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Chega a ser engraçada a capacidade do ser humano de resolver determinadas situações, “ajeitando” daqui e dali, de tal sorte que a sua zona de conforto seja preservada. E o brasileiro, de uma maneira muito especial, quando não lhe agrada determinada realidade, é mestre em dar um jeitinho de adaptá-la a si próprio, preservando assim o seu magnânimo entendimento de que quem está certo é ele. Isto fica muito claro, por exemplo, quando o assunto é a sua vivência da fé. 

Os católicos romanos, do mundo todo, celebram o homem que ocupa a cadeira de Pedro, não apenas porque entendem que o papa é a mais alta autoridade do catolicismo, mas, principalmente, porque este papa é de fato diferenciado. Ao adotar o nome de Francisco – em homenagem àquele que se despojou de toda vaidade, de toda a riqueza, para viver uma vida de simplicidade -, o atual papa disse logo a que veio: aproximar o fiel do Evangelho de Jesus Cristo, levando a Igreja para além de seus suntuosos templos e palácios, acolhendo os oprimidos, os marginalizados, os pobres, os excluídos, os diferentes…

Pouco tempo após o início do papado de Francisco, escutei de uma católica fervorosa, o seguinte: “Esse papa sim, é dos bons. Que simplicidade, não quis o anel de ouro e dorme no alojamento com outros padres”. De fato, ela estava certa. Francisco é um homem muito simples e o anel a que ela se referiu é o Anel do Pescador, único para cada papa, mas sempre confeccionado com o ouro do anel de seu antecessor. O papa preferiu um anel de prata, mais simples, e tornou-se o primeiro papa a não usar o anel feito a partir do material usado no adorno por todos os seus antecessores. E mais: a ala conservadora da Igreja vive às turras com o pontífice por conta de ele não deixar que os fiéis beijem o seu anel. 

Recentemente, ao falar com essa mesma católica fervorosa, ouvi dela que este papa seria, na verdade, o anticristo. Como assim, perguntei? A resposta soou aos meus ouvidos como algo inacreditável: “Este papa é comunista. Fica defendendo índio, a Amazônia, protege as minorias. Ele defendeu os homossexuais!”. Neste último quesito, o que o papa disse, literalmente, foi: “Pessoas homossexuais têm o direito de estarem na família, e os pais têm o direito de reconhecer essa criança como homossexual. Você não pode jogar fora alguém da família ou tornar a vida impossível para eles.”. Não, ele não é o anticristo. Mas ela está certa: o papa defende mesmo o índio, a cultura, o meio ambiente, o trabalhador, o negro, o pobre, a prostituta, o marginalizado… 

Alguns Católicos, também, estão dizendo que uma carta escrita pelos bispos brasileiros está dividindo a Igreja, e que esses bispos são comunistas. O início da carta, assinada por 152 bispos e arcebispos do Brasil, mostra bem o equívoco no entendimento de parte dos católicos que só aceitam como certo aquilo que lhes convém: “Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo”. 

Três dias depois da publicação desta carta, 1058 padres assinaram um manifesto em apoio aos bispos, ratificando que “O Brasil atravessa um dos momentos mais difíceis de sua História e vive uma “tempestade perfeita”, combinando uma crise sem precedentes na saúde e um avassalador colapso na economia…”.

A questão que se coloca aqui é simples: ninguém é obrigado a gostar do papa, a aprovar a atitude “comunista” dos bispos. Mas, uma coisa é certa: quer ser católico? Quer permanecer na Igreja Católica? Então observe, respeite e acate o que determinam as autoridades eclesiásticas. Mesmo não gostando, guarde em seu coração, reze e evite sair difamando os representantes da sua Igreja. 

Se não conseguir fazer isso, talvez seja melhor procurar algo que se lhe adapte melhor. Algumas doutrinas costumam dizer, apenas, aquilo que gostamos de ouvir, e nem sempre, aquilo que precisamos ouvir…

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Após seis meses de ausência da coluna, aqui estou, de volta aos meus escritos. No final de 2019, ao completar 500 textos publicados no DIÁRIO DE CARATINGA, decidi que seria bom dar uma “parada”, mas, nem de longe, eu poderia imaginar que ela viria envolta por uma pandemia, alterando a rotina da humanidade e ceivando milhares de vidas em todo o mundo. No começo, logo após a interrupção das atividades laborais, loucura total: compra de vários litros de álcool 70; retirada de dinheiro, em espécie, para eventuais emergências; compra de alimentos, em maior quantidade, para estocar; confecção de muitas máscaras, para substituir frequentemente; suspensão provisória da diarista e, até, o isolamento total. Aos poucos, fomos percebendo que os cartões e cheques continuavam valendo; que alguns alimentos venceram a validade sem que pudessem ser usados; que no máximo, duas ou três máscaras eram suficientes para o rodizio; que estocar litros e mais de litros de álcool é perigoso; que a diarista poderia trabalhar, desde de que observados pequenos cuidados com a segurança e que o isolamento total da família, sem encontrar, mesmo que de longe, com filhos e netos, era praticamente impossível de ser efetivado. Muitos migraram do isolamento para o distanciamento social, outros sequer se preocuparam com isso ou não puderam manter tal distanciamento, enquanto alguns simplesmente não acreditaram na virulência do covid-19. Aconteceu, e ainda acontece, de tudo: isolamentos inadequados levaram alguns aos hospitais, assim como o fez a descrença na própria existência do vírus, não obstante as milhares de vidas perdidas, noticiadas diariamente. Para alguns, a ficha somente caiu quando a tristeza rondou o seu entorno. Hoje, podemos afirmar, sem qualquer medo de errar, que cada brasileiro teve notícias de alguém conhecido que tenha perecido ou sofrido muito por conta do tal coronavírus. A pandemia ainda persiste e os que se encontram no “grupo de risco” continuam em isolamento ou, então, mantendo o mais cuidadoso distanciamento social. O que, às vezes, nos parece sem sentido, já que muitas pessoas idosas e portadoras de doenças pré-existentes tornaram-se imunes sem a apresentação de sintomas mais sérios, enquanto outros, jovens, sofreram horrores nas diversas UTIs espalhadas pelo país. Mas, como a maioria dos que morreram, encontravam-se na faixa etária acima dos sessenta anos e, ainda, apresentavam comorbidades, a turma tem acreditado na máxima de que “o seguro morreu de velho”. De certo, o que temos, é que milhares de pessoas passaram ou estão passando, pelos mais tristes momentos de suas vidas. Permaneci por exatos cento e setenta dias em isolamento social. Reformei a minha casa, passei, lavei, cozinhei. Gravei vídeos diariamente, como forma de interagir com as pessoas, de desabafar, de motivar a mim e aos outros. Valeu a pena. Nesse período, arranjei assunto para alguns novos livros: “Reflexões de Uma Quarentena”, em parceria com o sobrinho e psicólogo Caio César; “170 dias de devaneios”, este autoral e “Sons do Silêncio”, projeto literário a ser desenvolvido em parceria com Alim Rocha e Almir Morgado. Como aprendi neste período! Sim, penso mesmo que cresci, que amadureci ainda mais, ratificando os meus cabelos grisalhos e as rugas que teimam em sobressair quando sorrio ou franzo a testa. Prossigo no isolamento social moderado, mas rígido no distanciamento social, até que alguma coisa boa chegue, de vez, para dar o cartão vermelho à esta pandemia. Domingo que vem nos encontraremos aqui, se Deus quiser! … Quero lá, lá, lá, ia, porque eu tô voltando!• Eugênio Maria Gomes – Escritor e funcionário da FunecCharge de ‘Edra Cartunista