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Publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 01/12/19

Na última quarta-feira (27) tive a honra de ser homenageado pelo Judiciário de Minas Gerais, através da Comarca de Caratinga, com a medalha “Desembargador Hélio Costa”. Trata-se de uma homenagem feita, a cada dois anos, a uma única pessoa de cada Comarca do Estado de Minas Gerais. De fato, uma honraria diferenciada, da qual muito me orgulho de receber. Além de agradecer aos Juízes, promotores, OAB, prefeito e presidente da Câmara Municipal – colegiado que escolhe o agraciado -, preciso agradecer às instituições da qual faço parte, com as quais divido a honraria: Funec, Unec, Unec TV, Loja Maçônica Obreiros de Caratinga, Lions Clube Caratinga Itaúna, Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas, Lions Clube Caratinga Itaúna, além, é claro, de meus familiares e amigos. Principalmente o meu agradecimento a Deus por me permitir momento tão gratificante. Não poderia esquecer do Coral Ad’Glorian/São João Batista, do Coral Infantil da Escola Menino Jesus de Praga e de cada um que esteve no Salão do Júri, no Fórum de Caratinga, para me prestigiar. 

Transcrevo aqui parte do discurso proferido na ocasião, quando optei pela abordagem do conceito de sermos, todos, brasileiros. E foi citando Guimarães Rosa – “O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando” -, que abordei questões como Igualdade e Mudança. 

Na comparação entre pessoas, ser igual é ter as mesmas oportunidades, ser destinatário dos mesmos juízos de valor, ser titular dos mesmos direitos. Gozar e Fruir de forma igualitária e indistinta, de todas as garantias fundamentais que a civilização humana conquistou após séculos de árduos conflitos.

Todos nós brasileiros, independentemente de ideologias, preferências políticas ou partidárias, precisamos nos aproximar, cada vez mais, deste importante conceito lapidar de Igualdade, expresso com maestria por Rui Barbosa, na célebre “Oração aos Moços”: “A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade iguais, ou desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”.

Precisamos parar de separar os brasileiros por seu gênero, classe social, etnia, orientação sexual, ideologia, opção religiosa. Brasileiro é brasileiro. Não existem brasileiros melhores ou piores, brasileiros certos ou errados. Não podemos permitir um Cabo de Guerra, com brasileiros de um lado e brasileiros do outro.

A profunda e secular desigualdade social, uma espécie de cancro que insiste em perpetuar-se na tessitura social do nosso país, passou a exacerbar-se, espalhando seus tentáculos para círculos nunca d’antes visto.

A divisão e a discórdia que se instalaram em nosso país, baseadas em uma míope visão da realidade, temperada por um misto de conceitos equivocados e de pré-conceitos rancorosos, apenas contribuem para que nos tornemos uma sociedade ainda mais desigual, ainda menos solidária, ainda menos harmoniosa.

A sociedade brasileira precisa de mudanças. Precisamos nos reencontrar com nossos objetivos comuns, precisamos nos reconciliar, acomodar nossas diferenças, harmonizar nossos interesses, superar os conflitos e nos dirigir conjuntamente a um futuro que seja pacífico, profícuo, justo, igualitário e digno.

Essa mudança, cabe à sociedade brasileira implementar e, as diretrizes para tanto, acham-se claramente dispostas no preâmbulo da nossa Carta Magna. Ali, numa passagem importante da nossa Constituição, os representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte instituíram um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social.

Lá estão expressos de forma clara e objetiva, numa singeleza raramente encontrada em textos jurídicos, os valores fundantes de nossa Nação: a Igualdade, a Liberdade, a Justiça, a Fraternidade, o Pluralismo, a Harmonia Social e a Ausência de Preconceitos.

Ainda que caiba à sociedade brasileira, em seu conjunto – titular primeira do comando supremo do destino do País -, a implementação dos ideais elencados pelo legislador constituinte, cabe também aos operadores do Direito (Magistrados, membros do Ministério Público e Advogados), papel fundamental na construção do projeto de nação idealizado e plasmado no texto da Constituição Cidadã.

A messe é grande. Os desafios, enormes. A missão é prosseguir firmemente na construção de uma sociedade justa, livre e solidária, como o quis e como o quer o texto constitucional. Rejeitando o sectarismo, o preconceito, o autoritarismo, o revisionismo, o rancor e o ódio, e abraçando a conciliação, a harmonia, a cedência recíproca, na certeza que as diferenças devem combinar-se, para formar a paz e o desenvolvimento.

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA deste domingo. 

No último feriado de novembro, tivemos a oportunidade de ir a Montes Claros, quando participamos das comemorações dos 50 anos de vida religiosa de uma querida tia, irmã de meu pai, membro do Instituto Sagrado Coração de Maria de Berllar. Fomos recepcionados pelas irmãs e ficamos hospedados no Colégio onde residem e mantêm uma escola de altíssima qualidade na cidade. Em cada quarto uma identificação e, na cabeceira da cama, um cartão de boas vindas e um presente. Café às 7 da manhã, almoço às 12 horas e jantar às 19 horas. Em um dos almoços, a presença do Arcebispo de Montes Claros, Dom João Justino, que também presidiu a celebração da Eucaristia. No meio disso tudo, passeios, alegria, confraternização, bate papo saudável e muito carinho das irmãs, que se esmeraram na acolhida. 

A Irmã Leda – para nós, sempre a Tia Leda -, depois de anos atuando na área educacional, na condição de professora, supervisora, orientadora e diretora de escola, aposentou-se das atividades escolares. Desde garoto, a Tia Lêda sempre foi uma referência positiva para mim e, com certeza, para todos os seus sobrinhos. Alguém que estudou em uma época onde tudo era muito difícil, principalmente para as mulheres. Além disso, ela teve a coragem de dizer NÃO ao costumeiro caminho preparado para as moças do interior e disse SIM à Vida Consagrada, respondendo livremente ao chamado de Cristo. 

Meus pais sempre tiveram um carinho muito especial por ela e, a contrapartida, sempre foi um cuidado e um grande amor dela para conosco, além do respeito e de uma verdadeira reverência que ela sempre demonstrou aos meus pais. Cada vez que a Tia Lêda anunciava sua chegada à nossa casa, a rotina se transformava, ficava tudo muito movimentado e a ansiedade tomava conta de todos.. Ainda é assim: em todos os lares, de todos os parentes e amigos, em que a Tia Leda chegue, o quarto é especial, o cardápio é cuidadosamente preparado e as conversas se prolongam por muitas e muitas horas. Como é bom bater um bom papo com a Tia Lêda! 

Bem, com a tia Leda aposentada, estava previsto que, em Montes Claros, teríamos muitas horas para colocar a conversa em dia. Que nada! Lá estava a Tia Leda envolvida com projetos sociais e com a comunidade da qual faz parte. Seus olhos brilhavam enquanto falava das atividades desenvolvidas no Centro de Convívio Madre Teresia Vermeylen. O Centro é um oásis no meio de uma comunidade muito pobre, denominada Vila Castelo Branco. O mais interessante é saber como surgiu a ideia do projeto: as irmãs desenvolviam atividades de orientação a adolescentes, em outra comunidade, quando se deram conta de que a maior parte das adolescentes grávidas era provenientes da comunidade Vila Castelo Branco e, por isso, decidiram criar o Centro de Convívio lá. 

E foram com força total, com coragem, buscando ajuda do Serviço Social, fazendo parcerias diversas. Construíram uma estrutura de fazer inveja a muitos clubes sociais e colocaram todo o aparato a serviço da comunidade local. Lá tem capela, cozinha, refeitórios, brinquedoteca. Cheguei a pensar que certamente era mais um complexo de ajuda paliativa e orientação às pessoas, como tantos por aí. Não, lá a coisa é diferente. As crianças brincam, recebem orientações, se alimentam, aprendem enquanto as mães estão nas oficinas de geração de renda, aprendendo a costurar, pintar, bordar, a fazer artesanato e a confeccionar enxovais. O Centro oferece, ainda, aula de espanhol e outros cursos de qualificação. 

O mais legal dessa historia foi o entendimento das irmãs de que não bastava falar para as adolescentes não se prostituirem ou “puxar a orelha” das mães para não as deixarem “soltas” pela vida. Elas visitaram as famílias, conheceram suas histórias e perceberam que era preciso mais para livrar aquelas crianças do relacionamento sexual prematuro, em troca de dez, quinze reais. Elas viram que, algumas mães, sentiam alívio quando uma adolescente conseguia um homem para sustentá-las, pois seria um estômago vazio a menos. Era preciso mais. Era preciso envolver a família no projeto e é o que vem acontecendo. Ainda há muito o que fazer, mas o passo certeiro está sendo dado. 

Tivemos a oportunidade de ver pessoalmente como é difícil e sofrida a vida daquelas pessoas e de constatar como um trabalho de dedicação, de entrega, de solidariedade e de profundo amor ao próximo é capaz de atenuar o sofrimento das pessoas e de contribuir para resgatar-lhes a dignidade. O projeto desenvolvido naquele Centro de Convívio fez bater forte aquela sensação que às vezes temos de que, na verdade, muitos de nós desperdiçamos nosso tempo com coisas fúteis, com atividade e afazeres improdutivos, que nada nos acrescentam e que tanto consomem a nossa energia. Uma breve visita àquele local faz-nos perceber, que muitos de nós levam uma vida egoísta, vaidosa, mostra-nos de uma forma vívida a nossa falta de respeito ao próximo, e o nosso profundo narcisismo. Uma simples visita ao Centro de Convívio é o suficiente para nos mostrar a necessidade de cultivarmos, cada vez mais, as virtudes. 

A solidariedade, a Caridade, o Amor ao próximo. Nada pode ser mais gratificante e mais enriquecedor do que fazermos o Bem. Do que utilizarmos nossos dons, nossos talentos, nossa energia e nosso trabalho em prol dos nossos semelhantes. 

“Todos aqueles que se doam, mesmo que seja apenas um pouco de si pelo Bem, estão semeando flores. Cada gesto de caridade e de amor é uma semente, e cada semente, uma flor. Se todos nós fizéssemos isso, apenas por uma pequena parte do nosso tempo, faríamos da terra em que vivemos, em pouco tempo, um imenso jardim…” (Irmã Dulce – a Santa Dulce dos Pobres). 
• Eugênio Maria Gomes é Professor, escritor, funcionário da Funec e sobrinho da Irmã Leda.


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Texto publicado no jornal Diário de Caratinga, em 10/11/2019

Quantos anos você tem? Eu tenho sessenta, setenta, oitenta, noventa, cem anos! Eu tenho cento e poucos ou cento e muitos anos. A idade, não importa. Eu sou uma pessoa idosa. Não sou um apêndice, um objeto, um encosto, uma doença ou, apenas, um velho. Sou simplesmente uma pessoa idosa! 

Meus cabelos estão embranquecidos, minha voz embargada e minha alma repleta de emoções. Já trabalhei muito, sofri o suficiente e chorei bastante. Alegrei-me muito, ajudei e fui ajudado, criei e fui criado, enxuguei lágrimas, consolei prantos, curei feridas… 

Eu sou de todas as cores, de todos os amores, de todas as crenças e de todas as classes sociais. E você, que está lendo este texto agora, quantos anos tem? Eu tenho muitos anos, mas, por favor, não me chame de velho. Eu sou uma Pessoa Idosa. Tenho sentimentos como você. Eu rio, choro, entristeço e me divirto como você. Eu sou um caminhante e, antes do porto final, ainda farei muitas paradas. Sou idoso sim, meu amigo. Mas, não estou morto. Por favor, me trate com respeito. Eu não sou um estorvo, eu sou a experiência… Eu sou a maturidade!

Ao ver meus entes queridos sucumbindo a velocidade e a rapidez que a vida moderna lhes impõe, escravos de uma existência fútil e fugaz, intoxicados com a falsa sensação de pertencimento que as redes sociais lhes propiciam, penso como seria bom se ainda pudéssemos sentar na varanda e contar histórias, trocar olhares, sentir odores, secar algumas lágrimas e gozar o mais profundo prazer do simples “estar junto”…

Quantos anos você tem? Eu preciso de você! Mas eu não preciso de sua piedade, eu preciso é de sua atenção, de sua alegria e de seu carinho. Por que essa falta de cortesia e de respeito comigo? A preferência no acesso ao transporte, aos assentos dos ônibus e aos primeiros lugares na fila, é minha. Eu tenho direito a prédios com rampas, corrimão e sinalização. Eu quero respeito à concessão de próteses, cadeiras de rodas, aparelhos auditivos e visuais, direitos dos idosos previstos em lei, mas quase nunca concedidos.

Meu amigo, eu fico muito triste quando você faz questão de me mostrar que o meu envelhecimento está se transformando em sinônimo de inutilidade… Sim, na medida em que vou envelhecendo, a sociedade tenta me transformar em empecilho, esquecendo-se de que neurônios não envelhecem. Você sabia que grande parte do sucesso dos países desenvolvidos advém do respeito e do bom uso da experiência e do conhecimento acumulados por seus idosos? No entanto, meu caro, em minha própria casa, às vezes, sou maltratado, agredido e, até, dopado com medicamentos, para poder ficar quieto, para não incomodar os mais novos… 

Mas, eu resisto. E grito: quantos anos você tem? Eu tenho muitos anos. Sou apenas uma pessoa idosa, mas sou gente. Gente como você. Quando Aristóteles, há mais de 2300 anos, disse que “A Cultura é o melhor conforto para a velhice”, referia-se ao conforto da velhice coroada pelo saber, à segurança que eu – e cada idoso do mundo – teríamos, já que somos templos da Cultura e do Conhecimento. 

Venha! Venha caminhar comigo. Venha aprender a envelhecer, porque este será, também, o seu destino. Venha sem preconceitos, sem fazer julgamentos e sem se preocupar com eles. Há muito já não me preocupo com a calvície e com os cabelos brancos e já consigo ver o mundo com os olhos de quem já viveu muito, mas que tem muito ainda para viver. 

Já não ando tão rapidamente, nem respondo com a voz tão forte. Já não me preocupo tanto em estar no controle de tudo, ou saber de tudo que acontece em todos os recantos do mundo. Meu tempo flui de forma diferente, pois aprendi a me dedicar apenas àquilo que realmente me importa. Não quero mais Ter, mais do que nunca quero apenas Ser…

Quantos anos você tem? Eu tenho o suficiente para caminhar olhando para frente, com a certeza de que tudo que ficou para trás, os erros e os acertos, foram necessários para que eu me tornasse o que sou hoje! Caminho, tendo em mente as palavras de Sêneca: … Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a. Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem. Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres”.

* Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.