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Texto publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 17/2/19

No momento em que escrevo este texto, 165 corpos já foram identificados em Brumadinho e cerca de uma centena e meia de corpos continuam soterrados pela lama, espalhada naquela região pela mineradora Vale do Rio Doce. Antes mesmo que pudéssemos nos recuperar do trágico desaparecimento de tantas vidas, e do desastre ambiental provocado pela ganância e pelo desrespeito à Natureza, somos novamente surpreendidos por outro infortúnio: a morte de dez garotos, em um incêndio no “Ninho do Urubu, o Centro de Treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Mais uma tragédia a abalar nossas vidas e a fazer sucumbir os sonhos de muitas famílias. Novamente, não podemos ver no fato nenhuma fatalidade, mas o resultado de uma irresponsabilidade que parece não ter fim. Eram crianças e não tiveram a menor chance, enquanto dormiam, dentro de um container que deveria ser utilizado para descansos rápidos, mas que servia de alojamento, de moradia para elas.

Um container-alojamento de seis quartos, dotado sim de ar condicionado, de boas camas, mas desprovido de paredes antichamas, de sensores de fumaça e sem alarme contra incêndio. Um alojamento-container de uma porta só, com janelas gradeadas e sem autorização legal para funcionar como tal. Aliás, um container-alojamento que deveria estar desativado, já que não tinha o “habite-se” e cujo funcionamento estava desautorizado pela prefeitura.

“Riquelme! Bolívia!”. O grito desesperado de um sobrevivente, chamando pelo amigo, sem obter resposta, ilustra bem a dor dos que foram e a dor daqueles que ficaram. Uma dor sem fim para suas famílias, de maneira muito especial para suas mães que nunca mais poderão lhes oferecer o colo ou afagar os seus cabelos.

E não é que no meio dessa tragédia ainda apareceram internautas para postar em suas redes sociais “Força Flamengo” e “O Mengão foi vítima de uma fatalidade”? Ora, ora, o clube de Regatas do Flamengo é uma agremiação esportiva, uma empresa, sujeita como todas as outras à fiscalização e ao cumprimento de leis. Força Mães! Força Pais! Força avós! Força familiares e amigos! Não há qualquer grito que possa aliviar a culpa dos responsáveis. A diretoria da agremiação precisa se responsabilizar e responder pelos crimes cometidos.

Os adolescentes mortos no Rio têm recebido muitas homenagens. São merecidas. Os mortos de Brumadinho, também, têm recebido muitas homenagens e, claro, também são merecidas. Os mortos de Mariana receberam muitas homenagens. Já foram esquecidos. As famílias dos que se foram, ainda hoje, lutam por indenizações e tentam reaver tudo o que perderam de bens, já que não é possível reaver a emoção de estar, de viver e conviver com os que se foram.

E assim permanecemos de tragédia em tragédia. Uma fazendo com que nos esqueçamos da anterior. Não existe dor menor ou dor maior, existe dor. Dor pela perda, dor pelo descaso, dor pela irresponsabilidade. Não deixa de ser intrigante o fato de que, em todas essas últimas tragédias, do incêndio na Boate Kiss ao do CT do Flamengo, não existir ente os mortos nenhum dono, nenhum dirigente, nenhuma autoridade de alta patente. Certamente eles sabem do perigo a que são submetidos os que dependem deles.

O fato é que não podemos mais tolerar “gambiarras”, “puxadinhos”, “remendos”, “jeitinhos”. Neste País, nada se conserta. Nada se resolve. Nós “remendamos”, nós “ajeitamos”. Enquanto nada se resolve, essas catástrofes continuarão a se suceder.

Temos um profundo pavor de enfrentar nossos problemas, de tomar as medidas duras que são necessárias para superarmos esse subdesenvolvimento macabro que nos assola e que mata nossos filhos, nossos amigos, explora nosso povo, enriquece nossa elite, destrói nosso patrimônio ambiental. Temos medo de posicionarmos de exigir nossos direitos, de lutar pelo que é certo, de cobrar dos políticos, de recusar o que não nos agrada, de permitir que sejamos espoliados. Temos um medo avassalador de sermos Cidadãos!

Esses tristes episódios não se trata de catástrofes inevitáveis. Trata-se de imprevidência, de ganância, de irresponsabilidade que continuarão a existir se nós continuarmos a permitir. Os deslizamentos que matam e destroem no Rio de Janeiro, os incêndios, as barragens, as estradas sem conservação, os ônibus sem vistoria, os produtos defeituosos, os remédios adulterados…

Estamos pagando o preço por nossa passividade, por nossa leniência com o que é errado. Toleramos por séculos esse estado de coisas, e agora, estamos colhendo o resultado de um profundo, absurdo e lamentável descompromisso com a Vida, com a Ética e com a Justiça!

Rezemos, para que as dores sejam aplacadas, para que a vida dos que ficaram possa recomeçar, para que a esperança abra as portas para um tempo novo. Um tempo em que os criminosos paguem por erros. Um tempo em que os políticos paguem por seus erros. Um tempo em que não sejamos coniventes, através de nossa omissão e tolerância com esse triste lugar que se tornou o nosso País!

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor. Membro da ALB- Academia de Letras do Brasil -, da Alto – Academia de Letras de Teófilo Otoni -, da AMLM – Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas – e presidente da ACL – Academia Caratinguense de Letras do Leste de Minas. É Pró-reitor e professor do Unec, membro da Lions Clube Caratinga Itaúna, do MAC – Movimento Amigos de Caratinga – e da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga.


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Texto publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA, em 03/03/19

No último dia 25 de janeiro, o mundo assistiu à reedição de uma tragédia, em Minas Gerais: o rompimento de uma barragem da Mineradora Vale do Rio Doce, uma transnacional brasileira, considerada a maior empresa de extrativismo mineral do mundo. Centenas de mortes e milhares de vidas destruídas. 

Uma tragédia anunciada. Há três anos, o rompimento da Barragem de Fundão, também pertencente à Vale, deixou 19 mortos, centenas de desabrigados e espalhou lama no Rio Doce e no Oceano Atlântico, sendo considerado, na época, o maior desastre ambiental do país.

Depois da ocorrência de Mariana, o mínimo que se esperava da empresa e das autoridades responsáveis, seria um pouco mais de cuidado com esse arcaico sistema de retenção de resíduos da atividade de mineração. No entanto, o que se viu, foi um aglomerado de ações irresponsáveis, advindas de todos os lados.

O Governo do Estado de Minas Gerais, através de sua Secretaria de Meio Ambiente, em dezembro de 2017, alterou as regras que definiam riscos ambientais para algumas barragens, entre elas, a barragem da Vale que provocou esta tragédia. Especialistas e ambientalistas alegam que não foram ouvidos, devidamente, na época e que o risco potencial de rompimento daquela estrutura foi informado às autoridades competentes.

A Vale do Rio Doce não deve ter feito qualquer mapeamento de risco potencial de rompimento, pois, se o tivesse feito, jamais poderia construir sua estrutura administrativa justamente na linha de passagem do resíduo, como aconteceu.

Empresa e governo acumularam irresponsabilidades, enquanto os trabalhadores e a população da região de Brumadinho colheram sofrimentos. Difícil sentir toda a dor que os familiares e amigos, de centenas de mortos, estão sentindo. Alguns corpos jamais serão encontrados… Mas, dá para imaginar… Basta colocar, no lugar das vítimas, um filho, uma mãe, um irmão, enfim, um parente ou um amigo.

As pessoas estavam trabalhando, algumas almoçando e, outras, descansando. De repente um mundo de lama caiu sobre eles, levando sonhos, soterrando planos e deixando um rastro de destruição e dor. Não, não estamos falando de uma fatalidade. Estamos falando de um crime, do assassinato de centenas de pessoas e de incontáveis malefícios, à natureza.

Quanto vale uma vida? Para a Vale, certamente vale pouco. Ainda mais, agora, que a indenização trabalhista foi reduzida, drasticamente, na última reforma… Quantos aos sonhos que se foram, e a dor dos que ficaram, o valor é inimaginável.

E assim vamos adiante com esse triste estado de coisas. De tragédia em tragédia, de desastre em desastre, continuamos a colher os frutos malditos de um sistema econômico onde imperam a ganância e o lucro exacerbado, a cupidez e a usura, em detrimento da vida, da dignidade e da sustentabilidade ambiental.

Não se trata de irresponsável exercício de fatalismo, ou de pessimismo exagerado diante do futuro, mas podemos nos preparar, porque outras tragédias ocorrerão. Outras Marianas, outros Brumadinhos … Infelizmente.

Até que um dia, quem sabe, nosso país saia das trevas do capitalismo predatório e destruidor, e a vida recupere, no seio dos valores fundamentais de nossa sociedade, o lugar de centralidade que merece.

“A poluição, a ganância e a estupidez são as maiores ameaças ao planeta.” (Stephen Hawking).

* Eugênio Maria Gomes é professor e escritor. Pró-reitor de Pesquisa, Pós-graduação e Extensão do Unec, Diretor Geral da Unec TV, membro do Lions Itaúna, da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga e do MAC – Movimento Amigos de Caratinga. Membro da ALB – Academia de Letras do Brasil -, da ALTO – Academia de Letras de Teófilo Otoni -, da AMLM – Academia Maçônica do Leste de Minas – e presidente da Academia Caratinguense de Letras. Grande Secretário de Educação e Cultura do GOB-MG.