A VERDADE SAINDO DO POÇO

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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA,em 21/12/19

Localizado em um dos edifícios do antigo castelo dos Duques de Bourbon, primeiro monumento renascentista francês, na Cidade de Moulins, encontra-se o museu Anne de Beaujeu. Neste espaço maravilhoso, há um quadro muito especial chamado “A Verdade saindo do poço”. De fato, a denominação correta da obra é “A Verdade saindodo poço armada do seu chicote para castigar a humanidade”.

A obra fascinante, pintada em 1896 pelo artista francês Jean-Léon Gérôme, foi aparentemente inspirada em um conto judaico, que de tão antigo, apresenta versões um pouco diferentes, embora em todas elas, a essência da mensagem que tenta transmitir seja a mesma.

Diz esse antigo conto que certo dia a Verdade e a Mentira se conheceram. A Mentira diz à Verdade: 
 “está muito bonito hoje”. A Verdade olha à volta, olha o céu, e constata que o dia está realmente bonito. A Verdade vê que nisso a Mentira não mentiu. Seguiram juntas até chegarem a um poço onde a Mentira então diz à Verdade: 
 “A água está muito agradável, vamos tomar banho juntas?”. A Verdade, mais uma vez desconfiada, põe a pontinha do pé na água, e percebe que realmente a água está agradável e refrescante. Decide tirar suas roupas, entrar no poço e nadar. De repente, a Mentira sai da água, se veste com as roupas da Verdade e foge. A Verdade fica furiosa, sai do poço procurando por todos os lados encontrar a Mentira e recuperar suas roupas. Mas a essa altura, a Mentira já andava longe. O mundo inteiro vendo então a Verdade nua vira seu olhar com desprezo e raiva. A pobre Verdade, humilhada e triste, volta para o poço e desaparece para sempre, escondendo ali toda a sua vergonha. 

Desde então, a Mentira viaja pelo mundo vestida com as roupas da Verdade, satisfazendo assim todos aqueles que não querem em nenhuma hipótese aceitar a Verdade, muito menos, nua.

A batalha entre a Verdade e a Mentira é tão antiga quanto a própria história humana. Parece que algumas vezes, preferimos a Mentira travestida de Verdade à Verdade com sua aparente crueldade ou sua aparente frieza.

É que a Mentira, às vezes, nos parece doce, suave, agradável, afável. Ela atenua a dureza dos fatos verdadeiros, distorce a realidade dos sentimentos vividos, ou dos fatos históricos ocorridos. A Mentira, quase sempre, nos parece melhor que a Verdade, pois ela permite escaparmos daquilo que realmente somos, sentimos e queremos. 

Nas nossas relações sociais mais próximas mentimos cotidianamente. Alguns mentem diariamente, incontáveis vezes. Contar mentiras inofensivas, as denominadas “mentiras sociais”, todo mundo conta, em um momento ou outro. Seja para não magoar alguém, seja para evitar uma situação social desagradável ou até para não se expor. 

Mas quando mentimos compulsivamente, sem uma avaliação moral das consequências, o ato de contar histórias falsas, relatos falsos, deturpar os fatos, manipulando a boa fé alheia, transforma-se em uma patologia, chamada Mitomania ou doença da mentira.

As conseqüências desse desvio de caráter podem ser catastróficas. Os meios de comunicação modernos, as mídias sociais principalmente, são campos férteis para a propagação exponencial da Mentira. No Facebook, no Twitter, no Instagram, nos grupos de whatsapp proliferam as mentiras. Mentimos sobre nossa felicidade, sobre nossa riqueza, sobre nosso cotidiano, sobre nosso trabalho, nossos afazeres, sobre nossos sentimentos, nosso estado de espírito; mentimos, enfim, o tempo inteiro. Pouquíssimo do que se encontra nesses veículos de comunicação interpessoal é realmente verdade…

Para além das relações sociais mais intimistas, já no âmbito das relações comunitárias, a mentira desagrega e desestabiliza as relações. Associada à fofoca, outro meio muito eficaz de propagar as inverdades, a mentira provoca desunião, a discórdia e propicia a perpetuação de relações falsas e superficiais, impregnadas de “meias verdades”.

Já no âmbito das relações políticas de amplitude nacional, a Mentira atualmente encontra-se em um verdadeiro pedestal. Utilizando-se como nunca das vestes da Verdade, a Mentira deturpa fatos históricos sob o pseudônimo do Revisionismo. Mente-se sobre a existência da ditadura e da tortura. Mente-se sobre a existência do racismo, mente-se sobre o passado, mente-se sobre o presente e mente-se, principalmente, sobre o futuro, pois se apresenta um futuro mentiroso, fraudado, deturpado. 

Não há pequenas mentiras, porque não há pequenas verdades. Ou somos fiéis à nossa essência, ao nosso ser verdadeiro, ou somos mentiras ambulantes. Ou enfrentamos a verdade que se mostra diante de nós, no espelho que nos aguarda todas as manhãs, expondo sem retoques a nossa alma verdadeira, quando ninguém nos vê além de nós mesmos, ou estaremos fadados a viver uma vida miserável, atolados para sempre em um lamaçal de mentiras.

A verdade, mesmo nua e crua, ou até mesmo cruel ou dolorosa, sempre é melhor, porque apenas a verdade é capaz de ser o elemento transformador de nossas vidas. 

Neste período de festas de final de ano, temos a oportunidade de rever nossa existência e assim, se for o caso, mudar nosso comportamento. No dia 25 de dezembro comemoramos o nascimento daquele que veio ao mundo para nos anunciar a Verdade. A Verdade que nos liberta. Mais à frente, um ano novo desperta com ele mais uma oportunidade de rejeitar a Mentira vestida de Verdade, e abraçar a Verdade, em toda a sua nudez, e assim, apenas assim, reescrevermos a nossa história, uma história de verdade!

Somos frutos de nossas escolhas. Então, que façamos a escolha certa. Não esqueçamos, porém, que um dia, inevitavelmente, a Verdade sairá do poço, nua e com seu chicote pronto a castigar a humanidade!

“Num mundo de verdades e mentiras, todos temos medo da mentira, mas apenas os tolos têm medo da verdade”.

Feliz Natal e próspero Ano Novo. 

*Eugênio Maria Gomes é funcionário da Funec e escritor. 


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