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Texto de autoria de Eugênio Maria Gomes, publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA,  em 18/2/2018

Fernando Pessoa, o inigualável poeta português, inicia um de seus mais conhecidos poemas com a frase “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: Navegar é preciso; viver não é preciso”. Nela, o poeta ao mesmo tempo em que lançava uma sentença sobre a condição do homem, dialogava ricamente com a tradição histórica dos portugueses, na exploração dos mares. Todavia, segundo alguns historiadores e intérpretes da obra de Pessoa, a frase poética teria siso dita muito antes, pelo General Romano Pompeu.

Pompeu fora incumbido da missão de transportar trigo das províncias para a cidade de Roma, que enfrentava uma grave crise de falta de alimentos. Os riscos da navegação no Mediterrâneo, naquela época, eram muito grandes diante da precariedade dos barcos e dos vários ataques piratas que aconteciam frequentemente. Por tudo isso, os marinheiros daquela viagem viviam um grave dilema: salvar a cidade de Roma da grave crise de abastecimento, ou fugir dos riscos da viagem mantendo-se confortáveis em suas cidades. Foi então que, de acordo com o historiador Plutarco, o general Pompeu proferiu essa lendária frase, “navegar é preciso, viver não é preciso”, simbolizando a importância que Roma teria, inclusive, sobre a vida de seus marinheiros…

Mas, se estamos a falar de Pessoa, de Roma e de História, por que o título deste artigo é “Viajar é preciso”? Bem, aqui, usando da licença poética, faço referência a Fernando Pessoa, parafraseando sua poesia, justamente para reforçar a importância de viajar para o aprimoramento da nossa cultura, para alargar nossos horizontes, sedimentar nossos conhecimentos, aprender novas formas de ver o mundo, enfim, evoluir como ser humano…

É viajando que vemos como os outros povos enfrentam seus problemas, superam suas adversidades, resolvem suas questões políticas e sociais. E foi justamente revisitando a terra natal de Fernando Pessoa, revendo parentes e amigos, passeando pelo interior de Portugal, que me pus a pensar: por que nós, aqui no Brasil, ainda enfrentamos tantos problemas e tantas mazelas que já foram superadas por outros povos? São inevitáveis as comparações. Mas, é possível comparar o Brasil com Portugal?

Portugal é um dos países mais antigos da Europa. País pequeno, pouca população. Outrora, um dos grandes impérios do Ocidente, o país passou por sérios problemas sociais e econômicos, e até hoje, mesmo integrando o Mercado Comum Europeu, ainda é um país com problemas. Para um país de primeiro mundo, Portugal não ostenta índices de desenvolvimento comparáveis aos da Alemanha, França ou Noruega. Na Europa, Portugal ainda é considerado um país pobre.

No entanto, comparado ao Brasil, ainda estamos muito longe de chegar perto do padrão de vida de sua população… Estamos longe do grau de desenvolvimento social e cultural que Portugal ostenta. Na verdade, ainda levaremos mais de trinta anos para alcançar o IDH que Portugal tem hoje. Temos um longuíssimo caminho pela frente. Um caminho que poderia ser encurtado se nos déssemos conta de nosso potencial, de nossa criatividade, de nossa energia e colocássemos tudo isso em prol de nosso desenvolvimento como nação. Seríamos muito mais felizes se superássemos essa triste realidade, que nos condena ao atraso; se vencêssemos a precariedade da saúde e a miséria; se fizéssemos, enfim, uma grande revolução – não uma revolução armada, raivosa, mas uma revolução ética e cultural – que nos permitisse expurgar do nosso dia a dia e, principalmente, de nossa classe política, a maior de todas as mazelas nacionais, qual seja, a corrupção endêmica que nos envenena.

Lisboa, Porto, Braga, Cintra, cidades antigas, ruas limpas, calçadas sem buracos, avenidas sem poças d’água. Alguns mendigos? Sim. Principalmente em Lisboa. Sinais da crise econômica. Os ônibus param no ponto, no horário aprazado e aguardam os passageiros tomarem seus assentos. Ninguém viola um sinal de trânsito. Não se ouvem buzinas. Não se ouvem tiros, pois, há pouquíssimos policiais nas ruas, quase nenhum, na verdade. Portugal é um dos países mais seguros do mundo.

Há poucos prédios ultramodernos e envidraçados. Não são necessários. Modernidade e conforto seguem padrões diferentes dos nossos. Em contrapartida, há prédios com mais de quinhentos anos e ainda perfeitamente funcionais. Preservados.

Povo educado, ordeiro e que respeita as leis. As pessoas não são alienadas, fazem protestos e defendem seus direitos. Mas aprenderam a importância do respeito ao direito alheio como única forma de se manter a coesão e a paz social.

O Rio D’Ouro, que deságua no Porto, corta todo o país. Suas águas são limpas. Não são potáveis, mas são limpas. Não há guaritas. Não há cercas. Na verdade, nos supermercados, as entradas estão sempre abertas. Sequer há comprovantes de estacionamento. Nas ruas, não há flanelinhas e o lixo é posto nas lixeiras!

Quanta diferença. Triste assimetria com o que ocorre aqui. O quanto ainda temos a conquistar! Portugal tem problemas – e muitos -, mas lá se desfruta de uma qualidade de vida absolutamente impensável para os padrões brasileiros atuais.

Covardia comparar um país tão jovem com um país tão antigo? Será? A economia portuguesa corresponde a menos de dez por cento da economia do Brasil. Portugal é do tamanho do estado de Pernambuco. Sua população é menor do que a de Minas Gerais!

Mesmo se concordarmos que essa comparação é descabida, considerando as infinitas diferenças que nos separam, não podemos esquecer de que temos um passado comum. Estivemos unidos por mais de trezentos anos. Compúnhamos o Reino Unido de Portugal e Brasil. Há uma estátua de D. Pedro I em pleno Rossio, lá com o título de Pedro IV, Rei de Portugal. O nosso primeiro Imperador!

Sim. Viajar é preciso. Para vermos, aprendermos, compararmos e voltarmos, com a esperança de contribuir para que, um dia, também possamos nos orgulhar mais um pouco das nossas paragens, desta terra inigualável, que atravessa momentos tão difíceis.

Ao terminar este texto, rendo todas as homenagens ao grande poeta lusitano, reproduzindo a parte final de sua poesia: “Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.”


* Eugênio Maria Gomes é professor e escritor. Pró-reitor da Unec, membro do Lions Itaúna, da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga e do MAC – Movimento Amigos de Caratinga. Membro das Academias de Letras de Caratinga e Teófilo Otoni e presidente da AMLM – Academia Maçônica do Leste de Minas.

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Texto de autoria de Eugênio Maria Gomes, publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA,  em 4/2/2018

No último dia do ano passado, fiz 59 anos de idade. Assim, no final de 2018 chegarei, se Deus quiser, aos meus 60 anos. Acredito que tenho menos tempo para frente, do que para traz… Se a minha passagem por aqui se enquadrar na média da expectativa de vida dos brasileiros, terei então mais 15 anos, mas como há muita gente vivendo 100 anos por essas bandas, talvez tenha, ainda, mais 40 anos de vida. De toda sorte, já ultrapassei, e muito, a metade do tempo de vida útil a mim concedida. Daqui para frente, poucos anos de energia, alguns de independência e, talvez, a maior parte do tempo que me resta esteja na dependência de alguém. E o que isso significa? Significa que tenho muito pouco tempo para perder com o que não importa, principalmente com a mediocridade humana.

Ando decidido a tomar algumas atitudes, práticas, de forma a tornar os meus dias muito mais felizes do que são hoje. E olha que eu não posso – mesmo -, reclamar de nada. Tenho tido dias extremamente felizes, só que eu quero mais e tenho pressa!

Gosto de viajar – e tenho viajado muito. Quero mais. Neste ano quero fazer, pelo menos, mais umas duas viagens internacionais com o João e, por isso, dividi o meu período de férias. Também quero conhecer lugares – incríveis -, no Brasil. E, por que o João? Ora, gostaria de viajar com a minha família, com os meus amigos, mas o João, além de ser uma excelente companhia, é quem tem a disponibilidade no momento.

Sempre fui avesso a qualquer tipo de preconceito, mas até agora, tenho feito vista grossa para alguns, como forma de ter uma boa convivência com o preconceituoso. Não quero mais. Se algum conhecido ou um amigo tiver qualquer tipo de preconceito, incontido, escancarado, acerca de algum tema que possa magoar alguém, ouvirá de mim o desejo de romper o relacionamento. Ninguém é obrigado a gostar de tudo, ou a aceitar tudo, mas tem, sim, a obrigação de respeitar o outro. É racista? Que guarde essa idiotice com ele. É sectário religioso, homofóbico, avesso à obesidade ou à magreza, tem alergia a pobre ou se julga melhor do que os outros? Tente mudar e, caso não consiga, tenha pelo menos vergonha de dar visibilidade a isso.

Sempre votei em partidos – não o faço mais. Passei boa parte da minha vida acreditando que o PT acabaria com o Brasil. Se o fez, recebeu a importante contribuição do PMDB, do PSDB e de tantos outros. A ideologia, por si só, não governa, já que está ligada a quem a conduz. Votarei em pessoas, independentemente de sua filiação partidária, até porque, no Brasil, isto é uma falácia.

Trabalho há mais de quarenta anos e passei por algumas empresas – não muitas -, numa quantidade que dá para contar em uma mão. Em todas elas, sempre encontrei pela frente aquele “tipinho” que tenta destruir o objeto de sua inveja, que fica articulando pelas salas das chefias, tentando desvalorizar o trabalho do outro, tentando ocupar o lugar alheio, comum nas organizações. Com esse sempre fiz vista grossa, fiz de conta que não atrapalhava e, até, mantive um bom relacionamento. Sempre caíram sozinhos, apodreceram, sucumbiram à sua própria virulência. E, continuarão apodrecendo em sua insignificância. Só não pretendo mais é gastar meu sorriso com esse tipo de gente.

Trabalho, também, com mídias. Colunista de jornal, escritor, apresentador de programas de TV, com programas em vários canais de televisão. Tenho canal no Youtube, site, página nas redes sociais. Além disso, publico meus livros, organizo a publicação de centenas de pessoas durante o ano, coordeno projetos sociais e culturais e participo de várias instituições, inclusive dirijo uma Academia de Letras. Por conta disso tudo, o que não faltam são notícias, posts, registros em jornais, nas mídias sociais e nas redes de televisão. Só faço rir de alguns idiotas quando dizem que “ele gosta de aparecer”, como se fosse possível atuar nas mídias, em tantas linhas de frente, sem aparecer. A partir de agora, continuarei sorrindo dessas idiotices, mas, dar-me-ei o direito de desejar que essas pessoas, no mínimo, mordam suas línguas e despertem-se para o cuidado de suas próprias vidas. Não, não estou mais amargo. Também não estou mais sem paciência com tudo e com todos. Apenas não tenho mais tempo, “saco” e energia para lidar com a natural arrogância dos medíocres. Aliás, mediocridade e arrogância são faces da mesma moeda.

Em um país que vive um momento em que a “vulgaridade é um título e a mediocridade um brasão”, é muito difícil não incomodar quando se é autêntico, íntegro, honesto e competente! Quando penso em todas essas tristes figuras, que veem a vida passar diante de si próprios, aprisionados nas janelas de suas personalidades pueris e simplórias, lembro-me, apenas, de que “viver na mediocridade não é uma questão de oportunidade, mas de escolha”.

• Professor e escritor