A EFEMERIDADE DO TER

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*Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA EM 15/2/20

Em 1981, logo após o término da graduação em Engenharia, dei início à minha vida profissional em Volta Redonda. Fui trabalhar em uma empresa de recuperação de metálicos e manutenção de alto forno. Em três meses estava promovido para coordenar a unidade de Recife – polo regional -, com outras duas unidades no Nordeste. 
Diariamente, pela manhã, eu era levado por um motorista ao trabalho e, ao final do dia, de volta à minha casa. Semanalmente, era transportado para o aeroporto, por conta de visitas às filiais. Minha mala era carregada e o motorista abria a porta para mim. Cada vez que chegava a um aeroporto da cidade onde havia uma filial, um funcionário, com uma placa na mão onde se lia “doutor Eugênio” (sim, naquela época eu ainda não havia concluído o doutoramento, mas engenheiro era considerado “doutor”), me aguardava e me conduzia à empresa, ao hotel, ao restaurante. 

Minha casa em Recife era sempre muito frequentada por funcionários e “amigos” e, eu e minha esposa, tínhamos de nos desdobrar para atender aos muitos convites para almoços nos fins de semana, em casas de veraneios, nas melhores praias da região, de propriedade de diretores, de “amigos” e colegas de trabalho. 

Passados seis anos, resolvemos mudar de ares e nos mudamos para Juiz de Fora. Entre mudar de empresa e de cidade, foram ainda mais trinta dias em Recife, embalando móveis e já sem convites para um fim de semana mais interessante. Os “amigos”, repentinamente, sumiram; os colegas de trabalho já estavam com a atenção voltada para o novo gerente e lembro-me, como se fosse hoje, da dificuldade de carregar tantas malas, sozinho, de casa até o táxi e, dele, ao terminal do aeroporto de Guararapes, no momento da partida. Despedimo-nos da Dora, uma amiga de verdade e, aquele momento, talvez tenha sido, de fato, a minha primeira experiência sobre a transitoriedade do “Ter”. 

Em Juiz de Fora, depois de alguns meses em outra filial, fui convidado a compor o quadro de funcionários da Siderúrgica Mendes Júnior. Assumi a função de “Gerente de Operações Especiais”, dentro da Superintendência de Metálicos. O título do cargo parecia referir-se à polícia ou a uma agência de espionagem. Mas não, era uma área voltada ao desmanche de ferrovias, navios, plataformas, com vistas ao abastecimento de matéria prima para a produção de aço. Tínhamos vários “entrepostos” na região Sudeste, de onde fazíamos o transbordo da sucata para a matriz, em Juiz de Fora. Toda a equipe destas filiais estava subordinada à minha área. Mais uma vez, sempre alguém carregando minha mala, abrindo a porta do carro para mim e nos convidando para almoços e jantares. 

Minha casa em Juiz de Fora, localizada em uma das esquinas da Avenida Rio Branco, estava sempre cheia. Sempre gostei – e ainda gosto muito – de receber pessoas, de um bom papo, de boa música e da alegria que este tipo de encontro proporciona. Foram alguns anos de muita prosperidade e muita “amizade”, até que chegou a “crise do aço”, nos idos de 1990, e a empresa foi vendida e os seus funcionários demitidos. Tentamos a permanência na cidade por uns seis meses, até que resolvemos nos mudar para Caratinga, já no ano de 1991. Mais uma vez, o “isolamento social” aconteceu, os “amigos” sumiram, os encontros festivos desapareceram e nos despedimos de Juiz de Fora através do fraterno e sincero abraço de amigos como Sonia Bellém, Maria Célia Junqueira e Valdir Lino, daqueles que, assim como a Dora de Recife, valorizavam de fato o “Ser”. 

Não! Este não é nenhum texto lamurioso ou de registro de tristes ocorrências, mas, tão somente, a constatação de que, infelizmente, nesta má construída sociedade em que vivemos o homem ainda vale, para a maioria das pessoas, pelo o que ele tem, por sua capacidade de atender e beneficiar ao outro, a despeito do que ele é. 

Hoje, com os pés no chão, depois de ter passado por outras situações, inclusive em Caratinga, nas quais ocupei cargos e posições importantes, sei exatamente a extensão do meu valor. Por isso, consigo enxergar os colegas, consigo identificar os interesseiros e reconhecer os verdadeiros amigos. E acredite: amigos verdadeiros podem ser contados, de fato, em poucos dedos. Aprendi, também, o quanto é importante que Eu, apenas Eu, mesmo tendo quem o faça por mim, carregue sempre a minha própria mala e abra sempre, Eu mesmo, a porta do carro. 

Acredito que numa conta assim bem por alto, podemos dizer que, de cinquenta “amigos”, assim que se rompe o frágil elo baseado apenas em qualquer tipo de relação de poder, apenas uns cinco manterão os laços de amizade. É fácil entender o que acontece com os outros quarenta e cinco: como os laços de trabalho terminam, os interesses pessoais acabam e as pessoas, então, se afastam de nós e, às vezes, nós mesmos nos afastamos delas. Porém, o que eu gostaria mesmo de saber é o porquê de esses cinco permanecerem… O que os leva a se manterem amigos e fieis, independentemente do que você é capaz de fazer por eles? Bem, isso é assunto para outra crônica…

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.
*Charge do ‘Edra 


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