CANSA, MAS É PRECISO PROSSEGUIR

127625104_3847293501949579_6607514422532494709_o-1200x754.jpg

Mais uma vez quero tratar de um tema sobre o qual muitos não gostam de conversar, preferindo “empurrar o assunto para debaixo do tapete”. Porém, a minha cultura, a minha formação, o meu aprendizado familiar e as minhas crenças não permitem que eu me omita. Sei que isso tem um preço, mas, infelizmente, pagarei se for preciso. Já me chamaram de “esquerdista” – como se o fato de ser de esquerda fosse algum ruim, e de “apoiador de comunista”. Bem, se o fato de acreditar na fraternidade; na igualdade; na liberdade de expressão com responsabilidade; na diversidade e na pluralidade; na importância da preservação ambiental e na possibilidade de uma convivência harmoniosa do homem com os seus pares, independentemente do gênero, credo e raça; se o fato de acreditar na educação como ferramenta transformadora de uma realidade e desejar que a saúde e o bem-estar sejam oferecidos a todos, indistintamente, significar ser o que pensam os extremistas de direita, então serei de fato qualquer coisa que queiram me denominar. E, hoje, mais uma vez, eu quero falar de racismo. A cada vez que acontece um ato de racismo no país, daqueles que são óbvios demais e que não dá para ficar fazendo de conta de que esse pérfido sentimento não existe por aqui, também ficam evidentes as desculpas e as justificativas que são apresentadas pelas pessoas. “Tenho sangue negro nas veias”, é a mais comumente utilizada por alguns brancos, como se o fato de ter resquício de sangue afrodescendente no genótipo fosse suficiente para retirar o seu nome da lista dos racistas. Não, não é, até porque, negros racistas também os encontramos aos montes. Aliás, entre os negros, o que existe de gente que, para fugir da responsabilidade de lutar por um resgate social de seus iguais – ou por vergonha de sua origem -, se declara “moreno”, não está no gibi. Você, certamente, tem um amigo ou uma amiga assim, da pele “moreninha”, que não admite a sua negritude. Triste de ver! Essa turma não entendeu que a terminologia “negro” engloba todos os pretos e os pardos do país. Ou seja, a maioria de nós é muito mais que “moreninho”. Esta semana presenciamos quase que uma reedição do caso George Floyd, aqui no Brasil, quando morreu asfixiado, depois de ser duramente agredido, o negro João Alberto, em um estacionamento de uma grande rede de supermercados, em Porto Alegre. Impressionante como gostamos de copiar coisas dos americanos: a comida gordurosa e calórica, o halloween, o black Friday, as expressões inglesas no meio das frases – coisas do tipo “oh my god” e “yes” -, entre outras. Mas, precisávamos importar as loucuras do Trump e o descaramento e a violência do racismo americano? Recentemente, ao comentar o ocorrido com João Alberto, nosso vice-presidente afirmou, categoricamente, que aqui nós não temos racismo, citando inclusive a sua experiência nos Estados Unidos, onde, para ele “lá é que existe o racismo. As pessoas de cor são separadas das pessoas brancas”. Não bastasse sua fala ser impregnada de eufemismo racista – como assim, pessoas de cor? -, parece que nosso mandatário não tem a menor ideia da diferença entre segregação racial e racismo. Ah, João Alberto foi quem começou a confusão, inclusive agredindo pessoas. Pode ser verdade. Porém, haveria necessidade de ele ter sido espancado daquela forma? Se naquela mesma situação a vítima fosse branca, loira, de olhos azuis, o gran finale teria sido o mesmo? Ah, mas o rapaz não era lá essas coisas, com passagem pela polícia… Sim, e daí? Por isso torna-se necessário espancar uma pessoa até à morte? Então a maneira de livrar a sociedade daquilo que ela não gosta, ou que não se coaduna com o seu “jeito de pensar e de viver”, é matando? Ora, cada um de nós não gosta de alguma coisa. Se formos olhar o gosto de cada um, certamente teríamos um país praticamente desabitado, porque além dos que têm “passagem pela polícia”, dos que brigam em supermercados e dos que agridem as pessoas, temos as prostitutas, os mendigos, os corruptos, os mais feios, os pretos, os branquelos, os ladrões, os estupradores, os homossexuais, os políticos, os professores ruins, os comunistas, os maridos infiéis, as meninas que provocam os homens, os ladrões de galinha, os hipócritas, os racistas, os supremacistas e por aí vai. Se fôssemos olhar o gosto individual de cada cidadão, é bem provável que nós mesmos seríamos mortos. As reações ao crime ocorrido foram as mais diversas, inclusive ocorrendo invasões e depredações de algumas lojas da rede de supermercados, e isso não podemos aprovar. De fato, violência só gera violência. Entendo que os negros estejam cansados de tanta conversa fiada e pouco resultado prático, mas ainda assim, nada justifica a violência. Sem contar que a reação violenta não ameniza, em nada, a violência da morte de João Alberto. Por que a nossa dificuldade em aceitar, neste caso, que independentemente de quem era João Alberto, ele não poderia ter sofrido aquela violência? Por que a nossa insistência em negar que o racismo existe por aqui? Não, o que aconteceu com João Alberto não foi uma ocorrência isolada, mas apenas mais um ato desse triste espetáculo que é vivenciado pelo país, há séculos, tendo como protagonistas os negros. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. A maioria dos pobres é negra e os negros superlotam os presídios país afora. Há quem diga que essa estatística se justifica pelo fato de a maioria da nossa população ser negra, mas não conseguem explicar por que então eles não são a maioria nas melhores escolas, no congresso, nos clubes de serviço, nas empresas, nas instituições em geral. Se conseguirmos explicar isso, sem constatar que ao longo dos séculos eles vêm sendo preteridos, subjugados e menosprezados, talvez eu também faça coro para dizer, com orgulho, que não somos racistas. Às vezes olho para o meu filho e para o meu neto, negros, e me dá aquela vontade de ir embora, de levá-los para um local bem longe, em outro continente, onde pudessem ter uma vida mais feliz, sem olhadas de “rabo de olho”, sem desconfianças, sem menosprezo. Onde possam ser informados e conhecer, orgulhosamente, seu passado glorioso, seus deuses e sua mitologia, seus costumes e sua cultura sofisticada. Onde não sejam lembrados a todo instante que são descendentes de escravos, e compreender que são descendentes de seres humanos que foram escravizados por outros seres humanos. Onde possam ser pessoas boas ou más em função de seu caráter, e não em função da cor de sua pele…É que, às vezes, cansa. Mas, prosseguir é preciso. Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *