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Em um mundo onde os valores e as virtudes parecem estar em plena ebulição; em uma época na qual grande parte das pessoas parece ter se esquecido do real e verdadeiro sentido das coisas, e o real e verdadeiro sentido da própria vida, destaca-se, como nunca visto, a incapacidade de muitos em lidar, de forma comedida, prudente e mansa, com o Poder, com a Fama, e com suas próprias fraquezas.

Pode tratar-se de Poder político, econômico, social, institucional ou até mesmo em relações mais próximas, quer seja no ambiente de trabalho, ou até mesmo no convívio familiar. O fato é que, quando se alcança ou se é alçado à posições de comando ou de chefia, quando se ocupa cargos ou funções de Poder, não raramente se descobre a verdadeira face das pessoas em questão. Poucos sabem resistir à tentação do despotismo, do autoritarismo, da arrogância e da prepotência. Poucos sabem resistir à tentação ao nepotismo, ao fisiologismo, ao apadrinhamento, a autopromoção, à vaidade, sempre acompanhados, inevitavelmente, da autoindulgência, própria daqueles que embriagados pelo Poder, justificam seus atos de excesso, perdoando-os sempre, sob a justificativa de que são meras consequências do simples fato de ocuparem tais funções.

O Destino, o Divino, ou até mesmo, em alguns poucos casos, suas qualidades intelectuais, algo acima da média, concederam-lhe essas prerrogativas. Estavam fadados a exercer a chefia, o comando… Estavam predeterminados a comandar, esquecendo-se que todo Poder, sempre deve vir acompanhado de enorme responsabilidade, e que quando é legítimo e merecido, deve ser exercido com mansidão, empatia, compaixão, fidelidade de caráter e uma profunda convicção de que sempre será passageiro, efêmero, como tudo na vida.

O mesmo ocorre com a Fama, com a Beleza, com o vigor físico.

Um dia, invariavelmente, todos as perderemos. E assim ocorre, com o Poder. Sua transitoriedade nunca deve ser esquecida pelo seu detentor. Dias, meses, ou até anos podem passar, mas aquele que hoje ocupa as elevadas funções de comando e de chefia de forma despótica, que usa e abusa de sua influência e autoridade, sem comedimento, encontrar-se-á com a outra face do Poder: a Solidão, o abandono pelos verdadeiros amigos, a sujeição à vingança e a retaliação, e muitas vezes, ao próprio escárnio, por parte daqueles que foram vítimas de sua incapacidade de exercer o Poder de forma virtuosa.

Na verdade, muitas vezes se constata, que aqueles que buscam, a qualquer custo, o Poder, e o exercem de forma deturpada, não percebem que esta ânsia não se origina em suas forças ou em suas qualidades, mas sim em suas próprias fraquezas, em sua imaturidade, em seus caprichos.

Como muito bem registrado está, por vários pensadores, ao longo da história, alguns dizem que o Poder muda as pessoas, enquanto outros afirmam que, para conhecer, de fato, o caráter de alguém, basta dar-lhe Poder. Mas o Poder não muda, de fato, as pessoas, o Poder apenas mostra, de fato, quem verdadeiramente elas são…

De qualquer forma, o que sempre vimos ao longo da História humana, e o que ainda vemos hoje, na leitura cotidiana dos jornais, nos noticiários da TV, nos comentários de corredor, nos burburinhos quase inaudíveis das pessoas e nas mensagens que circulam pelos modernos meios de comunicação interpessoal, nos leva à clássica sentença, proferida pelos antigos de que o Poder é sempre perigoso. Atrai os piores e corrompe os melhores. E que o poder não legitimado pela temperança e pela altivez de caráter, sempre é dado apenas àquele que se sujeita a se rebaixar para pegá-los…

O exercício do Poder desenfreado e corrompido pela vaidade, pelo egocentrismo e pelo autoritarismo, pode ser bem exemplificado pela metáfora do balão de gás. Originariamente murcho e sem vida, vai sendo paulatinamente inflado pelos vícios, pelos abusos e pelos desmandos cometidos. A cada entrada de ar, vai adquirindo maior volume, maior grandeza, a ponto dessa grandeza, aparente, estimular, de forma desenfreada, maior entrada de ar, sem que o balão perceba que, quanto mais ar recebe, e maior volume adquire, mais próximo se encontra sua própria ruína, porém, mesmo assim, busca incansavelmente mais e mais ar. Até que em certo momento, exageradamente inflado por sua própria grandeza, esquece de seus próprios limites, e incapaz de reter tanto ar, explode subitamente, retornando ao seu estado inicial, murcho, esvaziado, desprovido de qualquer utilidade e imprestável para qualquer outra função…

Por tudo isso, se impõe àqueles que alcançam posições de Poder, que sempre submetam seus atos e suas decisões ao crivo das virtudes. Que ajam com mansidão e que reconheçam as limitações dos outros, além de nunca esquecerem a efemeridade do Poder que ora possuem. Nunca é demais reforçar a lembrança da metáfora do balão: todo aquele que, em algum momento, detém o Poder, está fadado, invariavelmente, a retornar, solitário e envelhecido, à insignificância e à imprestabilidade de um balão furado… É o ciclo natural das coisas.

“Pior do que o mau uso de Poder, é a ilusão de que esse Poder é eterno…”.

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor.