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Texto de Eugênio Maria Gomes publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 20/08/2017

Assim como você, eu também achei o título um tanto pesado, talvez, até de mau gosto, face ao sinônimo das palavras “excremento” e “titica”. Assim, mesmo “Merda” sendo uma palavra polissêmica – os artistas de Teatro a utilizam para desejar boa sorte -, também um escritor poderia muito bem utilizá-la de forma pejorativa. Porém, resolvi substituí-la por sinônimos. Cheguei a pensar em utilizar a sua grafia em outras línguas, mas não ficaria muito diferente, já que nas línguas de origem latina seria “merda” mesmo, em castelhano seria “mierda” e, em francês, seria “merde”. Portanto, também a sonoridade seria parecida. Assim, vamos ao causo do “excremento na Moeda”.

Em 1979, João Baptista Figueiredo assumiu o governo do Brasil, na condição de “ultimo presidente do regime militar”. Foi nesse período que tivemos uma das nossas maiores crises econômicas, ultrapassamos os 100 bilhões de dólares de dívida pública, recorremos ao Fundo Monetário Internacional e vimos a inflação, que já era alta, saltar de 45 para inimagináveis 230% ao ano. Nossa moeda era o Cruzeiro e, a nota de Cr$1,00 emitida em 1970, praticamente não valia mais nada, porquanto a nota de Cr$ 1000,00 já circulava no mercado.

Nessa época, Ernani Nogueira – um professor da escola pública carioca – tinha 17 anos e dava início ao seu primeiro emprego, na condição de boy, fazendo entregas de documentos, depósitos bancários etc. Certa vez, ao se dirigir a um cliente, no bairro de Madureira, Ernani percebeu que algo não estava muito bem com ele no momento em que entrou no ônibus e sentiu uma pequena cólica intestinal. A sensação aumentou a partir dos gases fétidos que se sucederam durante o percurso. A viagem, do centro ao famoso bairro comercial do Rio, parecia não ter fim. Depois de quase duas horas de viagem, por fim, ele desceu em frente ao famoso “Mercado de Madureira”. Caminhou por poucos metros e as pernas tiveram de se juntar, como forma de manterem os glúteos o mais próximos possível um do outro.

Ernani parou, no meio daquela multidão de compradores, transeuntes e camelôs, suando frio, curvado sobre o abdômen, e torceu para que a vontade de evacuar passasse logo. Uma flatulência, um pouco mais significativa, aliviou um pouco as dores e sinalizou a roupa íntima. Ele ganhou fôlego para andar mais um pouco, à procura de um local reservado para verificar a condição, visual, de suas roupas, já que o odor, por si só, sinalizava que o pior havia acontecido. Caminhou por mais alguns metros e visualizou uma placa, na qual se lia: lanchonete do povão. Mal teve tempo de fazer a leitura e uma cólica, dessa vez mais forte, tomou conta do garoto…

Ernani diminuiu os passos, dados como quem tem dificuldades de caminhar, com as pernas se sobrepondo a cada passo, prendendo o esfíncter o quanto podia. Por fim, chegou à lanchonete e dirigiu-se a uma pequena porta, ao lado do balcão, que continha uma pequena placa: “Banheiro unissex. Sabendo usar, não vai faltar”. Ernani entrou, encostou a porta do minúsculo cômodo, baixou a calça e sentou-se no vaso, enquanto lia um dos muitos dizeres registrados nas sujas paredes do lugar: “Nesse lugar apertado /Onde toda vaidade se apaga / Até o fraco faz força / Até o forte se borra”. E foi o que o forte rapaz fez… E muito. Quando terminou, olhou para o porta-papel higiênico e viu que ele estava vazio…

Ernani não teve dúvidas… Tirou a cueca – que já estava suja – e tentou, com ela, fazer a limpeza. Não deu certo, face a consistência do produto final. A calça estava em um canto, ao lado esquerdo da porta e, a pasta com documentos, no lado direito. Não, não podia usar qualquer um dos importantes papéis da pasta. Com muita tristeza, Ernani pegou a calça, enfiou a mão no bolso e, de lá, tirou quatro notas de Cr$ 1,00 cada, daquelas que já não valiam praticamente nada, mas que estavam reservadas para um copo de caldo de cana, antes do almoço na cidade. Bem, caldo de cana era a última coisa que ele podia tomar naquele dia. Depois de usar a cueca, de sujar as paredes, Ernani fez uso das quatro notas de Cruzeiro para limpar-se. As notas de Cr$1,00 foram limpar aquilo a que se equivaliam…

Hoje, onde o Governo decide em quanto vai aumentar o endividamento público, já astronômico, incapaz que é de conter suas despesas exageradas, suas extravagâncias e de racionalizar a gestão pública; onde até a “roupeira” da primeira-dama mora em um apartamento funcional pago por nós contribuintes; em que um Juiz tem no contracheque de Julho um total de vencimentos superior a 500 mil Reais e o Presidente libera vultosos recursos para se manter no Poder; não posso deixar de lembrar a todos que essa “desgovernança” sempre termina de um único jeito: Inflação e desvalorização da nossa moeda, assim como já ocorreu no passado…

Se não tomarem cuidado, em breve, o Real terá o mesmo triste fim do Cruzeiro. Mal servirá para a asquerosa utilidade lhe dada pelo Ernani…

Então, só nos restará a exclamação: Nossa!! Mas que titica fizeram!!!

• Eugênio Maria Gomes é professor e Pró-reitor de Administração da Unec. Membro das Academias de Letras de Caratinga e Teófilo Otoni e presidente da AMLM- Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas. É membro do Lions Clube Caratinga Itaúna, do MAC- Movimento Amigos de Caratinga e da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga. É Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG, diretor da Unec TV e apresentador de programas de televisão nas emissoras Super Canal TV, TV Sistec e Unec TV.


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Texto de Eugênio Maria Gomes publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 6/8/2017.

Tenho falado, insistentemente, sobre a questão da desigualdade racial no Brasil e de como precisamos reverter esse vergonhoso quadro que assola o nosso país, deixando milhões de pessoas sem vez e sem voz, ao longo de toda a nossa história. Retorno ao tema – e o farei enquanto tiver espaço e forças – por entender que, um país de negros somente poderá ser próspero e feliz se os seus negros, também, forem prósperos e felizes. Ademais, temos uma dívida histórica com esses nossos irmãos que ajudaram a construir a nação que, hoje, usufruímos melhor que eles, ainda assim aos trancos e barrancos, isso por conta da maioria branca que a governa.

Das mais de seiscentas mil pessoas presas no Brasil, cerca de 80% delas estão nessa condição por conta do tráfico de drogas e por roubo; 70% são analfabetas ou não têm o ensino fundamental completo e, pasmem, a maioria – cerca de 67% – é da raça negra. Ah! Os negros traficam e roubam mais que os brancos? Claro que não, eles são mais marginalizados, compõem a grande maioria dos mais pobres e dos sem oportunidades do país. Isso fica claro quando olhamos a outra ponta da escala de combate aos crimes, a exemplo da Operação Lava Jato: após três anos de deflagrada, a operação prendeu duas centenas de pessoas e, até o momento, apenas um negro compõe a estatística. Ah! Então, quando o assunto é a corrupção, os brancos roubam mais? Também não. É que só os brancos têm acesso aos altos escalões empresariais e governamentais, onde a corrupção está presente em escala elevadíssima, já que a elite brasileira é branca.

Recentemente, tive a felicidade de entrevistar o professor e pastor negro, Marco Antônio dos Santos, presidente da Igreja Metodista de Caratinga. Formado em Ciências Sociais e Teologia, pós-graduado em Gestão Estratégica e em Aconselhamento Cristão, membro do Conselho Municipal de Assistência Social e da Pastorear – Conselho de Pastores -, coordenador da Fundação Metodista e cooperador do Movimento Negro São Benedito em Caratinga, ele é acima de tudo um homem inteligente, feliz, de bem com a vida e muito consciente sobre a situação do negro no país. Para ele, a questão da discriminação racial no Brasil fica evidente quando observamos a própria localização residencial dos grupos étnicos, bastando responder à questão “onde moram os negros”….

De fato, esse negócio de falarmos que o racismo por estas bandas é meio que “velado”, não encontra respaldo na nossa conformação social. Quantos negros foram prefeitos da sua cidade? Quantos ocupam o cargo de vereador? Quantos negros possuem o curso superior? E as empresas, quantas são dirigidas por negros? Quantos negros residem nos condomínios luxuosos? As respostas a essas perguntas mostram, claramente, quão escancaradamente é racista a nossa sociedade, apesar de não deixar claro ao “inimigo” o que tem contra ele. Essa é uma das piores faces do nosso racismo: fazer de conta que não se importa com a cor da pele, quando na verdade não se importa é com nada no que diz respeito a ela, preferindo fazer de conta que está tudo bem, tudo certo.

O pior é que, em alguns casos, quando nos interessa, camuflamos a raça negra, bem na linha do “é tão bom, que parece branco”. Quando Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos chegamos a perguntar quando teríamos o nosso presidente negro. É que nos esquecemos de que já o tivemos. Não apenas um, mas, três. No entanto, até os nossos presidentes da república negros fazemos questão de ignorar, inclusive retratando-os como brancos, como muito bem o fez parte da imprensa e alguns historiadores na época… Sim, já tivemos alguns presidentes negros: Nilo Peçanha, Rodrigues Alves, Washington Luiz… Todos mulatos, negros, mas que eram tidos como “brancos” por conta de suas posições sociais elevadas…

Sempre bem-vinda seja a Operação Lava Jato! Não apenas porque pune os corruptos, mas, também, porque escancara a nossa desigualdade racial e nos leva a colocar em pauta, mais uma vez, esse nosso velado racismo.

Conta a história Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D’Argenrt fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imaginava era muito melhor. Pediu então ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não queria ver…

Nós, brasileiros, estamos como esse aldeão. Nos recusamos a enxergar a brutal discriminação racial que nos circunda, tentamos escondê-la, atenuá-la, embranquecê-la… fazemos justiça à frase de que a cegueira mais incurável, é aquela onde o cego se recusa a ver!

• Eugênio Maria Gomes é professor e Pró-reitor de Administração da Unec. Membro das Academias de Letras de Caratinga e Teófilo Otoni e presidente da AMLM- Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas. É membro do Lions Clube Caratinga Itaúna, do MAC- Movimento Amigos de Caratinga e da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga. É Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG, diretor da Unec TV e apresentador de programas de televisão nas emissoras Super Canal TV, TV Sistec e Unec TV.