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Texto publicado no Jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 19/8/18

Confesso: eu e a representante da subordem de insetos, denominada “Blattaria”, não combinamos. Não é por menos que, assim como fiz em relação às minhas filhas, combinei com o meu filho João Victor que eu seria sempre o responsável por combater a “Mula-sem-cabeça”, a “Cobra-cega” e o “Saci Pererê”, enquanto ele ficaria por conta do simples, frágil e pequeno inseto, com o nome de Barata. Tem dado certo, até porque não tenho tido o desprazer de encontrar com o inseto e, muito menos, com aqueles personagens do nosso folclore.

Eu tenho alguns registros na memória acerca dos dissabores que a barata me causou. O primeiro deles aconteceu em um banheiro de rodoviária, no início dos anos oitenta. Eu era engenheiro de uma siderúrgica, em Juiz de Fora, e regularmente, ia ao Rio de Janeiro, para reuniões com a diretoria. Certa vez, ao usar o banheiro do terminal, assim que me acomodei no assento sanitário, vislumbrei a danada na porta, na mesma altura do meu rosto. Nossos olhares se cruzaram e permanecemos impassíveis, por algum tempo. A dor de barriga desapareceu como em um passe de mágica e, com o esfíncter travado, encostei o mais que pude na parede, enviando-lhe o meu firme desejo de que ela descesse, calmamente, e tomasse o rumo do corredor do banheiro. Parece que ela foi tocada pela força do meu pensamento porque, lentamente, ela foi descendo, descendo, até alcançar a base da porta e desaparecer da minha frente.

Depois de alguns instantes, ouvi um barulho de algo sendo amassado, seguido de uma frase dita em bom e alto som: “você já era, sua barata”. Relaxei, fiz o que me levara ao reservado e tomei o meu destino.

O segundo dos muitos dissabores causados pela barata, quase me levou a um desentendimento com minha esposa e aconteceu logo nos primeiros dias de casados. Estávamos em viagem para Recife, já em cumprimento à nossa “Lua de Mel”. Havíamos casado em Caratinga e estávamos retornando para casa. Em uma parada, naqueles hoteizinhos de beira de estrada, o tempo esquentou. No começo, por conta da energia própria de dois jovens, dormindo juntos, já com o consentimento social. Depois, por conta da tal barata. É que, logo após o primeiro relaxamento, fui ao banheiro e encontrei, me esperando na porta, a danada da barata. Ela parecia bem maior que o normal, mais envernizada do que de costume e com os bigodes em riste, apontados para mim. Voltei mais rapidamente do que fui e me deitei ao lado de minha esposa, assustado.

Descobri, naquele dia, que ela não tinha medo de barata. Que alegria! Apesar de cansada, ela se levantou, passou a mão em um chinelo e partiu em direção ao banheiro. Fechou a porta e, em seguida, ouviu-se um barulho do solado de borracha batendo no chão. Depois, o barulho da descarga. Foi tudo muito rápido, mas com tempo suficiente para passar o filme em minha mente, vendo aquela barata sendo esmagada pela chinelada e, em seguida, rodopiando no redemoinho de água do vaso sanitário, até sumir esgoto abaixo. Ela voltou, dei-lhe um beijo agradecido e retornei ao banheiro.

De fato, não visualizei o inseto na porta e nem em lugar algum onde a minha vista conseguia alcançar. Mas, não cheguei a sentar no vaso sanitário, já que a tal barata saiu detrás dele e passou rente ao meu pé. O susto foi grande e, sinceramente, não sei como foi que consegui sair do sanitário. Em pouco tempo estávamos discutindo, ela insistindo que a tinha matado e eu afirmando que ela estava lá. Depois de muita discussão ela confirmou que, realmente, não a tinha matado, já que a dita cuja tinha entrado no ralo. Acalmamo-nos e eu ouvi a sua promessa de que, doravante, ela não jogaria no vaso o inseto sem antes mostrá-lo devidamente inerte, morto.

Com a morte de inseto voltamos às nossas atividades e fizemos prevalecer o refrão da música de Alexandre Pires: “Ele vai dar uma chicotada na barata dela”.

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor.


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Texto publicado no Jornal Diário de Caratinga, em 5/8/2018

Daqui a pouco chegará o momento de escolhermos o presidente que irá governar o país, nos próximos quatro anos. Até agora, se nos apresenta um cenário desanimador em termos de pré-candidatos. Também, a campanha eleitoral não começou efetivamente e, até o momento, tudo o que temos recebido são notícias soltas, muitos comentários com veracidade duvidosa e, claro, muitas Fake News.

Olhando o cenário atual e os candidatos que se apresentam, ainda é cedo para dizermos “este é o meu candidato”. Porém, independentemente dos perfis à disposição, uma coisa é certa: eu sei, exatamente, o que eu desejo e o que eu não desejo como características necessárias do futuro chefe do executivo brasileiro. Eis algumas:

– Que ele seja o funcionário público número 1, que seja o melhor, que seja exemplo para todo o funcionalismo brasileiro.

– Que ele priorize a Educação, de maneira muito especial a básica e fundamental e que ajude a derrubar o medo que os políticos têm de se submeterem ao julgamento e avaliação de eleitores educados e bem informados.

– Que ele valorize o professor, a tal ponto, que consiga reverter a aversão que começa a tomar forma, entre os estudantes por esta tão digna profissão, devido à baixa remuneração e ao desrespeito com que os seus agentes são tratados.

– Que ele invista, efetivamente, na Saúde Pública. Que ela melhore tanto que ele, também, tenha coragem de utilizar o mesmo serviço oferecido à população.

– Que ele valorize e invista nas boas instituições sociais, apoiando, especialmente, as que trabalham com crianças em situação de risco social, idosos, dependentes químicos e portadores de necessidades especiais.

– Que ele respeite as diversas diferenças existentes em um país tão plural, quanto o Brasil. Que ele veja o cidadão antes de ver a sua etnia, a sua crença ou as suas escolhas pessoais.

– Que ele seja honesto, probo e que crie uma agenda que privilegie o país, em vez de privilegiar partidos, políticos, familiares e amigos.

– Que ele consiga colocar a economia do país nos trilhos, mantenha a inflação em queda e reduza a taxa de desemprego ao mínimo aceitável.

– Que ele implemente políticas que quebrem o ciclo de insegurança que tomou conta do país e que tem levando medo, tristeza e dor às famílias brasileiras.

– Que ele consiga governar sem amarras e que privilegie o mérito na composição de seus ministérios e nos postos de direção das empresas estatais.

– Que ele seja o principal interessado nas reformas política e tributária, diminuindo o número de partidos, os benefícios concedidos aos parlamentares e a carga de impostos que pagamos para manter tudo isso.

– Que ele seja um defensor da liberdade de expressão e da livre manifestação, responsável, de todos os grupos sociais.

– Que ele valorize a Cultura, em todas as suas modalidades, assim como a todos os seus agentes.

– Que ele seja o primeiro defensor dos cuidados com o meio ambiente e reforce a disseminação do conceito de sustentabilidade e de responsabilidade ambiental.

-Que ele recupere a dignidade e a respeitabilidade da política externa do País, de forma que o Brasil retorne a atuar, positivamente e com altivez, nas relações internacionais.

Enfim, que nosso próximo Presidente seja alguém digno, respeitável e efetivamente compromissado com os legítimos interesses de toda a sociedade brasileira.

Agora, é aguardar o início da campanha, para fazer a melhor escolha. Voto branco e voto nulo podem significar a eleição do candidato mais inadequado. Por isso, mesmo que não encontre, em um candidato, todas as características que gostaria de ver no próximo presidente, pode ser que tenha de escolher o “menos pior”. Dessa vez não vou no “bolo”… Eu quero, sim, avaliar cada ficha e cada uma das propostas que se apresentarem.

• Eugênio Maria Gomes é professor, apresentador e escritor.