ADEUS BARRIGA?

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Todo Mundo tem algo em seu corpo que não o agrada muito. Não estou falando de nada vaidoso demais, apenas de algum detalhe que nos incomoda e que, em algum momento, a gente acaba dando um jeito de consertá-lo ou, pelo menos, de disfarçá-lo. Alguns não gostam do nariz, outros não gostam da orelha, do cabelo ou da boca. No meu caso, nenhum disfarce deu jeito, nem mesmo uma camisa preta ou um terno escuro: a barriga. Desde pequeno – período em que eu consegui receber o apelido de “desnutrido” na escola, e nem entendia isso como bullying, mas apenas como uma constatação da minha magreza -, mesmo magro, a barriga estava ali, como se fosse um grande depósito de lombrigas…

E assim foi a vida toda, em todos os momentos da minha vida, estando magro ou gordo, a barriga desconhecia qualquer parâmetro harmônico entre ela e o todo. Ainda hoje é assim e as ações para exterminá-la não param. Abdominais? Aos montes. Hoje faço, diariamente, entre 150 e 200 flexões. Faço-o de teimosia, porque tanto faz fazer ou não, ela permanece imutável, protuberante, como a me dizer “Não perca seu tempo, daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Dieta? Só se for para morrer de fome. Na verdade, quando corto a massa, o doce, a sobremesa, o “sanduba” com bastante molho, o sorvete, ela até se acomoda um pouco, mas nada de sumir.

O maior problema com esta minha – já de casa -, barriga, é que quando eu consigo, enfim, depois de muito abdominal e muita dieta, fazer com que ela dê aquela disfarçada boa, as pernas ficam mais finas, o rosto fica “acaveirado” e a bunda que já é pequena, desaparece de vez… Certa vez minha mulher me deu uma “coisa” de presente, como se fosse um colete, de borracha elástica, daqueles que entra apertado e quase não te deixa respirar. A ideia do “troço” é te fazer suar, apertar suas banhas o bastante e te fazer se sentir um pouco mais fino. Depois de muito esforço, consegui enfiar aquilo no corpo, coloquei uma camisa por cima e sai, animado, para uma volta na rua. Mal saí de casa encontrei uma amiga, ganhei de seus braços aquele abraço e, de sua boca, o seguinte: “Rapaz, como você engordou!”. Além de não disfarçar nada, só quem já usou uma vez sabe a dificuldade que é tirar aquilo do corpo suado, principalmente para os que, como eu, tem essa quantidade toda de pelos…

Já testei algumas receitas e simpatias. Passei a comer uma maça pela manhã e engordei alguns quilos, pois nunca vi nada para me dar mais fome que a tal da maçã. Tomar limão com água, em jejum? Ah, fiz muito e o estômago quase foi para o brejo. Aliás, uma vez me mandaram partir um limão ao meio e colocar uma parte em cada olho… Não fiz, mas certamente era para arder bem os olhos para que eles não enxergassem a comida….

No fim do ano passado, agradeci a Deus o ano que tivemos e pedi um ano novo com muitas viagens e menos peso. Eu certamente já tinha bebido além da conta quando falei com Ele, pois recebi justamente o contrário, ficando preso em casa este tempo todo e aumentando significantemente o peso, perfeitamente justificável pela vida de panda que levei nesses últimos meses.

Recentemente achei que tudo estaria resolvido, pois ao voltar de uma viagem à casa da minha filha, em Lagoa Santa, encontrei em um ponto de apoio ao viajante algo que me encheu os olhos: um pote branco, com o nome “Adeus barriga”. Ao ler as inscrições verifiquei que era feito a partir de ervas naturais. Entre os ingredientes, cana de açúcar, berinjela, folha de inhame, maracujá, abóbora, laranja, feijão, beterraba etc. Até aí, tudo bem. Passei, então, a ler as indicações que estavam em dois pequenos quadros. No primeiro: “Cura varizes, diminui a ansiedade, melhora o diabete, regula a pressão, solta o intestino, emagrece e combate a TPM”. Achei desnecessário sobre a TPM, mas me animei a ler o segundo quadro, onde constava: cura espinhela caída, melhora a sorte, reata amizades, traz a mulher de volta e enxuga a barriga. 100 cápsulas, por apenas R$10,00. Como efeito colateral, aumento na produção de gases.

Não comprei. Além de barrigudo só faltava passar a ser peidorreiro.

· Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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