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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 17/3/19

Recentemente, ao conversar com uma pessoa sobre o andamento do Governo Bolsonaro, fiz uma crítica sobre a sua forma de agir, em família, como se ainda fosse candidato, e ouvi do meu interlocutor que eu estava falando aquilo, “por ser de Esquerda”. Antes de responder, claro que não contive o riso. É que em todos os textos que escrevi, criticando o PT e os seus agentes no governo, nunca ouvi de um militante do partido uma coisa tão esquisita, tipo “você fala isso porque é de Direita”.

Confesso que achei interessante a colocação. Quando criticava a Esquerda, sempre ouvi contrapontos, discordâncias, argumentos, mas nunca uma insinuação de que eu seria de Direita. Agora, quando critico a Direita, imediatamente sou taxado de esquerdista. Eu sou um cronista e, mesmo me sentindo mais próximo da ideologia Centro-Esquerda, jamais senti qualquer melindre para criticar o PSDB e seus agentes públicos, até porque, também eles, estão afundados em denúncias de corrupção.

Então, não vejo porque deixar de criticar o novo governo. Aliás, o governo ainda não fez nada de muito consistente para ser criticado ou aplaudido – até porque são, apenas, setenta e cinco dias de governo -, por isso, a minha crítica é voltada à atuação de alguns ministros e à ingerência no governo pelos “meninos do presidente”, felizes demais com o “brinquedinho” que receberam, de nome Brasil, e que metem os pés pelas mãos todos os dias, criando desconforto para o pai presidente. É claro que há quem diga que tudo isso é lero-lero e que seria o próprio Bolsonaro que utiliza sua cria para criar mal-estar àqueles dos quais ele não gosta e que gostaria de ver fora do governo. Não acredito nisso, acho que é interferência mesmo dos filhos problemáticos.

Entre os seus filhos, dois mais complicados…

O mais conhecido, o senador Flávio Bolsonaro, tomou a mídia para si – a partir de seu envolvimento com o motorista miliciano e com funcionários fantasmas – e acabou atingindo a boa imagem da primeira dama, já que ela recebeu dinheiro em sua conta, depositado por um motorista, que faz tratamento de câncer no Hospital Albert Einstein. Aliás, uma pergunta: você que é professor, funcionário público, motorista, auxiliar administrativo, já passou pelo menos perto desse hospital? A conta é simples: entre cirurgia, diárias e honorários médicos, a conta de Queiróz no Einstein deve ter ficado por volta de sessenta mil reais. Ah, mas ele tem plano de saúde… Pode ser, mas o Einstein informa que, um plano de saúde para ser utilizado no hospital, para uma família de quatro pessoas, fica em torno de seis mil reais… Não precisa nem fazer muito esforço para entender que o Flavinho está enrolado até o pescoço nessa história…

O segundo, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, recentemente criou um grande mal-estar no governo ao desmentir um ministro, chamando-o de mentiroso. A interferência do filho, em assuntos de governo, teve um impacto fulminante, levando inclusive o general e vice-presidente – que tem conseguido a proeza de ser um dos mais comedidos no topo da estrutura governamental – a dizer que “em breve, na hora certa, o presidente vai dar um jeito em seus filhos”. Por enquanto, não foi o que aconteceu. Bolsonaro, ao deixar os laços de sangue falarem mais alto, fritou Gustavo Bibiano. Em vez de pedir demissão, ele resolveu ficar e esperar ser mandado embora, respigando a gordura da fritura, em um governo que mal assumiu.

Sobre ministros, basta um deles – a responsável pela pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos – para deixar o sério e tímido Sérgio Moro sem saber onde enfiar a cara. Não deve ser nada fácil conviver com uma Damares Alves… Aliás, por falar em Sérgio Moro, até ele teve de desfazer um ato por conta do desagrado dos meninos do presidente. Também o ministro da Educação – Ricardo Vélez Rodrigues -, que até hoje não conseguiu montar a equipe mínima do primeiro escalão, teve de se retratar recentemente, depois que o presidente mandou cancelar a mensagem ridícula que ele tinha enviado às escolas. Não, não estamos falando sobre cantar o hino nacional, até porque essa determinação já existe há anos e não é obedecida por ninguém. Estamos falando de filmagens não autorizadas dos alunos, de repetição de slogan de campanha, em ambiente educacional.

Não – eu não sou contra o governo Bolsonaro. Seus eleitores precisam entender que ele pode sim, receber críticas. Ele não é Mito, não é Deus, é apenas um homem, que sobreviveu a um atentado só Deus sabe como, que certamente está abdicando de muitas coisas para exercer uma função muito difícil, que não pode ser culpado por todos os problemas e desmandos que já vivemos há séculos, mas que também erra e que precisa se posicionar como presidente e assumir, pessoalmente, o controle do barco. Eu sou a favor do Brasil. Critiquei e elogiei Lula, assim como fiz com Fernando Henrique e Dilma. Espero poder voltar aqui, em breve, e elogiar Bolsonaro. Até aqui, o presidente não fez outra coisa a não ser desfazer as lambanças de seus assessores e parentes…

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor. Membro da ALB- Academia de Letras do Brasil -, da Alto – Academia de Letras de Teófilo Otoni -, da AMLM – Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas – e presidente da ACL – Academia Caratinguense de Letras do Leste de Minas. É Pró-reitor e professor do Unec, membro da Lions Clube Caratinga Itaúna, do MAC – Movimento Amigos de Caratinga – e da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga.


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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, EM 12/2/19

Entre os dias 23 e 24 de agosto de 1572, dia de São Bartolomeu, em Paris, houve o assassinato de cerca de 30 mil pessoas, protestantes, determinado pelos Reis católicos da França. O assassinato coletivo de tantas pessoas ocorreu sob as bênçãos do Vaticano. O triste episódio é conhecido como omaior genocídio religioso da história. Os mortos foram mortos porque eram protestantes!

Durante a 2º Guerra Mundial, milhões de judeus foram assassinados por ordem de Adolf Hitler. O episódio é conhecido como o Holocausto. Os mortos foram mortos porque eram judeus!

Nas Cruzadas, oito no total, durante a idade média, algo em torno de um milhão de pessoas foram mortas, entre cristãos e muçulmanos. No discurso de convocação para a 1ª Cruzada, em 1095, o papa Urbano II disse que todos aqueles que lutassem contra os muçulmanos para “libertar” Jerusalém iriam para o Paraíso e teriam todos seus pecados perdoados! Os mortos foram mortos porque eram muçulmanos!

No Afeganistão, desde a época de Alexandre da Macedônia, o Grande, travam-se batalhas incessantes, que perduram até hoje. O motivo? Divergências religiosas entre grupos religiosos. O número de mortos é incalculável.

Na Nigéria, desde 2002, conflitos religiosos têm se acirrado no país, motivados principalmente pela adoção da sharia, lei islâmica, como principal fonte de legislação nos estados do norte. A violência no país já matou mais de 10 mil pessoas e deixou milhares de refugiados.

No Iraque, dois grupos muçulmanos, xiitas e sunitas travam batalhas que arrasaram o País. O governo iraquiano estima que, entre 2004 e 2011, cerca de 70 mil pessoas tenham sido mortas.

A quantidade de pessoas mortas pela Inquisição Católica é duvidosa. Porém, apenas na Espanha, há registros de mais de cem mil pessoas condenadas à morte pelos tribunais religiosos. O Papa João Paulo II pediu desculpas pelos excessos dos interrogadores, expressando pesar por “erros cometidos a serviço da verdade por meio do recurso a métodos não-cristãos”. O papa, porém, não ultrapassou a regra da igreja segundo a qual os pontífices não criticam os seus predecessores. O papa Gregório IX, que criou a Inquisição, em 1233, para combater a heresia (a negação da verdade da fé católica), não foi mencionado no comunicado.

Não se trata, aqui, de criticar esta ou aquela Religião. Tampouco de querer julgar as diferentes religiões pelos erros que cometeram. Menos ainda, de negar que ao longo da nossa História, nossa espécie mata seus semelhantes por questões políticas, culturais, raciais e principalmente, econômicas. Mas, a intenção é fazer com que não esqueçamos o perigo que nos ronda, sempre que um grupo religioso, de qualquer matiz, tenta impor aos demais sua forma de ver a Divindade, seu modo peculiar de ler e interpretar os livros sagrados, sua noção pessoal da Verdade, da Fé, do Certo e do Errado.

Sempre que permitimos que o Estado e a Religião se confundissem, o resultado sempre foi o mesmo: divisão, ódio e morte. A quantidade de pessoas mortas em nome da Fé, talvez supere todas as demais.

Por esta razão, uma das maiores conquistas da racionalidade humana foi a ideia do Estado laico. Separado. Apartado de qualquer Igreja. Não um Estado contra Igrejas. Mas um Estado paralelo às igrejas. Alheio a elas. Um Estado onde todos possam professar a Fé que desejarem, inclusive tendo o direito de não professar Fé alguma, sem que isso lhes acarrete qualquer mal ou qualquer discriminação.

O perigo do Estado ser aparelhado por religiosos é tamanho, e ainda se encontra tão presente nos dias de hoje, que é necessário que apelemos para a memória e para a História. Vejam o passado! Vejam os erros que cometemos! Vejam quantas pessoas foram mortas e são mortas até hoje.

Todos podem professar sua Fé. Mas dos agentes públicos exige-se respeito à Laicidade constitucionalmente prevista para o Estado brasileiro. Exige-se respeito ao direito individual de todos os cidadãos brasileiros de professarem ou não sua Fé, e de integrarem ou não esta ou aquela Igreja.

Não podemos permitir, não podemos tolerar que políticas públicas, discursos, e ações governamentais estejam impregnadas, ainda que de forma oculta, de uma determinada visão religiosa, e que se queira impor, ainda que de forma sutil e através de subterfúgios pueris e pouco sofisticados, uma determinada visão religiosa de Mundo.

Nem todos sobem em Goiabeiras. Alguns sobem em Mangueiras, outros sobrem em Jaqueiras, e outros não sobem em árvore alguma, pois se contentam apenas em observar os outros subindo…

Em 1983, soldados do Reino Unido, anglicano (protestantes), atiraram e mataram dezenas de católicos que protestavam na Irlanda do Norte por reconhecimento de seus direitos civis. O episódio ficou conhecido como “Domingo Sangrento”, em inglês “bloody Sunday” que foi eternizado pela música de mesmo nome composta e cantada pela Banda Irlandesa U2. O episódio aumentou ainda mais o ódio religioso entre católicos e protestantes e fortaleceu o grupo terrorista IRA – Exército Revolucionário Irlandês -, que posteriormente, também foi responsável por dezenas de mortes.

Em uma passagem desta triste canção há uma frase que fala dos corações dilacerados das mães ao verem seus filhos mortos e estendidos no chão.

Jamais poderemos permitir que esse quadro se repita. Deus tem muitas faces. E a casa do Senhor muitas moradas! É bíblico: “… a Cézar, o que é de Cézar…”. Portanto, a Deus o que é de Deus! Ao Estado o que é do Estado. São duas coisas que jamais podem estar interligadas. Não podemos retornar ao obscurantismo religioso. Não podemos retornar à “era das trevas”. E principalmente, não podemos esquecer que, as religiões, assim como as luzes, necessitam de escuridão para brilhar!

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor. Membro da ALB- Academia de Letras do Brasil -, da Alto – Academia de Letras de Teófilo Otoni -, da AMLM – Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas – e presidente da ACL – Academia Caratinguense de Letras do Leste de Minas. É Pró-reitor e professor do Unec, membro da Lions Clube Caratinga Itaúna, do MAC – Movimento Amigos de Caratinga – e da Loja Maçônica Obreiros de Caratinga.