APENAS UMA CASA NA RUA

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Quando alguém mora em uma cidade diferente daquela onde moram seus pais, torna-se comum que ela dê um telefonema e diga coisas do tipo “Mãe, coloca água no feijão que eu estou chegando”. Ou, então, se mora na mesma cidade, porém em casa distinta, dá aquela passadinha por lá para tomar um café e saber como é que está a mamãe, o papai, enfim, se todos estão bem. Não importa de onde parta o filho, pois ao chegar, é sempre recebido como se há muito tempo não tivesse estado ali. Uma macarronada, um frango assado, um bolo e, às vezes, um pudim de leite condensado ou um doce de figo com queijo fresco. 

E quando se recebe um telefonema, dizendo? “Fiz uma broa deliciosa, passa aqui para tomar café comigo. Estou com saudades”. Um telefonema deste não tem preço e o seu significado é muito maior, tem muito mais valor que qualquer sabor que a broa e o bolo tenham. 

O interessante, é que é lá, na casa dos pais, que a gente consegue encontrar os irmãos, ver os sobrinhos, rever uma tia que não via há muito tempo. Ela reencontra um vizinho, fica sabendo de algum acontecimento da rua, recebe um convite para um casamento, para uma missa de aniversário, participa de coisas que normalmente não integram sua rotina diária. É que lá, é a casa da mãe, do pai e, de alguma forma, é a casa mais próxima de sua essência. 

Para o que mora em outra cidade, a hora da partida – mesmo com o coração apertado e a saudade doida querendo se transformar em choro -, é sempre um momento de festa, com a turma toda na varanda, na janela, ou na porta da rua, acenando e desejando boa viagem. Toda e qualquer vergonha se dissipa, ao ver as pessoas gritando “Vai com Deus”, às vezes cantando, mas, sempre, carregadas de bons sentimentos, de bons desejos em relação ao viajante e à vida. 

Para aquele que mora na mesma cidade, partir é como se estivesse saindo para uma viagem rápida, sabendo que no outro dia estará de volta, encontrará o mesmo sorriso, dirá “Bênção pai, bênção mãe” e receberá, com muita fé, energia e verdade um gostoso “Deus o abençoe”.

Infelizmente chega o dia em que isso, simplesmente, deixa de existir. Por mais que tenham durado todas essas viagens, as visitas, os abraços, as bênçãos, os cafés e a mesa cheia, é como se tudo tivesse passado rápido demais. De repente a pessoa não tem mais um número para ligar e uma voz da mamãe ou do papai do outro lado da linha para ouvir. Como em um passe de mágica, o seu telefone não toca mais para ser informado de uma guloseima qualquer ou, simplesmente, para lhe dizer que está com saudades e saber se está bem. 

Em um dia qualquer a pessoa passa na rua e é como se não tivesse mais nada a fazer ali. A casa, ou está vazia, ou tem outros moradores. Lá dentro não tem mais aquela broa, aquele queijo fresco, o doce delicioso, o café passado na hora. Lá dentro, não tem mais aquele abraço gostoso, o aconchego esperado, aquele cheiro de mãe… Lá dentro, não tem mais o “Deus o abençoe”, não tem mais o adeus na janela. Por mais que a pessoa queira, depois de a casa ficar vazia, seu mundo nunca mais será o mesmo. Ela encontrará cada vez menos os parentes, ouvirá menos histórias, jamais saboreará novamente a comida que a acompanhou vida afora, jamais fitará os olhos que a viram nascer, crescer e caminhar.

Se você tem um número para ligar, ligue. Se tem uma casa para visitar, visite-a. Porque depois que as janelas se fecharem, por mais que te tragam lembranças, a casa será, apenas, mais uma casa na rua. 

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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