37597182_2041340342544913_8738792038150963200_n.jpg

Publicado no Jornal DIÁRIO DE CARATINGA de 22/7/2018

José, um cidadão do interior de Minas, andava meio cismado com um incômodo no peito, sentido nos últimos dias. Não era propriamente uma dor, mas, um aperto, uma sensação ruim. Em conversa com um amigo e colega de trabalho, ouviu dele o seguinte: “Veja se isso não é falta de Deus. Deus está sempre por perto, mas, é preciso que abramos a porta e o convidemos a entrar”. Tal afirmativa encontrou guarida no pensamento de José e uma pergunta passou a martelar o seu juízo: o que significaria “Abrir a porta para Deus”?

Pouco tempo depois, José saiu do trabalho e dirigiu-se ao caixa eletrônico de uma instituição bancária. No retorno, ao passar perto de uma igreja, resolveu fazer algumas preces, na tentativa de responder a tal pergunta, incrustada em sua mente. Logo na entrada do templo havia um rapaz, com jeito de ter uns 30 anos, encostado no portal. Assim que ele avistou José, ergueu uma das mãos, com a palma virada para cima e lhe solicitou ajuda para poder comprar comida. José olhou aquele rapaz jovem, aparentemente forte e, sem sequer responder ao seu pedido, dirigiu-se à pequena capela de adoração, enquanto pensava o quanto era absurdo aquele jovem pedir esmolas em vez de procurar trabalho. De joelhos, José rezou por alguns minutos, com tanto fervor que, por pouco, sua aura não foi vista. Ao sair da igreja, pelo mesmo portal de entrada, apenas olhou mais uma vez o rapaz e seguiu o seu caminho. Permaneceu com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele terminou o dia.

José chegou a sua casa cansado, estressado, depois de um dia intenso de trabalho. Mal respondeu ao cumprimento da esposa, chamou a atenção do filho por conta de um barulho qualquer, não respondeu ao pedido de bênção de sua filha e foi truculento com a empregada, por conta de um pijama que não havia sido passado. Sua esposa ainda terminava o jantar quando ele se serviu, pegou o prato e dirigiu-se ao sofá, intercalando a mastigação com o olhar atento no telejornal. Comeu feito um leão, engolindo rapidamente a comida, sem qualquer cerimônia, sem qualquer agradecimento e, em pouco tempo, roncava em frente à televisão, sendo arrastado pela esposa até a cama. Deitado, lembrou-se da frase “Abrir a porta para Deus” e fez a oração da noite… Rezou e dormiu, com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele passou a noite.

No dia seguinte, José acordou cedo. Sentado na beirada da cama, lembrou-se da “porta fechada” e fez sua oração da manhã. Agradeceu a noite e pediu pelo dia que estava começando. Entrou no chuveiro, gritou a mulher e reclamou por conta da toalha que não estava no lugar de costume. Reclamou do café mais fraco do que o habitual, falou um palavrão ao tropeçar em um brinquedo, maldisse a vida, entrou no carro, sem dar tchau ou dirigir qualquer palavra à esposa e aos filhos que ficaram à mesa, fazendo o desjejum. Ele deu partida no motor e, mais uma vez, não gostou de seu barulho. Fez o sinal da cruz, e partiu com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele iniciou o dia.

Naquele dia, o barulho do motor sobrepôs-se por um instante à afirmativa “Abrir a porta para Deus” e ocupou seu pensamento, fazendo-o concluir que era preciso trocar seu automóvel. O carro já tinha mais de três anos de uso e já estava com mais de cem mil quilômetros rodados. José desejava um carro maior, com mais acessórios, mas queria fazer a troca sem assumir prestações e, também, sem desembolsar muito dinheiro. Se havia uma coisa que José sabia fazer era auferir lucro fácil, passar a perna nos outros e aumentar a conta bancária. No final do dia, estava de carro novo. Porém, antes de sair com o seu possante da concessionária, José lembrou-se novamente da tal “porta fechada para Deus” e fez uma oração, agradecido que estava por tudo dar tão certo em sua vida. Em seguida, foi dar aquela voltinha, desfilando o fruto de seu sucesso. Desfilou com a mesma sensação de “peito apertado”, de porta fechada para Deus… E, assim, ele passeou pela cidade.

José voltou a procurar o colega de trabalho e amigo que havia lhe falado sobre Deus e as portas que podem ser abertas para Ele entrar, em busca de respostas para o seu “peito apertado”, para a sensação de “Falta de Deus”. Relatou-lhe os últimos acontecimentos, firme no entendimento de que era um homem de sorte. Tinha fé, família, trabalho, dinheiro e o olhar de admiração das pessoas. Apenas lhe faltava o alívio no peito, a boa sensação da presença de Deus. Do amigo, recebeu a seguinte resposta: “Abrir a porta para Deus significa, muito mais, do que ajoelhar-se no banco da igreja, apresentar-se piedoso ou rezar a cada ação desenvolvida. Abrir a porta para Deus entrar, significa, também, ser bom, justo, sincero, honesto, leal e caridoso”.

De certo, mesmo sendo Deus, Ele não entrará em nenhuma casa, sem ser convidado. Ademais, Ele certamente tem mais coisa a fazer que sair derrubando portas que insistem em permanecer fechadas. Rezar abre portas, porquanto o convite para Deus entrar é feito através das boas obras. “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”. (Tiago 2:26).

Eugênio Maria Gomes – professor, apresentador e escritor.


36882345_2019101858102095_4648196392949383168_n.jpg

Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA em 8/7/2018

Na adolescência, ouvi uma música de campanha dos candidatos à prefeitura de Caratinga – Grimaldo e Moacyr – que jamais saiu da minha cabeça, de maneira especial o final do refrão, que dizia: “… Se você ficar pra trás, jacaré vai te engolir”. Essa letra acabou por virar um conceito, algo a ser vivido por mim. Não por conta dos partidos políticos, de seus candidatos ou de suas ideologias, mas pelo o que a letra representava na minha maneira de enxergar e tentar viver a vida. Se há uma coisa que aprendi é não passar o tempo todo em lamúrias, em lamentações. É muito fácil colocarmos a culpa de todos os nossos infortúnios, nos outros. Chega o momento em que é preciso assumir responsabilidades, segurar as rédeas da própria vida, parar de olhar na janela do vizinho e cuidar do chão sujo, da cama mal arrumada ou do fogão encardido da própria casa.

Quando eu ainda era um garoto, dormia com mais quatro irmãos, em duas camas beliches, emparelhadas, e uma de campanha, entre elas. Isso, em um quarto menor do que qualquer um dos dois que o meu filho tem, apenas, para ele. Sim, ele tem dois quartos, um na minha casa e outro na casa da irmã. A situação era muito difícil para todos nós, com a minha mãe trabalhando sem descanso e o meu pai na labuta, de sol a sol. Acho que foi deles que adquiri essa vontade de fazer as coisas acontecerem na minha vida. Jamais ouvi de meus pais lamúrias, reclamações, xingamentos à vida ou a quem quer que seja. Eles simplesmente trabalhavam e nos ensinavam a enxergar a vida de frente, a assumir erros e a corrigir rotas.

Naquela época, tudo o que eu pensava era o que eu deveria fazer para, em algum momento, ter uma vida melhor. Então eu trabalhava, ajudava meus pais, e estudava. Acho que acabei chegando a um bom lugar, pelas mãos de Deus, por meu esforço e pelas muitas ajudas que recebi. Não, eu não cuspo no prato que comi. Pelo contrário, até porque, de minha boca, ninguém, jamais, ouviu uma palavra de desagrado, de rancor, de ofensa. Sou muito agradecido por tudo o que recebi – e tenho recebido – ao longo dessa minha caminhada. Tenho poucas coisas na vida, mas, todas muito importantes. Tenho família, tenho amor, tenho pensamentos positivos em relação à vida e aos outros, sou crente nas pessoas – mesmo apanhando de vez em quando -, lido bem com as diferenças, com as diversidades, sei que serei sempre um aprendiz e tento viver a vida com muita alegria.

Às vezes ouço de algumas pessoas, lamúrias e mais lamúrias, lamentações em cima de lamentações, sem ver nelas qualquer esforço para encontrarem uma saída. Vejo-as culpando os outros por seus insucessos, cuspindo em pratos que lhes alimentaram, deitados na lama e achando os outros sujos. Talvez tenham sido as dificuldades que tive na vida, associadas à Fé e ao imenso amor da minha família, que me fizeram encarar a vida de frente, sempre com otimismo, com o pensamento no bem. E é isso que tenho tentado passar à geração familiar que está me sucedendo: vontade de prosseguir, coragem para reagir, capacidade para enxerga-se no outro e energia para ser feliz.

Aquele que busca ser, de fato, feliz, não tem tempo a perder com bobagens, com coisas pequenas, com tropeços ou eventuais dificuldades. Quem busca a felicidade, tem o olhar voltado para frente e, quando baixa os olhos, é para olhar o estado de seu próprio umbigo para, em seguida, levantar a cabeça e prosseguir.

Quem quer ser feliz sabe que, se ficar para trás, provavelmente será engolido pelo jacaré…

Quem quer ser feliz, olha sempre por sua própria janela e, ao olhar, percebe que muitas das coisas que vê, sempre estiveram lá, e que a diferença entre ser ou não ser feliz, não está propriamente nas coisas que vemos, mas sim na maneira como queremos vê-las.

“Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor… Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino… E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim” – Cecília Meireles.

Eugênio Maria Gomes – professor, apresentador e escritor.