A DESCULPA É SEMPRE A MESMA

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*Eugênio Maria Gomes

Vivemos um tempo em que tudo parece diferente de “antigamente”. Não estou falando de tecnologias, de infraestruturas urbanas ou de comodidades, porque isso realmente, nos tempos hodiernos, em nada se parece com o que tínhamos e usufruíamos há alguns anos. Estou falando de valores, de relacionamentos, de posturas, da forma de enxergar a vida e de compreender o outro. Em relação a estes aspectos, muita gente está encontrando dificuldade para perceber que algumas questões não mais poderão ser tratadas ou aceitas como ocorria em outros tempos. A exemplo do bullying, uma forma preconceituosa de se referir às pessoas, que sempre disfarçam tentativas de menosprezar aqueles que não se enquadram nos padrões estereotipados impostos pela pretensa cultura dominante.

Isso é “mimimi”! Esta é uma frase muito comum que costumamos ouvir, quando alguém reclama por ter sido vítima de comentários maldosos ou de atitudes preconceituosas. Alguns falam de um suposto saudosismo. De um tempo, em que a vida não apenas corria mais devagar, mas no qual as pessoas que compõem as chamadas “minorias” aceitavam melhor as coisas e não reclamavam de nada.

De fato, não reclamavam. Piadas eram feitas, “brincando” com pessoas obesas, com alguém que tivesse o cabelo crespo, que tivesse uma orientação sexual diversa ou que professasse uma religião afrodescendente e, aparentemente, eles não ligavam e, até, costumavam rir com quem os provocava. Mas, acreditem, era só aparentemente. No fundo, eles sofriam. Calados, mas sofriam.

Ocorre que os tempos mudaram. As pessoas passaram a ter mais acesso à informação e aprenderam a se posicionar. As denominadas minorias se cansaram de ser “objeto de chacotas”, de ocuparem os piores postos de trabalho, de não terem acesso aos benefícios e direitos dos demais e de ouvirem, o tempo todo, como desculpa para as ofensas que recebem, coisas do tipo “eu não sou racista”, “eu não sou homofóbico”, “eu não sou xenófobo” e “eu não sou gordofóbico”, entre outros hipócritas argumentos.

Sim, sempre falamos e vivenciamos esses acontecimentos e, mesmo sem termos, algumas vezes, a real intenção de ofender, de fato, ofendíamos os outros sim. As vítimas das nossas ofensas é que viviam em uma situação de dominação e não tinham sequer forças para lutar contra isso. Hoje elas têm voz e estão certas ao exigirem respeito de todos nós. Sim, essas pessoas mudaram e cabe a nós mudarmos também.

Se é chato para mim, para você ou para qualquer um ficar ouvindo isso sem parar, tenha certeza de que também é muito chato para eles terem de nos lembrar disso o tempo todo. E mais: é muito doloroso para eles a convivência constante com a discriminação, com o preconceito e com a percepção de que são tradados com inferioridade.

Eu quero mesmo acreditar, que muitas vezes esses comentários maldosos não são feitos com o real intuito de ofender, mas também entendo que até nisso precisamos mudar, pois se fomos “acostumados” a falar o que queríamos com os outros, agora não podemos mais. Quando ofendermos alguém, mesmo sem a real intenção de fazê-lo, o mais correto é que peçamos desculpas e aprendamos a não fazê-lo mais. Ficar buscando desculpas, chamando de “mimimi” ou insistir que não se é preconceituoso, é alimentar o preconceito estrutural que existe em nossa sociedade.

As vezes é difícil perceber esse preconceito estrutural porque muito dele se encontra, justamente, disfarçado de inofensivas brincadeiras. É mais fácil constatar as violências físicas sofridas diariamente por negros, mulheres ou homossexuais, estampadas cotidianamente nos noticiários. Ou as dificuldades de locomoção enfrentadas por pessoas com sobrepeso, idosos ou portadores de necessidades especiais, diante de aparelhos urbanos e de transporte inapropriados para suas especificidades. O mais difícil e perceber que as aparentemente inofensivas brincadeiras que são feitas, nada mais são do que reflexos cruéis dessa infeliz característica de nossa sociedade. Menosprezar e subjugar os que não se adequam aos padrões estereotipados, impostos por uma cultura de dominação dos que são diferentes…

Muito já se evoluiu nesse aspecto, tanto em relação aos que se mantinham em silencio quando ofendidos – porquanto apropriaram-se do “ter vez” e “ter voz” -, quanto dos ofensores que, aos poucos, vão entendendo um pouco mais sobre o que é empatia, sobre o que é sentir na pele o que o outro sente. Mas a luta é árdua. E não pode parar.

Mas creio que haverá um tempo, no qual, finalmente, percebamos que a glória da criação está justamente na diversidade de suas formas, que devemos nos diferenciar apenas por nossos talentos e por nosso caráter, e que nossa aparência física, nossa etnia, nossa posição social, são apenas invólucros, uma mera embalagem, a ocultar nossa verdadeira e genuína igualdade, a de que todos fomos criados à imagem do Criador, que nos fez iguais, ainda que diversos e semelhantes, ainda que plurais!

*Eugênio Maria Gomes é escritor


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