A SENHORINHA DA ESTRADA

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Em determinado trecho da estrada uma senhorinha acenou, pedindo carona. Estava de máscara, parecia ter uns oitenta anos. O sol escaldante, certa tranquilidade por já ter tomado as duas doses da vacina e os cuidados em relação à contaminação, foram decisivos para que eu a tirasse daquele local ermo, no meio de uma reserva florestal.

Ela entrou, se identificou, disse para onde estava indo, fez o sinal da cruz e colocou o cinto de segurança. Não era uma mulher de muita conversa e, em pouco tempo, tirou um livro da bolsa e antes que eu pudesse ler o seu título, ela o apoiou sobre as pernas e iniciou a sua leitura. Abriu-o a um terço de seu início e corria com o dedo indicador cada linha lida.

Perguntei-lhe se ela não sentia mal-estar ao ler com o carro em movimento e ela acenou com a cabeça dizendo que não. Com esse gesto ela me tirou a oportunidade de perguntar-lhe sobre a obra, sobre o seu título, já que nenhuma conversa se desenvolveu. Insisti, lhe indagando então, se não sentia sonolência, ao que ela, mais uma vez, apenas fez o sinal negativo com a cabeça.

A viagem prosseguiu e percebi que daquele mato não sairia coelho algum e nem de sua boca sairia qualquer palavra. Por falar em coelho, o visual da estrada no meio daquela mata era realmente fantástico e, por algumas vezes, tive de reduzir a velocidade, por conta de alguns moradores naturais da floresta que resolveram passear pelas redondezas. Enquanto ela se mantinha calada, fui me distraindo olhando as árvores, os animais e lendo as placas.

De repente, ela deixou escapar algumas palavras. Primeiro ela disse “Travestis”. Meu pensamento voou em busca do título do livro… Que raio de livro seria aquele, que falava de travestis e era lido por aquela senhorinha? Acho que rodamos uns mil metros, quando ela disse a segunda palavra: “demais”. E, assim, a cada oitocentos metros mais ou menos, ela pronunciava mais uma palavra. Atento, ouvi as seguintes: “semestre, recusa e verdade”.

Aí não aguentei e perguntei-lhe o quê, exatamente, ela estava dizendo. Ela pediu para esperar e, após andarmos alguns metros, ela levantou a cabeça e disse: “Travestis demais semestre. Recusa a verdade”. Perguntei-lhe, então, se não estaria faltando a contração “no”, ao que ela logo concordou, dizendo que a frase correta seria “Travestis demais no semestre. Recusa a verdade”.

Achei aquilo tudo muito estranho… Não apenas a frase em si, a sua construção, a total falta de sentido, mas, principalmente, aquilo estar escrito em um livro e ter sido verbalizado por uma senhorinha já idosa, de forma totalmente fora de contexto. Foi quando resolvi fazer a pergunta que deveria ter feito assim que ela abriu o livro: qual é o título dessa obra? Ela gentilmente o fechou e me apresentou a capa de um livro de crônicas, de autoria de Rubem Alves.

Coincidentemente tratava-se de uma obra que eu já tinha lido e, podia afirmar com certeza de que, nela, não havia nenhuma citação a travestis e muito menos sobre recusa à verdade. Indaguei-lhe sobre isso, de onde ela teria tirado tal frase e ela disse que estava aprendendo a ler e que talvez ela estivesse errada, afirmando que “quando começo a ler as primeiras letras a minha cabeça já pensa logo em uma palavra”.

Insisti, se teria sido realmente na obra de Rubens Alves que ela havia lido aquilo e ela disse que não. “Eu li nas placas que vi pelo caminho. A todo momento passa a mesma placa e aí eu consegui ler tudo. Olha lá, mais uma placa daquela…”.

O carro foi se aproximando e, então, pude ler a placa da qual ela tirou a frase “Travestis demais no semestre. Recusa a verdade”. Tratava-se da placa mais comum em todo o trecho da reserva que passamos: Travessia de animais silvestres. Reduza a velocidade!

Assim, seguimos…

*Eugênio Maria Gomes é professor e escritor.


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