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Texto de autoria de Eugênio Maria Gomes, publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 22/10/17

Recentemente, o jornalista Roberto Dias publicou um artigo na Folha de São Paulo com o título “Nossa Elite é nossa Tragédia”. No artigo, o jornalista constata, através de pequenos exemplos, quase cômicos, que a maior mazela brasileira é sua Elite. Para ele essa seria a explicação de o Brasil – um país abençoado, livre da fúria de terremotos e furacões, dono de uma natureza exuberante, de um povo alegre e inovador, sem guerras e sem conflitos étnicos internos -, ainda se arrastar no subdesenvolvimento e permanecer longe de oferecer ao seu povo condições de vida dignas, como ocorre nos países avançados.

A palavra Elite tem muitos significados na Política e na Sociologia. Aqui, a utilizamos, principalmente, no sentido que lhe foi dado por Robert Dahl, o conceituado cientista político da Universidade de Yale, como “grupo minoritário que exerce dominação política sobre a maioria, dentro de um sistema de poder democrático”. Mas, o termo também significa uma referência genérica a determinados grupos, que ocupam elevadas posições hierárquicas, em diferentes instituições públicas, partidos ou organizações de classe, ou seja, pode ser entendido simplesmente como aqueles que têm capacidade de tomar decisões, influenciar e implementar políticas ou estabelecer determinadas ações econômicas.

Pode ainda se referir às pessoas ou grupos capazes de formar ou difundir opiniões que servirão como referência para os demais atores sociais, exercendo uma espécie de liderança natural. Porém, qualquer que seja o significado que adotemos, lamentavelmente, chegaremos à mesma conclusão que o colega jornalista da Folha: a Elite brasileira é uma tragédia.

Nossa Elite política só nos envergonha. Encastelada em seus gabinetes de aço e vidro, ou reunidas em seus plenários impregnados de conchavos e acordos espúrios, protagonizam episódios de puro horror. Em todos os países onde o Parlamento é bicameral, o Senado – denominado Câmara Alta, costuma reunir o que se tem de melhor da classe política de um País. O Senado Brasileiro, por anos a fio, foi composto por políticos ilustres, acadêmicos reconhecidos, grandes juristas, enfim, personagens dos quais podíamos nos orgulhar. Rui Barbosa, Juscelino Kubitschek, Duque de Caxias, Afonso Arinos, Teotônio Vilela, Mário Covas. Hoje, o que vemos? Um Senado repleto de senadores acusados dos mais variados crimes. O episódio recente onde o Senado reintegrou Aécio Neves, depois de o Supremo Tribunal tê-lo afastado diante de inequívoca prova material na qual o Senador é gravado praticando crime de corrupção, fala por si só.

Nossa Elite econômica é retrógrada, rentista, racista. Pratica um capitalismo antiquado, dependente do Estado, o qual subverte e do qual se apropriou. Nossa elite é avessa à competição, embriagada com práticas comerciais vexatórias. Parte dela é quase escravocrata, como se constata pela edição da recente Portaria Ministerial, onde praticamente se esvaziou qualquer possibilidade de coibir-se a pratica do trabalho escravo do Brasil. Um retrocesso absurdo. Não é por acaso, aliás, que muitos senadores são latifundiários, representando Estados onde essa prática medieval de vassalagem ainda persiste.

Nossa Elite universitária é apática. Incapaz de impedir a degradação e o desmantelamento das Instituições de Ensino Superior públicas. Parte dessa Elite dedica-se a idolatrar ideologias políticas superadas e ainda, utopicamente, gastam energia na tentativa de implementar uma sociedade igualitária pela via revolucionária, como se ainda estivéssemos no século XIX.

Nossa Elite cultural é pobre de criatividade, de inovação. Estagnou-se na mediocridade musical, na mediocridade literária. Na lista de Best Sellers a maioria dos livros é de auto-ajuda; nas rádios, a maioria das músicas é uma afronta à inteligência ou aos ouvidos. Chegamos ao cúmulo de vermos o Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, a mais conhecida cidade do País, símbolo do Brasil no Mundo, negar-se a receber, nos museus da cidade, uma exposição de pintura que, segundo ele, seria “um estímulo às práticas sexuais degradantes”. Até acho que a tal exposição é de mau gosto, mas não se proíbe a exposição de arte em ambientes fechados, até porque somente entra em um recinto para ver uma mostra aquele que quer fazê-lo, ninguém é obrigado a visitar qualquer exposição de arte que seja. Isso tudo aconteceu no Rio, sem que a nossa elite cultural saísse às ruas para denunciar esse ato de ignorância atroz. Ao ler essa notícia, lembrei-me dos Talibãs, que demoliram estátuas milenares no Afeganistão por não representarem o Deus que eles achavam ser o único. Só falta esse Prefeito proibir a circulação do Kama Sutra por achá-lo pornográfico…

Sim, infelizmente, estamos mal servidos de Elite. Por todos os lados, estamos cercados do que há de pior exemplo a seguir. Precisamos nos reinventar, derrubar essas estruturas arcaicas, carcomidas, corrompidas e antiquadas que nos cercam, e reconstruir nossos valores, nossos ideais e, principalmente, os exemplos a seguir.

Enquanto essa mudança de rumo não acontece, temos que dar razão a Demétrio Sena: “Elite é uma minissociedade de pessoas educadamente mal educadas… gentilmente grosseiras… civilizadamente selvagens.”

Eugênio Maria Gomes é professor e Pró-reitor de Administração da Unec. Membro das Academias de Letras de Caratinga e Teófilo Otoni e presidente da AMLM- Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas. É membro do Lions Clube Caratinga Itaúna, do MAC- Movimento Amigos de Caratinga e da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga. É Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG, Colunista do Jornal Diário de Caratinga, diretor da Unec TV e apresentador de programas de televisão nas emissoras Super Canal TV, TV Sistec, Unec TV e TV Três Fronteiras, no Vale do Mucuri.


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Texto de autoria de Eugênio Maria Gomes, publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 8/10/17
A ideia para escrever sobre este tema surgiu a partir de um vídeo do professor Luis Henrique Beust, autor do livro “Afinal… Por que sofremos?”. Dissertando sobre a importância do sofrimento para o aprimoramento e a lapidação da nossa personalidade, ele chega à conclusão de que o importante é ser bom e não apenas ser feliz. Para ele, a bondade praticada no dia a dia levará o homem, com toda certeza, à felicidade e que, o sofrimento, leva o homem à purificação, à situação de estado de graça, como acontece com a terra que passa a produzir depois de machucada e com as plantas que ganham vida e força após serem podadas, torturadas.

Algumas situações já vividas levaram-me a uma reflexão sobre o sofrimento e a felicidade. Já tive muitas perdas na vida. Perdi amigos, avós, tios, primos e, de maneira muito especial, perdi meus pais, um irmão e a minha esposa. Destes últimos quatro, três passaram por grande sofrimento até o momento de fecharem os olhos, definitivamente. Meu pai passou anos tratando de um câncer, a ponto de ele mesmo dizer que a doença era como um carnê do BNH, daqueles que você pagava a vida inteira, sem conseguir chegar ao final do contrato. Minha esposa, depois de muito cuidar do meu pai, também passou anos cuidando de uma hepatite C, submeteu-se a transplante hepático e morreu um ano depois com o fígado novamente tomado pelo tumor. O tempo todo ela sabia de sua doença, das suas consequências e do fatal desfecho final, o que a fez sofrer, certamente, anos a fio. Minha mãe teve um período breve de enfermidade, mas muito doloroso, manteve a lucidez, mas não podia falar ou andar, dependendo dos outros para quase tudo. Sem falar que, após entrar em coma, passou quase sessenta dias em uma cama de hospital, a ponto de pedirmos a Deus a redução do seu tempo de sofrimento.

Eram três pessoas muito boas, tementes a Deus, prontas a ajudar o próximo, que se dedicaram à caridade e que colocavam, sempre, o outro à frente de seus objetivos, de seus interesses pessoais. Meus pais e minha esposa, após um período da doença, estavam completamente resignados, preparados para o desenlace derradeiro. Como se o sofrimento os tivesse preparado para lidar com um momento tão complicado, tão difícil para eles e para os que amavam. Minha esposa chegou a fazer recomendações, minha mãe manteve o semblante sereno e a fé e, meu pai consolava os mais chorosos e tentava manter o astral de todos à sua volta, sempre o mais alto possível.

Não, eu não quero – nem poderia – fazer qualquer relação entre o sofrimento e a vida que cada um escolheu para viver. Mas, posso sim, relacionar o sofrimento à aceitação da partida. Acredito que, por isso, o sofrimento seja tão importante quanto a alegria para a nossa vida. O sofrimento, certamente, transforma-nos em pessoas melhores, mais preparadas para a vida e, também, para a morte. E não falo, apenas, do sofrimento com a doença derradeira. Minha mãe, por exemplo, de todos os sofrimentos que teve na vida, sempre afirmou que nada doía mais que a perda do filho, que dor alguma poderia se comparar àquela.

Acredito que, cada dor, cada perda, cada sofrimento nos leva ao aperfeiçoamento como pessoas, como se passássemos por uma elevação de alma, a ponto de entendermos melhor a vida, os outros, as nossas e as outras angustias, os nossos e os outros medos. Quem passa por grande sofrimento passa a dar mais valor ao que tem, deixa de preocupar-se com coisas sem sentido, esquece um pouco do umbigo alheio e passa a se preocupar mais com o seu próprio. Aliás, o sofrimento do outro, de alguma forma, nos leva à reflexão sobre a nossa postura, sobre como temos conduzido nossas vidas, nossas ações. E isso acaba por nos tornar pessoas melhores, pessoas mais integras, pessoas de caráter. É de Fiódor Dostoievski, o célebre autor de Crime e Castigo, um dos maiores romances da literatura mundial, a frase “O sofrimento sempre acompanha uma inteligência elevada e um coração profundo. Os homens verdadeiramente grandes experimentam uma grande tristeza, acometidos de uma melancolia súbita.”

O sofrimento, talvez, mais do que purificação, conduz ao amadurecimento, conduz à aceitação daquilo que é inevitável, conduz à pacificação da alma, na medida em que nos ensina a valorizar e a cultivar aquilo que realmente importa em nossas vidas. E tudo isso, sem dúvida, acaba por nos tornar pessoas mais felizes, pois ao superarmos as inúmeras dores da vida, passamos a vê-la, verdadeiramente, como uma dádiva, um presente, em todo o seu esplendor, em toda a sua glória. Amadurecer nos faz descobrir que sofrer perdas é inevitável, mas que não precisamos nos agarrar à dor para justificar nossa existência, nem definir nosso futuro. Sempre nos é permitido recomeçar.

Por tudo isso, também acredito, assim como o professor Luis Henrique, que ser bom leva o homem, inevitavelmente, a ser mais feliz. Talvez, de fato, a melhor recompensa não esteja ao final da busca, incessante, do homem pela felicidade, mas, no resultado de cada boa ação que ele realiza ao longo de sua caminhada.

Portanto, sejamos bons, pois ao final, seremos mais felizes.

“Me esforço para ser melhor a cada dia, porque bondade também se aprende”, Cora Coralina.

• Eugênio Maria Gomes é professor e Pró-reitor de Administração da Unec. Membro das Academias de Letras de Caratinga e Teófilo Otoni e presidente da AMLM- Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas. É membro do Lions Clube Caratinga Itaúna, do MAC- Movimento Amigos de Caratinga e da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga. É Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG, Colunista do Jornal Diário de Caratinga, diretor da Unec TV e apresentador de programas de televisão nas emissoras Super Canal TV, TV Sistec, Unec TV e TV Três Fronteiras, no Vale do Mucuri.