. E se você acha que elegerei o PT – Partido dos Trabalhadores – para falar de como algumas pessoas agem, como se participassem de uma torcida de um time de futebol, cometerá um ledo engano. Até porque, até há pouco tempo, talvez não encontrássemos muitos torcedores fanáticos em outros Partidos Políticos. Mas, hoje, a coisa ficou generalizada em relação aos partidos e aos políticos: todos eles têm, sim, a sua torcida organizada, chata, que não consegue olhar um palmo à frente do nariz, achando que o que eles fazem está certo, está bem feito.

Existe coisa mais chata que conversar com um fanático defensor de Lula? Sim, há, basta conversar com um fanático defensor de Temer. Impressiona-me como é possível que em um país que está definhando, implodindo em si mesmo, ainda apareça alguém que defenda essa turma que, governo após governo, vem tirando tudo de nós, a ponto de, nos últimos tempos, até a dignidade de muitos brasileiros esvair-se no meio dessa pouca vergonha que têm sido os nossos sucessivos governos.

Esta semana eu assisti a uma reportagem que mostrava servidores públicos – principalmente os aposentados- de algumas capitais do país, enfrentando filas para o recebimento de cestas básicas. Sem receber os salários a que fazem jus – quer seja por conta do direito adquirido após anos de trabalho, quer seja por conta do direito à remuneração pelos dias trabalhados -, os servidores e aposentados estavam recebendo cestas básicas oferecidas pelos poucos servidores que estão com os seus salários em dia. A pessoa trabalhar – ou ter trabalhado durante anos – e não receber o provento a que tem direito, submetendo-se à fila da cesta básica, é, sim, uma afronta à sua dignidade.

Outra questão que merece a nossa atenção é que, quando a crise chega, os mais ricos nem a percebem, enquanto os da classe média pagam a conta mais alta. No entanto, uma das maneiras encontradas por eles para se livrarem um pouco dos nefastos efeitos da crise econômica é gastar menos, reduzir despesas e, consequentemente, ajudar menos. Com isso, quem acaba pagando a conta mais alta são os pertencentes à classe mais baixa. O resultado é o aumento do número de pedintes nas ruas e os que fazem uso das praças como moradia. As ruas e praças das principais cidades brasileiras têm demonstrado o aumento da população de rua, pessoas que não tinham nada mais para perder e que, ao deixarem de receber benefícios simples como uma cesta, uma sopa que lhes era oferecida por alguma entidade ou a ajuda que lhes davam os parentes e amigos, acabam nas ruas, dormindo em calçadas, marquises, nos bancos das praças. Em Caratinga mesmo é possível ver o aumento da população de rua e de pedintes.

Enquanto isso, algumas pessoas vão se digladiando nas redes sociais, defendendo o indefensável, como se existissem defensores da pátria. PSDB, PT, PMDB e não sei quantos “Ps” mais, abrigando Lula, Sarney, Collor, Temer, Dilma, Aécio, Serra e tantos outros, são todos culpados pela situação que o país está passando. Uns por conta de exaurir todas as reservas nacionais para implantação do Populismo e, outros, por não enxergarem o cidadão como o principal usuário dos serviços governamentais. Porém, todos eles envolvidos até o pescoço em denúncias de corrupção e do mau uso da coisa pública.

Acredito que, na hora em que entendermos que os candidatos que escolhemos são passíveis de erros, que Lula não é santo, como Temer também não o é, quando o foco da nossa defesa for o país e não os políticos e os partidos, quando percebermos que a corrupção política é apenas uma consequência das nossas próprias escolhas, talvez estejamos dando um dos saltos mais importantes para transformar esse país em uma grande nação, ética, próspera e feliz para todos os brasileiros.

Eugênio Maria Gomes é professor e pró-reitor do Centro Universitário de Caratinga. Diretor da Unec TV e apresentador de programas nas TVs Super Canal, Sistec, Unec e Três Fronteiras. Presidente da AMLM – Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas e membro das Academias de Letra de Caratinga e Teófilo Otoni. Membro do MAC – Movimento Amigos de Caratinga, do Lions Clube Caratinga Itaúna, da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga e Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG.


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Texto de Eugênio Maria Gomes publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 16/7/2017

Há poucos dias eu utilizei dois dos mais importantes meios de transporte público, em São Paulo: o metrô e o ônibus. Mais que a excelência na funcionalidade desses meios de transporte de uma das maiores cidades do mundo, o que chamou a minha atenção foi o ocorrido com um dos passageiros, que no percurso “Aeroporto – Lapa” utilizou os mesmos veículos que eu. Era um senhor, já idoso, com idade aproximada de oitenta anos. Em sua entrada, nos dois veículos, ele quase foi atropelado pelos “apressados”, que entraram em sua frente, empurrando-o, como se ele não existisse. Ele andava lentamente, carregando uma bolsa que fazia o seu corpo pender para um dos lados, quase tirando o seu centro de equilíbrio. Ofereci ajuda, mas ele gentilmente me agradeceu e não aceitou.

Mais uma vez, não pude evitar a comparação entre essa ocorrência com as que usualmente acontecem quando um idoso entra na fila de um ônibus, em Montevidéu, ou no metrô, em Paris. E eu citei dois países distantes um do outro na escala econômica, justamente para ilustrar que a questão não é a riqueza de cada povo, mas a sua educação. O Uruguai é um país pequeno, relativamente pobre se comparado aos países do G20, enquanto que a França é um dos países mais ricos e desenvolvidos do mundo, sendo a terceira maior força econômica da Europa e a sexta do mundo. Nos dois países, o idoso é respeitado, acolhido e amado. Deixei de fazer a comparação com o Japão, preferindo países ocidentais, devido à semelhança cultural que nos une. Mas não posso deixar de citar que no Japão um jovem passar à frente de um idoso seria algo inimaginável naquela cultura. Uma afronta a tudo que a cultura japonesa mais cultua: o respeito aos mais velhos. Lá, a velhice é sinônimo de Sabedoria e Respeito.

Mas essa nossa falta de cortesia e de respeito com o idoso extrapola, e muito, apenas a falta de urbanidade em dar-lhe a preferência de acesso ao ônibus e ao metrô. É muito comum fazermos cara de paisagem quando ele entra em um local e as cadeiras estão todas ocupadas – sem falar que, às vezes, sentamos no local destinado, por lei, a ele. A maioria dos nossos prédios ainda não possui rampas, corrimão e sinalização adequada a eles; nossas calçadas são irregulares, sem rampas de acesso e, normalmente estão obstruídas; não contamos com uma rede nacional de atenção à saúde do idoso, faltam médicos geriatras na maioria dos postos de saúde e muitos idosos morrem nas filas dos hospitais, sem atendimento diferenciado e de qualidade na rede pública; sem falar na falta de respeito na concessão de próteses, cadeiras de rodas, aparelhos auditivos e visuais, direito dos idosos previsto em lei, mas quase nunca implementado.

Parece que não, porém ainda existem coisas piores do que tudo isso que foi registrado até aqui: há situação mais desagradável do que você perceber que o seu envelhecimento vai se transformando em sinônimo de inutilidade? Sim, na medida em que as pessoas envelhecem vamos transformando-as em empecilhos, esquecendo-nos de que neurônios não envelhecem. Grande parte do sucesso dos países desenvolvidos advém do respeito e do bom uso da experiência e do conhecimento acumulados por seus idosos… Em muitos lugares – inclusive em suas próprias casas – muitos idosos são maltratados, agredidos, dopados com medicamentos, para ficarem “quietinhos”, para não “incomodarem” os mais novos, os que produzem…

Quando Aristóteles, há mais de 2300 anos, disse que “A Cultura é o melhor conforto para a velhice”, referia-se ao conforto da velhice coroada pelo saber, à segurança que cada idoso teria por ser um templo da Cultura e do Conhecimento, já que o idoso era respeitado – e ainda o é em muitos países – pela sabedoria, pela experiência e pelos conhecimentos acumulados.

Nossa sociedade não está preparada para lidar com os idosos. O estado brasileiro não está preparado para acolhê-los. Muitas de nossas famílias não estão preparadas também. Falta-nos formação para lidar com suas necessidades especiais. Falta-nos educação para reconhecer seu valor e sua importância. Falta-nos respeito para reverenciar sua sabedoria. Falta-nos amor, para recompensá-los por tudo que fizeram por nós, quando éramos nós que dependíamos deles. Falta-nos compaixão para lidar com seu silêncio, com seu humor instável, com suas doenças.

Acostumados a sermos um país de jovens, embriagados por uma cultura que exalta a juventude, como se esta fosse uma condição permanente, negligenciamos o idoso, relegando-lhe um papel secundário, quando não, uma existência perturbadora, que incomoda. No Japão, os idosos são um referencial de ética, moralidade, honra e dignidade para os jovens, sendo-lhes devidas, por isso, todas as honrarias possíveis. Em várias outras culturas, de hoje e do passado, um dos órgãos mais importantes é justamente, o Conselho de Anciãos!

Vamos cuidar mais dos nossos idosos, vamos reconhecer sua imensa utilidade para a sociedade, sem perder de vista, jamais, o respeito e a reverência por tudo o que construíram ao longo de sua caminhada.

“Na tradição japonesa, apenas ao completar 60 anos, é permitido ao homem o uso de blazer vermelho, pois somente após seis décadas de vida alcança-se então a permissão para usar a cor dos deuses…”

Eugênio Maria Gomes é professor e pró-reitor do Centro Universitário de Caratinga. Diretor da Unec TV e apresentador de programas nas TVs Super Canal, Sistec, Unec e Três Fronteiras. Presidente da AMLM – Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas e membro das Academias de Letra de Caratinga e Teófilo Otoni. Membro do MAC – Movimento Amigos de Caratinga, do Lions Clube Caratinga Itaúna, da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga e Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG


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Texto publicado no Jornal Diário de Caratinga, em 9/6/2017

No início da semana, enquanto aguardava atendimento em uma agência bancária, encontrei-me com o advogado Luiz Otávio Pereira dos Reis e, ao falarmos de amenidades, ele me disse o seguinte: “Quanto mais chaves você carrega, mais problemas você tem”. Gostei da frase e dos seus muitos significados. Disse-lhe que tomaria emprestado o viés e, de fato, aqui estou a falar sobre chaves e problemas.

De fato, podemos fazer uma comparação entre determinados momentos da nossa vida com as chaves. Quanto menos problemas, menos chaves temos para carregar. Sim, porque se alguma coisa está fechada, guardada, trancafiada, de certa forma existe um problema guardado. Mesmo que seja dinheiro, se está guardado a chaves, de certa maneira constitui-se em um problema. Lembro-me bem do tempo em que eu não tinha qualquer chave, até porque não tinha nada para guardar. Na medida em que o tempo foi passando, fui acumulando chaves… Chave do cadeado da bicicleta, chave do carro, chave da sala de trabalho, chave do portão da casa, da porta da sala, do cofre…

Sem percebermos, passamos a juntar chaves e, de repente, estamos carregando um, dois, três molhos de chaves. Sem falar nas famigeradas chaves digitais… Sim, cada senha funciona como uma chave. Chave para o celular, para o cartão de crédito, para a conta do banco, para acesso à internet, para abrir e-mail, para acessar aplicativos e redes sociais, para liberar a tela do computador, para acionar alarmes de casa… É chave que não acaba mais.

Há quem utilize, por exemplo, uma mesma senha para tudo o que precisa acessar de forma digital, como também existem aqueles que colocam o mesmo segredo em praticamente todos os cadeados e fechaduras, como forma de carregar um número menor de chaves. No entanto, a quantidade de coisas que precisam ser guardadas continua a mesma. Ou seja, os “problemas” continuam sendo muitos…

Chega um tempo em nossas vidas que aceitamos passar as chaves para outras pessoas, mais novas, mais capazes de enfrentar problemas. No entanto, quando esse tempo chega, já estamos sem energia para vivermos bem, sem as tais chaves. Em verdade, ficamos sem chaves, mas permanecemos com o maior de todos os problemas, qual seja, o grande e grave problema da falta de saúde, da falta de mobilidade, da falta de vontade de fazer outra coisa que não seja ficar quieto, dormir, comer, dormir e comer…

O que fazer? Como nos livrarmos de tantas chaves, de tantos cadeados e fechaduras, enquanto temos energia para usufruirmos dos momentos com poucas chaves? Nem sei se isso é possível… Talvez seja sim, pelo menos era o que pensava Charlie Chaplin, que dizia que a fé é a chave que abre a porta do impossível.

Enquanto não consigo fazer isso e, antes de passar as chaves aos outros, vou tentando ter de abrir cada vez menos fechaduras, mesmo tendo de guardar as chaves. Talvez seja por isso que o meu amigo Humberto Luiz fez o contrário, guardando chaves de cadeados que nem existem, de portas que não se abrem, como se quisesse dizer “eu posso ter quantas chaves eu quiser, sem necessariamente ter problemas, ter fechaduras ou cadeados para abrir”.

Mas eu continuo sempre tentando me livrar de algumas chaves, e continuarei tentando sempre, porque a maturidade, a experiência e a “Lei de Murphy” me ensinaram que “geralmente, é a última chave do chaveiro que abre a porta”.

Eugênio Maria Gomes é professor e pró-reitor do Centro Universitário de Caratinga. Diretor da Unec TV e apresentador de programas nas TVs Super Canal, Sistec, Unec e Três Fronteiras. Presidente da AMLM – Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas e membro das Academias de Letra de Caratinga e Teófilo Otoni. Membro do MAC – Movimento Amigos de Caratinga, do Lions Clube Caratinga Itaúna, da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga e Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG.