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Do outro lado do telefone, uma voz pedindo ajuda: “há um casal de idosos, na lateral da Catedral, em situação de miserabilidade. Estão dormindo ao relento, sem qualquer cuidado em relação à higiene, estão magros e entregues à própria sorte. Será que o senhor não consegue ajuda para eles?”. O casal ao qual a pessoa se referia era formado pelos conhecidos “Carioca e Nora Ney”. 

Meu primeiro contato com o casal se deu na virada do milênio, quando atuava na Secretaria de Ação Social, da Prefeitura Municipal de Caratinga. Eles tinham moradia – não sei se era própria ou alugada – porém, viviam embriagados pelas ruas da cidade, buscando uma ajuda aqui, outra ali, para sustentar um vício que, aos poucos, os consumia. Porém, eles tinham algo de muito especial: estavam sempre juntos. Não importava se o tempo estava quente ou frio, se chovia ou fazia sol, se era noite ou dia, o certo era que onde estava o Carioca, lá estava também a Nora Ney. A Secretaria os atendeu durante todo o tempo, sempre com ajudas paliativas, até porque eles não aceitavam nenhum tipo de auxílio que fosse mais consistente, que pudesse retirá-los daquela condição de mendicância e de vulnerabilidade social. 

Terminada a minha participação no governo, durante muitos anos continuei a encontrá-los pelos caminhos da vida e, vez ou outra, batiam à minha porta, solicitando uma ajuda financeira, tendo sempre como referência uma conta de luz atrasada, o corte no fornecimento de água ou uma receitar para aviar. Ambos sempre foram muito magros, maltrapilhos e, via de regra, estavam embriagados. 

Logo após receber o telefonema fiz alguns contatos com algumas instituições sociais e órgãos governamentais, solicitando uma intervenção que pudesse amenizar tanto sofrimento. Eles haviam improvisado uma cama de papelão próximo à igreja, enrolavam-se em cobertores tipo “bicicleta” e dividiam o espaço com dezenas de pombos, ávidos pelos restos de alimento espalhados em seu entorno. Paralelamente providenciamos roupas para os dois com o intuito de levá-los para um banho, para tentar melhorar aquela imagem quase sub-humana. Não conseguimos levar a termo a efetivação da ajuda. Não pareceu ao grupo ser sensato a locomoção dos dois de automóvel e, também, a utilização da residência de um dos membros da equipe para o acolhimento. . 

O certo é que, em poucos dias, a Nora Ney foi a óbito, enquanto acompanhava o marido em um atendimento na UPA. Com isso, o Carioca conseguiu ser removido pela Secretaria de Ação Social. Eu sei das tentativas da PMC e de algumas instituições sociais de retirá-los, sem sucesso, do local onde escolheram para viver e morrer. Eles não aceitavam se separar e, em Caratinga, não há lugar destinado à recuperação da mulher viciada, como existe para o homem. 

Por mais que tentemos justificar o não atendimento adequado e humanizado ao casal “Carioca e Nora Ney”, a culpa por essa ocorrência há de habitar nosso ser por um bom tempo. Sim, somos todos culpados por este casal perder sua casa e ganhar as ruas, por suas feridas, por sua pele fétida, por sua magreza, pelo frio que sentiram, pelo estômago vazio e pela morte de um deles. Se não sentirmos culpa por isso, teremos perdido a essência de criaturas de Deus que somos e estaremos fazendo vista grossa aos ensinamentos de Cristo, quando nos disse “Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes”. 

Sim, somos todos culpados por esse triste desfecho. A Igreja é culpada, as Ongs são culpadas, os transeuntes são culpados, os poderes públicos são culpados. Quem passou por eles e ajudou com algo, é culpado, assim como os que sequer souberam da existência do casal são culpados. Em pleno século XXI, uma mulher morreu, depois de passar momentos de dor e tristeza, na Praça da Matriz. O atestado de óbito acusou enfarto, mas sabemos que também já teve pneumonia, passou fome, sentiu frio e, sua esquelética figura certamente foi resultado de muitas e muitas infecções. Só sei que, uma mulher morreu, antes que pudesse ser ajudada, cuidada, mesmo se negando a aceitar ajuda. Precisamos ter vergonha e nos aprimorarmos como seres humanos, mesmo que seja através da culpa. Só assim poderemos continuar acreditando que a humanidade tem salvação.

A perda de um ser humano, na forma de “farrapo humano”, fruto de uma vida cruel, quase anônima no atendimento na UPA, espelha a profunda falta de solidariedade, de amor ao próximo, de comprometimento e de uma genuína e verdadeira ligação com o Divino. Envoltos em nossas orações, entorpecidos em nossos cânticos de louvor, dentro de uma Catedral iluminada e aquecida, rezamos por nossas almas e rogamos ao Deus dos Miseráveis que nos conceda a salvação! Embora, ali, bem perto de nós, dois “pequeninos” jaziam no abandono e no esquecimento…

Meus Deus! Quanta hipocrisia…

Pie Jesu, Qui tollis peccata mundi. Dona eis réquiem!

Eugênio Maria Gomes é Funcionário da Funec e escritor.


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Diário de Caratinga, 01/9/2019

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, passamos por problemas, por perdas, por dores, pelo sofrer inevitável que é fruto das nossas escolhas, das nossas ações, dos nossos vícios, enfim, fruto da nossa imperfeita condição humana. Porém, há momentos onde tudo em nossas vidas encontra-se em verdadeira ebulição. Nada está no lugar. Nada vai bem. Todos os aspectos do nosso Ser, de forma insistentemente coincidente, parecem nos levar ao desespero. Falta-nos o chão, falta-nos um porto seguro, falta-nos a paz!

Vivemos hoje, em todo mundo, momentos de profundo sofrimento, de imenso desamor. Em várias localidades, populações inteiras padecem das mais variadas doenças. Epidemias dizimam milhares de seres humanos. A fome, um mal constante na História da humanidade, ainda ceifa vidas, por várias regiões do planeta. No século onde a tecnologia nos permitiu avanços inimagináveis, ainda se morre de fome e de subnutrição.

Na Europa, países avançados fecham suas portas a legiões de desterrados, de pessoas que fogem de sua terra natal em busca de condições de sobrevivência. A crise dos refugiados aumenta a cada dia, assim como aumenta a cada dia a falta de solidariedade daqueles que podem ajudar, acolher, atenuar o sofrimento de seus semelhantes, mas que estão absorvidos na ilusão de que seus quintais ajardinados, suas mesas fartas e seus comparecimentos semanais a cultos recheados de louvores vazios, livrarão suas almas do julgamento pelo seu egoísmo, inexoravelmente imposto pelo ciclo da vida.

O Brasil, outrora uma terra de harmonia, de alegria e de esperança, perdeu-se num redemoinho de desencontros, de embates, de radicalismo, de rancor histórico, de intensa discórdia social. Capitaneados por um grupo de destemperados e de inconsequentes, que se esquecem de que “gentileza gera gentileza” e “ódio só produz ódio”, vivemos em constante ebulição, em constante sobressalto. A cada dia, novos embates são propostos, novos motivos para discórdia são semeados. Destila-se um ódio profundo por tudo aquilo que uma mente tacanha e apequenada é incapaz de compreender. Rejeita-se, com violência, desprezo e intolerância, qualquer coisa que escape de uma visão de mundo limitada, provinciana, obscurantista, radical e preconceituosa.

Não. A Terra não é plana. Plana, limitada, circunscrita a um espaço bidimensional é a visão deturpada de uma mente e de uma personalidade estreita e mesquinha.

Sim. As pessoas são diferentes. A diversidade, a multiplicidade de cores, de opiniões, de posicionamentos, de modos de vida e até de deuses é que nos faz uma espécie rica, interessante e atraente. A similitude, a mesmice e a identidade total de comportamentos, de opiniões e de ações só nos leva ao marasmo, ao atraso, à permanência, opondo-nos à própria essência do Universo, que é dinâmica, pulsante, móvel e em constante mutação. Tudo se movimenta e se altera a cada instante.

Mas não é só no nosso entorno distante que as coisas não vão bem. 

No nosso cotidiano, na nossa vida pessoal, nas nossas famílias, relacionamentos, trabalho, saúde, tudo parece conturbado, tudo parece desmoronar, como um castelo de cartas.

Nesses momentos, ficamos frente a frente com o mais severo dos juízes: o espelho! São momentos onde desconhecemos a imagem refletida naquele pequeno espaço de metal e vidro. Momentos onde todo o peso de nossa inconsequência e de nossas mazelas existenciais insistem em se mostrar, de forma insensível e acusadora. Por instantes, que parecem perdurar por anos, vemos ali, estampada naquela superfície fria e inerte, a nossa incapacidade de superar as tentações, de resistir aos vícios, de optar pelo o que é certo, o que é digno, o que é altivo, ainda que isso tivesse causado alguma dor, em algum momento do passado.

Vemos o tempo que desperdiçamos com coisas fúteis, com atividade e afazeres improdutivos, que nada nos acrescentaram e que consumiram uma energia enorme, em detrimento da convivência familiar, do encontro real com amigos verdadeiros, do ócio reflexivo, do olhar para as estrelas, do tocar um instrumento, do cuidar de uma planta, do deitar no peito da pessoa amada.

Vemos o resultado das nossas ações egoístas, da nossa vaidade, da falta de respeito ao próximo, do nosso narcisismo. 

Vemos que abandonamos o culto das virtudes, pois as virtudes não nos são inatas. Precisam ser adquiridas, praticadas, constantemente observadas. O Bom, o Justo, o Digno, a Empatia, a Caridade, a Lealdade, a Fidelidade… Não nascemos com essas virtudes. Elas precisam ser cultivadas a cada dia, a cada momento. Precisamos, cotidianamente, resistir bravamente às virtudes opostas ou aos pecados, como as religiões as denominam. Precisamos, insistente e constantemente, optar por sermos bons!

Esses momentos, em que tudo nos parece perdido e em que nos sentimos incapazes de seguir adiante, em que fraquejamos e duvidamos até da existência do Bem e do Amor, onde o espelho insiste em nos observar, ainda que nos afastemos dele, são como noites traiçoeiras, quando a escuridão nos rodeia e quando nem o conforto dos nossos lençóis é capaz de nos proporcionar um pouco de Paz.

Mas um dia, a humanidade encontrará soluções que lhe permitam superar esses momentos difíceis. Nosso País resistirá e sobreviverá à arrogância e à intolerância, e nós, ainda que vivamos muitas “noites traiçoeiras”, sempre teremos um novo amanhecer. Pois, o Amanhã, depois dos ódios aplacados e dos temores abrandados, há de ser pleno!

“O momento mais escuro da noite, é pouco antes do Amanhecer!”

*Eugênio Maria Gomes é funcionário da Funec e escritor.