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Mais uma vez quero tratar de um tema sobre o qual muitos não gostam de conversar, preferindo “empurrar o assunto para debaixo do tapete”. Porém, a minha cultura, a minha formação, o meu aprendizado familiar e as minhas crenças não permitem que eu me omita. Sei que isso tem um preço, mas, infelizmente, pagarei se for preciso. Já me chamaram de “esquerdista” – como se o fato de ser de esquerda fosse algum ruim, e de “apoiador de comunista”. Bem, se o fato de acreditar na fraternidade; na igualdade; na liberdade de expressão com responsabilidade; na diversidade e na pluralidade; na importância da preservação ambiental e na possibilidade de uma convivência harmoniosa do homem com os seus pares, independentemente do gênero, credo e raça; se o fato de acreditar na educação como ferramenta transformadora de uma realidade e desejar que a saúde e o bem-estar sejam oferecidos a todos, indistintamente, significar ser o que pensam os extremistas de direita, então serei de fato qualquer coisa que queiram me denominar. E, hoje, mais uma vez, eu quero falar de racismo. A cada vez que acontece um ato de racismo no país, daqueles que são óbvios demais e que não dá para ficar fazendo de conta de que esse pérfido sentimento não existe por aqui, também ficam evidentes as desculpas e as justificativas que são apresentadas pelas pessoas. “Tenho sangue negro nas veias”, é a mais comumente utilizada por alguns brancos, como se o fato de ter resquício de sangue afrodescendente no genótipo fosse suficiente para retirar o seu nome da lista dos racistas. Não, não é, até porque, negros racistas também os encontramos aos montes. Aliás, entre os negros, o que existe de gente que, para fugir da responsabilidade de lutar por um resgate social de seus iguais – ou por vergonha de sua origem -, se declara “moreno”, não está no gibi. Você, certamente, tem um amigo ou uma amiga assim, da pele “moreninha”, que não admite a sua negritude. Triste de ver! Essa turma não entendeu que a terminologia “negro” engloba todos os pretos e os pardos do país. Ou seja, a maioria de nós é muito mais que “moreninho”. Esta semana presenciamos quase que uma reedição do caso George Floyd, aqui no Brasil, quando morreu asfixiado, depois de ser duramente agredido, o negro João Alberto, em um estacionamento de uma grande rede de supermercados, em Porto Alegre. Impressionante como gostamos de copiar coisas dos americanos: a comida gordurosa e calórica, o halloween, o black Friday, as expressões inglesas no meio das frases – coisas do tipo “oh my god” e “yes” -, entre outras. Mas, precisávamos importar as loucuras do Trump e o descaramento e a violência do racismo americano? Recentemente, ao comentar o ocorrido com João Alberto, nosso vice-presidente afirmou, categoricamente, que aqui nós não temos racismo, citando inclusive a sua experiência nos Estados Unidos, onde, para ele “lá é que existe o racismo. As pessoas de cor são separadas das pessoas brancas”. Não bastasse sua fala ser impregnada de eufemismo racista – como assim, pessoas de cor? -, parece que nosso mandatário não tem a menor ideia da diferença entre segregação racial e racismo. Ah, João Alberto foi quem começou a confusão, inclusive agredindo pessoas. Pode ser verdade. Porém, haveria necessidade de ele ter sido espancado daquela forma? Se naquela mesma situação a vítima fosse branca, loira, de olhos azuis, o gran finale teria sido o mesmo? Ah, mas o rapaz não era lá essas coisas, com passagem pela polícia… Sim, e daí? Por isso torna-se necessário espancar uma pessoa até à morte? Então a maneira de livrar a sociedade daquilo que ela não gosta, ou que não se coaduna com o seu “jeito de pensar e de viver”, é matando? Ora, cada um de nós não gosta de alguma coisa. Se formos olhar o gosto de cada um, certamente teríamos um país praticamente desabitado, porque além dos que têm “passagem pela polícia”, dos que brigam em supermercados e dos que agridem as pessoas, temos as prostitutas, os mendigos, os corruptos, os mais feios, os pretos, os branquelos, os ladrões, os estupradores, os homossexuais, os políticos, os professores ruins, os comunistas, os maridos infiéis, as meninas que provocam os homens, os ladrões de galinha, os hipócritas, os racistas, os supremacistas e por aí vai. Se fôssemos olhar o gosto individual de cada cidadão, é bem provável que nós mesmos seríamos mortos. As reações ao crime ocorrido foram as mais diversas, inclusive ocorrendo invasões e depredações de algumas lojas da rede de supermercados, e isso não podemos aprovar. De fato, violência só gera violência. Entendo que os negros estejam cansados de tanta conversa fiada e pouco resultado prático, mas ainda assim, nada justifica a violência. Sem contar que a reação violenta não ameniza, em nada, a violência da morte de João Alberto. Por que a nossa dificuldade em aceitar, neste caso, que independentemente de quem era João Alberto, ele não poderia ter sofrido aquela violência? Por que a nossa insistência em negar que o racismo existe por aqui? Não, o que aconteceu com João Alberto não foi uma ocorrência isolada, mas apenas mais um ato desse triste espetáculo que é vivenciado pelo país, há séculos, tendo como protagonistas os negros. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. A maioria dos pobres é negra e os negros superlotam os presídios país afora. Há quem diga que essa estatística se justifica pelo fato de a maioria da nossa população ser negra, mas não conseguem explicar por que então eles não são a maioria nas melhores escolas, no congresso, nos clubes de serviço, nas empresas, nas instituições em geral. Se conseguirmos explicar isso, sem constatar que ao longo dos séculos eles vêm sendo preteridos, subjugados e menosprezados, talvez eu também faça coro para dizer, com orgulho, que não somos racistas. Às vezes olho para o meu filho e para o meu neto, negros, e me dá aquela vontade de ir embora, de levá-los para um local bem longe, em outro continente, onde pudessem ter uma vida mais feliz, sem olhadas de “rabo de olho”, sem desconfianças, sem menosprezo. Onde possam ser informados e conhecer, orgulhosamente, seu passado glorioso, seus deuses e sua mitologia, seus costumes e sua cultura sofisticada. Onde não sejam lembrados a todo instante que são descendentes de escravos, e compreender que são descendentes de seres humanos que foram escravizados por outros seres humanos. Onde possam ser pessoas boas ou más em função de seu caráter, e não em função da cor de sua pele…É que, às vezes, cansa. Mas, prosseguir é preciso. Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Criamos nossos filhos para serem felizes. No entanto, é muito comum que ofereçamos ferramentas diferentes aos meninos e às meninas para que cavem o túnel que os levarão à felicidade. Meninos, futuros homens, são criados “mais à vontade”, enquanto as meninas, futuras mulheres, são quase sempre criadas com regras mais rígidas, devem estar sempre arrumadas, bonitas, devem aprender a cozinhar, ajudar a mamãe nas tarefas da casa e são ensinadas a serem prendadas. Em muitos casos, meninos são criados para terem sucesso profissional, enquanto boa parte das meninas são criadas para serem boas esposas, boas mães, boas donas de casa. É claro que isso não é mais uma regra geral, mas ainda acontece com muita frequência em vários pontos do país.

Com raras exceções, a menina que se torna uma profissional em condições de concorrer com o homem, é quase sempre resultado de um ato de rebeldia, afrontando alguns idiotas que, ainda, acham que lugar de mulher é em casa. E antes que você pense “lá vem ele com esse negócio de igualdade de gênero”, quero lhe dizer que a questão vai muito além do “menino veste azul” e “menina veste rosa”. Estamos falando de oportunidades, de valorização e de reconhecimento do ser humano, independentemente de seu gênero.

A questão, no Brasil, extrapola qualquer tentativa de justificar o óbvio, ou seja, a mulher brasileira é sim muito desrespeitada, muito desvalorizada e isso não faz o menor sentido. Não podemos continuar convivendo com o triste resultado de uma estatística que apresenta como maioria absoluta dos pobres do país as mulheres e, em sua maior parte, negras. Um país onde a mulher continua a receber um salário muito inferior ao do homem, mesmo desempenhando funções ou ocupando cargos iguais aos deles. Mulheres que, mesmo após a criação de uma lei específica de proteção a elas, continuam sendo maltratadas, agredidas, violentadas, vilipendiadas e mortas, por alguns “machões”.

Talvez o fato de eu ter quatro filhas, facilite este meu posicionamento, mas, todo homem é gerado no ventre de uma mulher e a maioria deles cresceu sob o olhar vigilante, o colo aconchegante e o amor incondicional de uma mulher, o que por si só já é motivo de sobra para querer que elas sejam amadas, respeitadas, valorizadas e felizes.

Propiciar meios para que a mulher seja feliz na vida, que encontre o seu lugar no mundo e seja reconhecida por isso, significa que elas devem ser educadas para que possam decidir os caminhos profissionais que seguirão, as atividades que vão exercer, os comportamentos que vão adotar, sempre com dignidade, responsabilidade e honestidade.

Minhas filhas, desde pequenas, sempre andaram bonitas, cheirosas e bem arrumadas. Todas sempre ajudaram nas atividades domésticas, mas sempre me viram também ajudando, dividindo as tarefas, para saberem que, em casa, não existe o “papel do homem” e o “papel da mulher”. Existem atividades necessárias que devem ser igualmente compartilhadas por todos que moram na casa, sem qualquer distinção de gênero. Todas foram educadas para o trabalho, para a importância da aquisição de conhecimento e para a independência. Sempre lhes disse que elas não deveriam, jamais, se submeterem ao julgo masculino por conta de dependência financeira ou qualquer outro tipo de “poder” que alguns homens costumam exercer. Também foram criadas para a vida em família, para o respeito ao outro, para serem mães ou não, para se casarem ou não, mas principalmente, foram criadas para só fazerem aquilo que as deixassem felizes e para lutarem sempre pelos seus direitos. Elas sempre tiveram em mim um guerreiro pronto para uma batalha, ao lado delas, seja em que fronte fosse.

Temos, ainda, um longo caminho a percorrer, pois não basta apenas criarmos nossas meninas mais preparadas para o mundo, mas, também, é preciso criarmos nossos meninos para que enxerguem nelas seres humanos iguais a eles, com os mesmos direitos e deveres. Talvez, nesse quesito, muitos de nós, incluindo muitas mulheres, estejamos cometendo erros, alguns imperceptíveis, mas que transmitem mensagens muito significativas, tanto para nossas meninas, quanto para nossos meninos. Não podemos esquecer, que de início, tudo se aprende em casa, na forma como discriminamos, de maneira quase natural, nossos meninos e nossas meninas, em função do gênero.

Meninas vestem rosa, mas podem, se quiserem, vestir azul, verde, amarelo, laranja, ou qualquer outra cor existente. Meninas devem ajudar nas tarefas da casa, assim como os meninos, pois todos habitam o mesmo espaço. Todos devem receber a mesma educação, devem ser preparados para serem boas pessoas, bons cidadãos. Respeitados e reconhecidos em sua integral identidade humana, em sua infinita diversidade existencial e em sua plenitude espiritual!

Se quisermos que as mulheres da nossa vida – mães, esposas, filhas, sobrinhas, amigas, cunhadas etc. -, sejam verdadeiramente felizes, teremos de passar pelo entendimento de que o empoderamento da mulher é assunto para todos nós.

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Todo Mundo tem algo em seu corpo que não o agrada muito. Não estou falando de nada vaidoso demais, apenas de algum detalhe que nos incomoda e que, em algum momento, a gente acaba dando um jeito de consertá-lo ou, pelo menos, de disfarçá-lo. Alguns não gostam do nariz, outros não gostam da orelha, do cabelo ou da boca. No meu caso, nenhum disfarce deu jeito, nem mesmo uma camisa preta ou um terno escuro: a barriga. Desde pequeno – período em que eu consegui receber o apelido de “desnutrido” na escola, e nem entendia isso como bullying, mas apenas como uma constatação da minha magreza -, mesmo magro, a barriga estava ali, como se fosse um grande depósito de lombrigas…

E assim foi a vida toda, em todos os momentos da minha vida, estando magro ou gordo, a barriga desconhecia qualquer parâmetro harmônico entre ela e o todo. Ainda hoje é assim e as ações para exterminá-la não param. Abdominais? Aos montes. Hoje faço, diariamente, entre 150 e 200 flexões. Faço-o de teimosia, porque tanto faz fazer ou não, ela permanece imutável, protuberante, como a me dizer “Não perca seu tempo, daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Dieta? Só se for para morrer de fome. Na verdade, quando corto a massa, o doce, a sobremesa, o “sanduba” com bastante molho, o sorvete, ela até se acomoda um pouco, mas nada de sumir.

O maior problema com esta minha – já de casa -, barriga, é que quando eu consigo, enfim, depois de muito abdominal e muita dieta, fazer com que ela dê aquela disfarçada boa, as pernas ficam mais finas, o rosto fica “acaveirado” e a bunda que já é pequena, desaparece de vez… Certa vez minha mulher me deu uma “coisa” de presente, como se fosse um colete, de borracha elástica, daqueles que entra apertado e quase não te deixa respirar. A ideia do “troço” é te fazer suar, apertar suas banhas o bastante e te fazer se sentir um pouco mais fino. Depois de muito esforço, consegui enfiar aquilo no corpo, coloquei uma camisa por cima e sai, animado, para uma volta na rua. Mal saí de casa encontrei uma amiga, ganhei de seus braços aquele abraço e, de sua boca, o seguinte: “Rapaz, como você engordou!”. Além de não disfarçar nada, só quem já usou uma vez sabe a dificuldade que é tirar aquilo do corpo suado, principalmente para os que, como eu, tem essa quantidade toda de pelos…

Já testei algumas receitas e simpatias. Passei a comer uma maça pela manhã e engordei alguns quilos, pois nunca vi nada para me dar mais fome que a tal da maçã. Tomar limão com água, em jejum? Ah, fiz muito e o estômago quase foi para o brejo. Aliás, uma vez me mandaram partir um limão ao meio e colocar uma parte em cada olho… Não fiz, mas certamente era para arder bem os olhos para que eles não enxergassem a comida….

No fim do ano passado, agradeci a Deus o ano que tivemos e pedi um ano novo com muitas viagens e menos peso. Eu certamente já tinha bebido além da conta quando falei com Ele, pois recebi justamente o contrário, ficando preso em casa este tempo todo e aumentando significantemente o peso, perfeitamente justificável pela vida de panda que levei nesses últimos meses.

Recentemente achei que tudo estaria resolvido, pois ao voltar de uma viagem à casa da minha filha, em Lagoa Santa, encontrei em um ponto de apoio ao viajante algo que me encheu os olhos: um pote branco, com o nome “Adeus barriga”. Ao ler as inscrições verifiquei que era feito a partir de ervas naturais. Entre os ingredientes, cana de açúcar, berinjela, folha de inhame, maracujá, abóbora, laranja, feijão, beterraba etc. Até aí, tudo bem. Passei, então, a ler as indicações que estavam em dois pequenos quadros. No primeiro: “Cura varizes, diminui a ansiedade, melhora o diabete, regula a pressão, solta o intestino, emagrece e combate a TPM”. Achei desnecessário sobre a TPM, mas me animei a ler o segundo quadro, onde constava: cura espinhela caída, melhora a sorte, reata amizades, traz a mulher de volta e enxuga a barriga. 100 cápsulas, por apenas R$10,00. Como efeito colateral, aumento na produção de gases.

Não comprei. Além de barrigudo só faltava passar a ser peidorreiro.

· Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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– 52 milhões de pobres
– 14 milhões de miseráveis
– Entre as pessoas abaixo da linha de pobreza, 70% são de cor preta ou parda
– Entre os milhões de pobres, cerca de 40% são mulheres negras
– 45 milhões de brasileiros residem em domicílios inadequados, sendo 31 milhões de cor preta ou parda.
– Brancos ganham muito mais que os negros
– Homens ganham muito mais que as mulheres
– Violência doméstica só aumentando .

As grandes questões nacionais continuam sem solução e sem qualquer sinal de uma luz no fim do túnel. Enquanto isso os políticos vão se digladiando por conta de poder e de pretensões futuras. Se não bastasse tudo isso, ainda temos de conviver com desatinos diários, de uma pseudo supremacia branca, de machistas, de gente sem educação, sem qualquer capacidade de compartilhar afeto, de gente incapaz de enxergar além do próprio umbigo.

Infelizmente temos entre nós pessoas que a minha educação não permite adjetivar. De mim receberão sempre repúdio e desprezo.

Vidas Negras Importam.
Pela igualdade de oportunidades para todos.
Pelo empoderamento feminino.
Pelo respeito ao Ser Humano

Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Sempre foi inegável a enorme influência que os Estados Unidos exercem sobre o Brasil. Não me refiro, apenas, à influência econômica e política, que seriam relativamente óbvias diante da absoluta hegemonia que esse país adquiriu no mundo e, em especial, na América latina, desde a segunda guerra mundial. Refiro-me a influência que o “american way of life” exerce sobre os brasileiros em geral, pelo menos, na parcela urbana da classe média brasileira. No cinema, na música, e em diversas outras áreas, o jeito americano de viver está presente em diversos aspectos do nosso cotidiano.

Porém, a par dessa gigantesca preponderância cultural norte-americana, que foi capaz de banir totalmente a outrora mania dos brasileiros de copiar os franceses – e os europeus em geral -, nunca uma eleição presidencial daquele país chamou tanto a nossa atenção. A vitória de Obama, primeiro presidente negro, foi muito comentada por aqui, mas nada comparável a derrota de Donald Trump.

Donos de um sistema eleitoral idealizado há mais de duzentos anos para evitar que a Federação, recém criada, acabasse dominada pelos estados mais populosos; titulares de uma plêiade de legislações eleitorais locais e fanáticos em prognósticos estatísticos, tudo isso banhado por declarações de um presidente cuja bizarra personalidade assemelha-se às piores performances de telenovelas mexicanas, fez com que as eleições americanas dominassem totalmente os telejornais brasileiros, e despertassem amor e ódio entre nós.

A eleição de Trump, há quatro anos, inaugurou uma era de radicalismo, conservadorismo e sectarismo que rapidamente, alastrou-se pelo mundo. Em um breve período, Trump fez vários discípulos. Cá entre nós, na Hungria, em Israel, na Bielorrússia, enfim, eleito, o presidente norte-americano encarnou, não uma postura conservadora, mas um conservadorismo arcaico, violento, misógino, negacionista, sectarista, algo que envergonharia até Margareth Thatcher, Ronald Reagan ou mesmo George Bush… Porém, Trump exagerou tanto em suas performances ridículas, com gestos e palavras absolutamente incompatíveis com a dignidade e compostura que se espera de um Presidente, que os eleitores americanos – pelo menos a maior parte -, resolveram desalojá-lo da Casa Branca.

Em que pese as bravatas e ameaças dessa “triste figura” não terem ainda terminado e que, provavelmente, tenhamos que suportá-las por algum tempo, o certo é que Biden foi eleito como o quadragésimo sexto Presidente daquele país, de todos os demais do mundo, o que mais possui traços de similitude conosco.

Diante de tudo isso, parece mesmo que os norte-americanos tem algo a nos ensinar.

Em primeiro lugar, fica uma importante mensagem sobre a organização e a confiabilidade do nosso sistema eleitoral. A unificação da legislação eleitoral, o sufrágio direto, as urnas eletrônicas, a Justiça Eleitoral de âmbito nacional, tudo isso, comparado ao caótico sistema americano, nos ensina que somos capazes de desenvolver e aplicar técnicas e processos infinitamente superiores.

Em segundo lugar, vemos que o populismo nasce sempre com data marcada para morrer, independentemente de sua base ideológica.

Obviamente, a derrota de Trump foi fruto de diversas questões de conjuntura, como a crise econômica, a crise sanitária e a crise racial. No entanto é importante localizar o significado da derrota de Donald Trump dentro do chamado Populismo. O termo “populismo” atualmente tem sido utilizado para se referir a regimes políticos baseados em líderes que dizem expressar a vontade do povo – seja lá o que tal conceito realmente signifique –, frente a elites corruptas.

O sucesso desses políticos se basearia em um discurso que divide a sociedade em dois polos antagônicos: os bons contra os ruins, os não corruptos contra os corruptos, o povo contra o Poder, os “servos” de Deus contra os “pecadores”.

A retirada de Trump da Casa Branca demonstrou que a maior parte dos eleitores percebeu a hipocrisia, a falsidade e o enorme perigo que se escondia nas entrelinhas desse discurso de ódio e de total desrespeito à diversidade, aos direitos e às liberdades civis em geral, e de absoluto desprezo a tudo aquilo que não correspondia à deturpada e medieval visão de mundo que dirigentes desse naipe ostentam.

Por último, embora fosse possível extrair ainda diversas outras lições desse evento eleitoral americano, destaco uma derradeira lição, ou melhor, uma derradeira premonição: deveremos ver aqui, nessas terras tropicais onde permanecemos deitados em berço esplêndido, episódio semelhante. Não me refiro a questões relativas ao sistema eleitoral. Refiro-me a uma postura de negação do resultado das urnas, de questionamentos sobre a confiabilidade do sistema de votação e apuração. Refiro-me a estratégia de tentar desacreditar o processo eleitoral. O populismo – seja de direita ou de esquerda -, só sobrevive se conseguir manter hipnotizada sua base de apoiadores, ainda que o contexto econômico, social, político e sanitário não lhe favoreça.

Para os que advogam a tese populista, o messianismo, o culto à personalidade e a certeza subjetiva de que são instrumentos divinos, enviados para uma “Cruzada” de salvação da Pátria, o povo se resume àqueles que o seguem. Os demais são “impuros”, ou “inimigos da Nação”, ou “pervertidos”, ou “traidores”, ou simplesmente “comunistas”.

A mesma tempestade perfeita que propiciou a ascensão desse conservadorismo raivoso, deve repetir-se, às avessas, daqui em diante. Continuamos profundamente divididos, permanecemos ainda, cada um a seu modo e com seus argumentos, donos exclusivos da verdade e da razão; ainda não fomos capazes de perdoar ou esquecer os erros praticados por parte dos políticos mais progressistas do nosso espectro partidário, porém, a profunda crise econômico-social que vivemos, o aumento exponencial da miséria, da fome, do descaso ambiental, as palavras chulas, o comportamento misógino e vulgar, e, principalmente, a comprovação de que a corrupção não é exclusividade da Esquerda, deverão cobrar seu preço nas próximas eleições…

Enfim, quem viver verá…

Ainda há luz no fim do túnel.

Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec. 


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A ideia foi aproveitar o tempo livre, entre uma aula e outra, para um bate papo mais descontraído com os alunos, sem, contudo, perder o foco no conteúdo. Decidi falar sobre algumas questões práticas a respeito do Marketing e de como a Comunicação é fundamental em todo o processo. Como forma de motivá-los, lhes pedi que me falassem um ditado popular para que eu, a partir dele, lhes mostrasse como o comunicar-se com o outro pode ocorrer desde as formas mais simples às mais elaboradas.

Uma aluna que estava sentada mais ao fundo da sala levantou a mão e disse-me o seguinte: “Professor, que tal o ditado popular água mole em pedra dura, tanto bate até que fura?”. Por um momento achei uma boa ideia, já que qualquer um entende, exatamente, o que o tal ditado quer dizer nas entrelinhas. Mas, abortei a sugestão imediatamente, pois vi pleonasmos em excesso na frase… Água mole…. Pedra dura…

Sem querer entrar nesse tipo de discussão, envolvendo a nossa gloriosa – e às vezes complicada -, Língua Portuguesa, fiquei aliviado quando outra voz soou no outro lado da sala: “Professor, quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Confesso que, por pouco, não deixei escapar um leve sorriso, pois a citação do aluno fazia parecer que eu havia solicitado a eles, justamente, o uso da tal figura de linguagem. Agradeci aos desorientados alunos, me dirigi ao quadro e escrevi: “Vou puxar a sardinha para a minha lata”.

Assim que me voltei para a turma, percebi aquele silêncio profundo, meio esquisito para uma sala de aula nos dias de hoje. Percebi, também, um leve sorriso maroto, em praticamente todos eles. Compreendi, então, que eles não conheciam o ditado e dei início à sua explicação. Puxar a sardinha para a minha lata significa que eu vou me favorecer mais do que ao outro… Aquelas caras, com os olhos arregalados, continuaram a ostentar aqueles sorrisos de canto de boca.

Insisti: olha só pessoal, imaginem dois portugueses, lá nos arredores do Porto, com suas latas vazias esperando a separação das sardinhas. (Achei melhor pensar em latas maiores, utilizadas nas pescarias, porque percebi que não seria nada fácil explicar se os recipientes fossem as famosas “Latas de sardinha”, já que nelas o alimento entra processado). E continuei: aí, eu pego as sardinhas, coloco três na minha lata e duas na sua, e mais uma vez repito a operação, por sucessivas vezes. É claro que, ao final, eu terei muito mais sardinhas na minha lata do que você na sua. Essa ocorrência pode ser entendida como um “favorecimento” a mim. É claro que a sardinha é só um exemplo, pois poderíamos falar de algo que estivéssemos oferecendo ao cliente e, no momento da abordagem, eu enfatizaria mais o meu produto ou serviço.

O certo é que, em Comunicação, “puxar a sardinha para a minha lata” significa mais ou menos levar vantagem diante de outra pessoa. Foi aí que a aluna – aquela que eu achei meio desorientada – registrou: “Professor, não seria brasa no lugar de lata?”. Será? Bem, se assim o for, o exemplo fica, apenas, mal interpretado, mas é só trocar a lata pela brasa e a sua aplicabilidade será a mesma. Antes que eu me perdoasse pela substituição dos objetos, o aluno do outro lado da sala – aquele que eu também achei meio desorientado – adiantou: “Professor, o correto é puxar a brasa para a minha sardinha”. Eles aproveitaram o ensejo e soltaram os sorrisos de meia boca. Rimos muito e aprendemos mais ainda.

De tudo restou a certeza de que, se eles estavam meio desorientados, eu certamente estava desorientado e meio!

• Eugênio é escritor e funcionário da Funec 


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Há alguns meses nosso tempo andava bem escasso e era praticamente todo consumido nas tarefas ligadas ao trabalho, nos compromissos sociais, nas redes sociais, ou nas compras, entre outras. Para as demais atividades sempre faltava tempo, principalmente para dormir mais, fazer uma refeição com calma, brincar com os filhos, ler um livro, ir ao cinema, enamorar a parceira, o parceiro… E como isso nos incomodava. Chegamos a abrir campanha contra o uso excessivo da tecnologia, colocamos o movimento slow em evidência, buscando distribuir melhor o tempo em outras atividades que, também, são muito importantes. Mas, de repente, veio essa necessidade de isolamento social. Muitos tiveram seus contratos de trabalho suspensos e, outros, passaram a atuar em home office. Até para os que mantiveram a atividade profissional no módulo presencial, faltaram lojas para comprar, bares para se divertir, reuniões para frequentar, já que alguns setores da indústria e do comércio tiveram de cerrar as portas por um período. Ou seja, aquilo que tomava a maior parte do nosso tempo, simplesmente foi desativado, provisoriamente.

Fomos para casa, meio que “aquartelados”, sem saber exatamente quanto tempo ficaríamos lá. Nos primeiros dias, foi tudo muito complicado, pois os dias não passavam, a gente tinha que ficar procurando coisas para fazer. Lembro-me, perfeitamente, da angústia que eu senti na primeira semana de quarentena, por não conseguir ficar parado e me sentia meio que inútil, por conta da quantidade de coisas que costumava fazer, ao mesmo tempo. Comecei a reformar e a pintar a casa, depois a arrumar gavetas, armários, guarda-roupa, geladeira… O interessante é que, na medida em que as atividades extras foram terminando, eu não as substituí. Passei a gastar mais tempo em tarefas rotineiras, como lavar o próprio talher, arrumar a cama, falar com os filhos e netos na vídeo-chamada, a rezar com mais calma ao me deitar e ao me levantar, a comer à mesa, a ler e escrever com mais calma… E, assim, comecei a perceber que faltava tempo para viver as 24 horas de isolamento social. E como tenho ouvido isso das pessoas!

Muito estranho isso, faltar tempo para conseguir fazer aquilo que nem era prioridade há poucos meses. Passei a participar de grupos sociais, a realizar reuniões de trabalho no formato online e de encontros familiares pela internet. Passei a me exercitar em casa e, mais do que em qualquer outro período da minha vida, deixei que o computador e o celular assumissem lugar de destaque em minha rotina.

E o que tenho escutado das pessoas me permite dizer que, inexplicavelmente, estando em casa, passamos a ficar sem tempo. Nada diferente do que tínhamos antes, pois também não tínhamos tempo. O que mudou é o agente que tem impactado em nossa ocupação do tempo e do espaço.

Antes, era a correria do dia a dia, os percursos que precisávamos percorrer entre uma atividade e outra, era a cronometragem do tempo. Agora não. Temos 24 horas, em casa, para fazermos o que precisa ser feito. Aí deixamos aquela “manha”, tão comum nos fins de semana, tomar conta de todos os nossos dias: amanhã faço isso, depois do almoço faço aquilo, vou cochilar um pouco, quero me levantar mais tarde, depois respondo, vou comer uma bobagem e depois eu almoço… Passamos a administrar a utilização do nosso tempo, só que sem disciplina… Haja tempo para dar conta da nossa vontade própria.

Sinto que esta valorização de coisas às quais não dávamos importância, veio para ficar. Não sei se poderei deixar de fazer tudo isso e voltar, exatamente, ao modo de ser e de fazer as coisas de algum tempo atrás. E isto tem me preocupado, pois daqui a pouco, se Deus quiser, voltaremos a uma certa “normalidade”, o tal do “novo normal”, mas que trará com ele, em algum momento, percursos a serem vencidos entre as atividades, horários a cumprir, compras a fazer, encontros a realizar e, na outra ponta, teremos desejos relacionados a almoços mais calmos, à roda de conversa com a família, à leitura diária de um livro e às gostosas vídeos-chamadas com os netos, os amigos e familiares…

Impressionante como o mundo gira, as coisas acontecem e nos encontramos, sempre, frente a frente com as incertezas que a vida nos traz. Nossa vida sempre à mercê das nossas escolhas. A vida inteira escolhendo entre uma coisa e outra, mas, nada mais salutar que ter a oportunidade de escolher caminhos, de experimentar o novo e, até, de correr riscos. Numa permanente tentativa de fazer as escolhas corretas, sabendo que o Tempo não perdoa quem perde tempo fazendo as escolhas erradas.
Viver é, com certeza, correr riscos, tentar acertar ao máximo, para que a vida tenha mais leveza, mais suavidade, mais alegria, mais encantamento.

Depois de amanhã, dia 2 de novembro, é um daqueles dias em que essa vontade de aprender a administrar bem o tempo bate mais forte. Segunda-feira será um daqueles dias em que somos lembrados da nossa finitude, e da certeza, inevitável, de que precisamos aprender a dividir bem o tempo de que dispomos, para que possamos usufruir, integralmente, desse presente maravilhoso que recebemos: a Vida!

O tempo corre, o tempo é curto; preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver, como se esta minha vida fosse eterna!

• Eugênio é escritor e funcionário da Funec


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Terminamos a semana, ainda, com as muitas notícias sobre o dinheiro encontrado na cueca do senador da república, Chico Rodrigues. Além das muitas brincadeiras feitas com o episódio, muita gente ainda perdeu tempo de, mesmo sem abrir defesa declarada ao senador lambão, tentar explicar que o dinheiro encontrado na cueca dele não era sujo. Sinto muito, mas aquele montante de dinheiro, mesmo tendo em sua composição notas novas de duzentos reais, era e continua sendo sujo.

Antes de qualquer coisa é preciso que se diga que, face aos acontecimentos, é bem provável que o congressista em questão usasse naquele dia uma cueca tamanho super G – vulgo cuecão -, ou então que tenha o bumbum bem desfavorecido – vulgo o “sem-bunda”, o “achatado” -, para conseguir guardar cerca de quinze mil reais em sua retaguarda.

O dinheiro por si só, já é algo sujo, já que as notas passam pelas mãos de várias pessoas e vão acumulando impurezas, bactérias, ao longo de sua circulação. Ah, mas aquelas notas do cuecão eram limpas, inclusive tinham notas novíssimas, de duzentos reais? Sim, mas foram entregues ao senador por alguma mão, depois foram guardadas em algum lugar por outras mãos e, por último, foram retiradas de onde estavam, com as mãos, pelo próprio senador, e colocadas na cueca.

Mesmo imaginando que ninguém, absolutamente ninguém, tenha tocado com as mãos sujas o dinheiro que tenha sido produzido pela Casa da Moeda, o que é praticamente impossível, ao colocar o dinheiro na bunda, o senador sujou o dinheiro. Gente, bunda é uma coisa naturalmente suja, às seis horas da manhã. O senador, no dia anterior, deve ter ficado atendendo seus correligionários, bateu aquele prato de pirarucu desfiado, mais tarde comeu uma caldeirada roraimense e ainda mandou para dentro uma paçoca de banana. Deve ter ido dormir com o bucho cheio e acordou duas vezes em suas poucas horas de sono: uma para ir ao banheiro de madrugada e colocar o processamento daquela comida para fora, e outra às seis horas, com a chegada da polícia federal. Bem, foi na bunda que teve essa performance na madrugada, que ele colocou o dinheiro.

Teve quem dissesse que o senador é muito bem remunerado e que poderia ser considerado, até certo ponto, normal um parlamentar desse naipe ter dinheiro vivo, nessa quantidade, em casa. Verdade, mas o dinheiro dele foi parar na traseira, aquela que é a porta de saída do ex-pirarucu… Ou seja, dinheiro sujo!

Também cheguei a ler coisas do tipo “Qualquer dinheiro que se encontre no momento, na casa de alguém, tem de ser dinheiro sujo? Ele pode ter recebido uma dívida, principalmente dos amigos que nestes tempos hodiernos gostam muito de trabalhar com dinheiro vivo”. Verdade, mas, lembrem-se, o dinheiro foi colocado na porta dos fundos, local de saída do substrato da digestão da caldeirada… Ou seja, dinheiro sujo!

“Ora, ora, este dinheiro pode ter sido colocado ali, simplesmente porque estamos em tempo de pandemia e a maioria dos brasileiros guardou algum dinheiro em espécie para alguma eventualidade. Quem ganha menos, coloca menos, mas quem ganha mais, coloca mais”. Verdade. Mas, não podemos nos esquecer que este dinheiro do senador entrou em contato com o espaço em que está localizado o duto de saída de paçoca de banana processada… Ou seja, dinheiro sujo!

Quem sabe, talvez, este dinheiro não seja o resultado de economias juntadas há meses, advindas da rachadinha – e todo mundo sabe que rachadinha não incomoda muita gente, até porque ninguém foi preso por conta dela. Verdade, pode mesmo. O sujeito recebe um pouco de uma rachadinha aqui, outra rachadinha ali… O problema é que ele colocou o dinheiro no rachadão… Ou seja, dinheiro sujo!

Também teve quem dissesse: “Em vez de falarem sobre esse pequeno desvio, lembrem-se da corrupção do PT”. Bem, independentemente de qualquer coisa, o Senador da República, homem sério, defensor da moralidade e que em seu último discurso disse que “Vamos acabar com a corrupção nesse país”, escondeu mais de trinta mil reais no cuecão, sendo parte do valor encaixado na parte de trás. Ou seja, dinheiro sujo!

Se não é dinheiro da CORRUPÇÃO, é dinheiro da CURRUPÇÃO. Ou seja, é dinheiro sujo!

• Eugênio é escritor e funcionário da Funec