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Texto de autoria de Eugênio Maria Gomes, publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 24/06/2018

Caratinga, nossa cidade das palmeiras, está completando 170 anos. Cidade dos artistas, dos escritores, de gente querida e importante. Cidade que me acolheu com carinho e que me prestou muitas homenagens nesses dez anos de caminhada literária. O que falar dessa cidade altaneira, da pedra mais linda, da lua mais cheia e de uma gente tão boa? Viajo nos versos do padre José Rocha, para dizer: “Caratinga, cidade esperança! / Flor da mata, gentil arrebol! / Seja fé tua seiva divina, / Seja a hóstia sagrada o teu sol!”; “Têm mistérios teus céus encantados! / Que um dia aspirou o teu ar / Não esquece jamais e, se parte! / Há de em breve saudoso voltar!”.

Já registrei certa vez que, quem conhece Caratinga, jamais a esquece. Quando nos permitimos amar e ser amados pela cidade, não conseguimos mais encontrar lugar melhor para viver. A gente vai e volta. Como assim não encontrar lugar melhor do que Caratinga? É que se pode achar lugar mais bonito, mais cosmopolita, mais desenvolvido, mais rico, porém, dificilmente, se encontrará lugar tão agradável para viver.

No aniversário de 170 anos dessa bela cidade, temos muito para comemorar. Caratinga está ganhando a sua Feira Literária, uma iniciativa do artista EDRA, com a participação de membros da ACL, a Academia Caratinguense de Letras, da qual tenho a honra de fazer parte. Temos uma APAC – Associação de Proteção e Assistência ao Condenado – que é referência no estado; uma Casa de Formação de Padres – Seminário Diocesano de Caratinga – que é tida como exemplo para as demais Dioceses do País; um pool de veículos de comunicação como poucas cidades possuem, incluindo as de maior porte, temos uma Unidade do Tiro de Guerra tão integrada à comunidade, que faz inveja às outras cidades e unidades.

Temos um belo e moderno prédio que abriga o Fórum da Comarca de Caratinga, onde a Justiça é célere e o cidadão é acolhido com cuidado e com respeito; uma Justiça do Trabalho que age com qualidade e parcimônia; um Batalhão da Polícia Militar que trabalha para proteger o cidadão e uma Superintendência Regional de Ensino, dirigida por uma ótima professora, atuando pela boa Educação. Temos Unidades do Corpo de Bombeiros, uma Delegacia Regional de Polícia, um Centro Universitário que é referência no estado, várias faculdades, excelentes clubes de serviços, várias lojas maçônicas, bons supermercados, empresas de transporte de passageiros e belas igrejas. Temos profissionais criativos, voluntários engajados nas mais diferentes causas culturais e sociais, temos filhos da terra atuando nas mais diversas áreas, no Brasil e no mundo.

Mas, por aqui, só temos coisas boas? Claro que não. Temos muito o que melhorar, muito o que ajudar a construir. Nosso rio Caratinga, feio, com jeitão de esgoto a céu aberto, está morrendo. Na terra dos artistas, faltam palcos e espaços adequados para a exposição de suas artes. Na cidade dos escritores, faltam bibliotecas, boas livrarias e incentivos culturais. Na cidade do Muriqui e da Mata Atlântica, faltam respeito e cuidado com o meio ambiente. Temos uma das mais belas praças do interior de Minas, clamando por cuidados, sucumbindo à falta de manutenção e ao domínio pelos moradores de rua.

Mesmo assim, Caratinga é uma cidade muito, mas muito gostosa mesmo para se viver. Seus problemas podem e serão resolvidos, porque sua gente é guerreira e trabalhadora. Uma gente que acredita em dias melhores. E eu me sinto parte dessa corrente em prol de Caratinga. Sou cidadão honorário dessa bela cidade e vivo nela desde os meus quatro anos de idade. Nela, criei os meus filhos, crio os meus netos, escrevo os meus livros, ministro as minhas aulas, desenvolvo os meus projetos, professo a minha fé, admiro a sua gente e brigo ao ouvir falarem mal dela. Eu acredito no potencial dessa cidade, na sua capacidade de se reinventar, de ser próspera e feliz para todos. Parabéns Caratinga!

• Eugênio Maria Gomes é professor e Pró-reitor de Pesquisa, Pós-graduação e Extensão do Centro Universitário de Caratinga; diretor da Unec TV e apresentador de programas nas TVs Super Canal, Sistec, Unec e Três Fronteiras; presidente da AMLM – Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas e membro das Academias de Letra de Caratinga e Teófilo Otoni; membro do MAC – Movimento Amigos de Caratinga, do Lions Clube Caratinga Itaúna, da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga e Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG.

 


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Texto de autoria de Eugênio Maria Gomes, publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 17/6/18

Maria e João eram casados e moravam em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Vida tranquila, em um lugar pacato, daqueles onde todos se conhecem. Ela, branca, ele, negro e, os filhos, uma mistura dos dois. Ele era motorista e, ela, uma cozinheira de mão cheia. Ninguém fazia um frango assado e uma macarronada como Maria fazia. O interessante é que tinha algo muito especial em seu jeito próprio de preparar os quitutes: ela usava muito as mãos ao cozinhar. Talvez, aquela macarronada só ficasse tão boa porque ela misturava o molho à massa, com as mãos. Chegava a ser bonito ver suas mãos trabalhando em uma bacia, levantando o macarrão com as duas mãos, em um movimento continuo, fazendo com que o molho se espalhasse, de forma homogênea, na bela macarronada. O frango? Ora, era partido com as suas próprias mãos. Aos poucos, coxas, asas, peito, enfim, cada parte do frango, ia se acomodando na vasilha, devidamente separados pelas mãos de Maria.

A vida corria lenta e tranquila para Maria e João. No domingo – ou quando chegava uma visita – lá ia a dona da casa preparar uma boa macarronada e um delicioso frango assado. Às vezes, vários frangos eram assados e muitos pacotes de macarrão cozidos, quando a família resolvia visitá-los. Mas, infelizmente, um dia João adoeceu e partiu dessa pra melhor. O enterro foi marcado para o início da tarde e, logo pela manhã, as pessoas começaram a chegar para o velório. Era muita gente, pessoas de perto e de longe, amigos, familiares e curiosos, comuns em cidades do interior de Minas, que chegam a chorar por defunto que mal conhecem.

Pois, bem, no caixão, inerte, lá estava João, com aquela cor negro-pálida, meio amarelada mesmo, deixando seus amigos e familiares tristes, muito tristes. Maria, chorosa, sentia falta do companheiro de tantos anos. Por volta das dez horas, a multidão presente na casa e na calçada, da casa de Maria, era muito grande. Maria, preocupada com o avanço das horas e o roncar dos estômagos, começou a dividir sua presença entre a sala – onde estava o caixão – e a cozinha. E assim, entre as dez horas da manhã, ao meio dia, daquela triste e ensolarada manhã, Maria não parou um segundo.

Impressionante como a viúva conseguia, com grande maestria, dividir os sentimentos de viúva chorosa com os de cozinheira prendada, ágil e preocupada em servir. De vez em quando Maria chegava à sala, se debruçava sobre o caixão, passava as mãos no rosto do marido, chorava e soluçava, para, em seguida, dirigir-se à cozinha e dar continuidade ao preparo de sua maior especialidade: a macarronada com molho vermelho e o frango assado.

João, inerte naquele caixão, aos poucos foi perdendo aquela cor amarelada, em uma pele opaca, morta. No começo, começou a aparecer um pouco de brilho e a pele, devagar, foi ganhando um pouco de cor. Por volta de meio dia, quando todos foram convidados a almoçar, a área da cozinha e o terreiro, nos fundos da casa, ficaram pequenos para tanta gente. Na sala, poucos ficaram ao lado do caixão de João que, naquele momento, estava corado, como se estivesse vivo. Poucas vezes se viu um defunto com tanto brilho, em uma face mais que rosada… João estava com a face avermelhada e brilhando, como se tivesse acabado de chegar da labuta, depois de ter tomado muito sol.
Na cozinha, todos saboreavam o frango – sempre partido pelas mãos ávidas de Maria – e a macarronada, também misturada com as mãos da viúva. É possível, que naquele dia, o frango tenha ficado com menos gordura e a macarronada com menos molho vermelho, face à quantidade deixada, por Maria, no rosto e nos braços do amado, a cada vez que chorava sobre o seu corpo.

O evento mostra o efeito que uma camada de óleo pode fazer para melhorar a aparência de um defunto… Imagine o que anda fazendo o óleo de peroba nessa turma cara de pau da política brasileira….!

• Eugênio Maria Gomes é professor e pró-reitor do Centro Universitário de Caratinga – Unec -, diretor da Unec TV, membro das Academias de Letras de Caratinga e Teófilo Otoni e presidente da AMLM – Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas. Membro da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga, do Lions Clube Caratinga Itaúna e do MAC – Movimento Amigos de Caratinga. É o Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG