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Texto publicado no Jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 16/9/18

Os sessenta anos vão chegando e, com eles, a nostalgia. Na pauta de hoje, boas lembranças de minha infância. A cada estiada de chuva, lá estava eu aproveitando o resto de correnteza, em um canto da rua, para soltar o meu barquinho de papel. No começo, ainda com a rua sem asfalto, a lama tomava conta das pernas no gostoso processo de alcançar um pouco de água em movimento. Depois, já pisando em calçamento, o canto formado pela rua e o meio fio era sempre o lugar ideal para a navegação do barco.

Eu aprendi a fazer barco de papel com o meu avô Cantídio Marques, um homem tão presente em minha vida, que depois de tantos anos sem a sua presença, meu peito ainda dói quando a sua imagem me vem à lembrança. Ele era alto, magro, cabelos brancos, extremamente hábil em sua função de funileiro e, também, no trato com os netos. Primeiro, ele me ensinou a fazer um chapéu de papel e, a partir dele, dobrar mais uma vez e transformá-lo em um barquinho. E o barquinho, descendo pela enxurrada, era muito mais que um objeto flutuando sobre as águas… O barquinho levava sonhos, fantasias e, a cada vez que era colocado na água, também deixava esperança e alegria.

Certa vez eu ganhei de presente um barco de plástico. Uma novidade para aquele menino franzino, lá do Bairro Limoeiro. Na verdade, era uma lancha branca, com uma pequena vela azul. Na primeira chuva, após recebê-la de presente, embrulhada em papel celofane, corri para a rua e, junto ao meio fio, deixei que ela fosse levada pela correnteza. Mas, a brincadeira já não era mais a mesma, pois tinha de correr ao seu lado, a fim de pegá-la de volta, para que não se perdesse bueiro abaixo. Eram várias idas e vindas, levando e trazendo a pequena lancha. Em pouco tempo eu estava cansado da brincadeira e, sentado ao lado do meu avô, em sua casa-oficina, construía com ele barcos e barcos de papel. Construíamos barcos brancos, amarelos, azuis… E tão bom quanto construir barcos, era poder colocá-los na água e vê-los sumir, ao longe, em uma boca de lobo qualquer.

Em um determinado dia de fim de ano, de um tempo longínquo de minha adolescência, acordei animado para os preparativos de mais um aniversário. Já não brincava mais na enxurrada, já não enlameava as pernas após a chuva e já não sentava mais ao lado de meu avô para fazer barcos de papel. Há alguns meses ele caíra doente e, a cada visita ao seu leito, mais magro, fraco e triste eu o percebia. Ele foi sumindo aos poucos, lentamente, até que, justamente no dia do meu aniversário, ele partiu. Vovô Cantídio partiu em um barco de papel, levando embora, naquela viagem, a nossa alegria. Mas, como toda boa viagem de barco de papel que se preze, antes mesmo de vê-lo sucumbir, ao longe, em um bueiro, ele sinalizou que estava deixando esperança e boas lembranças. Aquela última viagem do barco de papel deixou uma gostosa saudade de um tempo que, infelizmente, não volta mais.

Ah! Que saudades do meu avô… Que saudades do tempo em que eu fazia e brincava com barquinhos de papel.

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor.


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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 2/9/2018

Para os mais novos, o título acima deve parecer meio esquisito… Como assim, “Anel de Bala”? Isso é algo da minha geração. Nos meus tempos de adolescente, eu catava as moedas de cada troco guardado por minha mãe, para ir ao pequeno mercado – conhecido na época como “venda” – e comprar uma caixinha, intitulada “caixinha de surpresa”. Seu nome, por si só, já dizia do que se tratava: uma pequena caixa feita de papel, que você balançava próximo ao ouvido, antes de escolher a que levaria, tentando adivinhar o seu conteúdo. Na verdade, a maioria dos meninos buscava por um pequeno anel, com pedras de vidro e ou acrílico, de cores variadas, que era oferecido às meninas escolhidas para receberem o adorno.

O anel fazia parte da dança do acasalamento. Você entregava o anel à menina e, caso ela se dispusesse a experimentá-lo, sinalizava com o gesto a sua aquiescência ao galanteio. Quando o anel não lhe servia, a ocorrência indicava, imediatamente, a necessidade de comprar e abrir muitas outras caixas de surpresas, também conhecidas como “Caixinha de Segredo”, em busca do anel, no tamanho ideal.

Se já não era fácil encontrar o tal anel, imagina no tamanho que servisse no dedinho da amada. Na maioria das vezes, apenas umas balas e uma piorra e, em outras, um indiozinho de plástico. Aliás, como era americanizada aquela nossa infância… A maioria de nós tinha uma coleção de miniaturas de índios e de caubóis e soldadinhos de plásticos e já nascíamos meio que programados para fazer com que os índios sempre perdessem as disputas.

Além da dificuldade de encontrar o tal anel na caixinha, havia ainda, outro problema: às vezes as meninas diziam que queriam o anel da pedra azul, aí a situação se complicava. Depois de muitas idas e vindas à venda, de gastar todos os trocados que sobravam das compras feitas pelas mães (às vezes, o dinheiro estava reservado para comprar uma verdura ou algo de menor valor!), o anel acabava sendo encontrado.

Interessante como as nossas preocupações eram outras e pareciam tão importantes, a ponto de tomarem conta dos nossos pensamentos durante um dia inteiro: Será que hoje conseguirei algumas moedas? Tomarei uma surra por isso? Para qual menina darei o anel? Será que servirá no dedo dela? Será que ela gostará da cor? Com o passar do tempo, íamos criando certa habilidade para escolher a caixinha com maior probabilidade de conter o anel, advinda da experiência de compras e mais compras de caixinhas de segredo. Se o barulho fosse mais “abafado”, provavelmente não continha o anel. Mas, se o barulho fosse um pouco mais nítido tipo “metálico”, ali provavelmente existiria o tão precioso anel…

Em pouco tempo as caixinhas de surpresa, foram desaparecendo e, em seu lugar, foram surgindo os pacotinhos com índios, soldados, caubóis, as marias moles, os canudinhos recheados com uma borracha colorida e, claro, os anéis de bala. Com o advento do anel de bala, fora da caixinha, nossa vida foi facilitada, já que o anel estava lá, visível, envolvendo uma bala. A partir desse momento, nossa preocupação passou a ser se a menina gostaria ou não da bala…

Ah! Que saudades da caixinha de surpresas, do índio de plástico e do canudinho recheado de maria mole… Saudades do Anel de Bala e de tudo o que ele representava em nossos relacionamentos… Saudades de um tempo em que os nossos maiores problemas eram resolvidos com algumas moedas, um bom ouvido e um dedinho que aceitasse um anel… Um tempo em que era bom viver o presente, enquanto aguardávamos, com uma paciente ansiedade, o futuro dourado que o destino reservara para nós!

Eugênio Maria Gomes – professor, apresentador e escritor.