DESORIENTADO E MEIO

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A ideia foi aproveitar o tempo livre, entre uma aula e outra, para um bate papo mais descontraído com os alunos, sem, contudo, perder o foco no conteúdo. Decidi falar sobre algumas questões práticas a respeito do Marketing e de como a Comunicação é fundamental em todo o processo. Como forma de motivá-los, lhes pedi que me falassem um ditado popular para que eu, a partir dele, lhes mostrasse como o comunicar-se com o outro pode ocorrer desde as formas mais simples às mais elaboradas.

Uma aluna que estava sentada mais ao fundo da sala levantou a mão e disse-me o seguinte: “Professor, que tal o ditado popular água mole em pedra dura, tanto bate até que fura?”. Por um momento achei uma boa ideia, já que qualquer um entende, exatamente, o que o tal ditado quer dizer nas entrelinhas. Mas, abortei a sugestão imediatamente, pois vi pleonasmos em excesso na frase… Água mole…. Pedra dura…

Sem querer entrar nesse tipo de discussão, envolvendo a nossa gloriosa – e às vezes complicada -, Língua Portuguesa, fiquei aliviado quando outra voz soou no outro lado da sala: “Professor, quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Confesso que, por pouco, não deixei escapar um leve sorriso, pois a citação do aluno fazia parecer que eu havia solicitado a eles, justamente, o uso da tal figura de linguagem. Agradeci aos desorientados alunos, me dirigi ao quadro e escrevi: “Vou puxar a sardinha para a minha lata”.

Assim que me voltei para a turma, percebi aquele silêncio profundo, meio esquisito para uma sala de aula nos dias de hoje. Percebi, também, um leve sorriso maroto, em praticamente todos eles. Compreendi, então, que eles não conheciam o ditado e dei início à sua explicação. Puxar a sardinha para a minha lata significa que eu vou me favorecer mais do que ao outro… Aquelas caras, com os olhos arregalados, continuaram a ostentar aqueles sorrisos de canto de boca.

Insisti: olha só pessoal, imaginem dois portugueses, lá nos arredores do Porto, com suas latas vazias esperando a separação das sardinhas. (Achei melhor pensar em latas maiores, utilizadas nas pescarias, porque percebi que não seria nada fácil explicar se os recipientes fossem as famosas “Latas de sardinha”, já que nelas o alimento entra processado). E continuei: aí, eu pego as sardinhas, coloco três na minha lata e duas na sua, e mais uma vez repito a operação, por sucessivas vezes. É claro que, ao final, eu terei muito mais sardinhas na minha lata do que você na sua. Essa ocorrência pode ser entendida como um “favorecimento” a mim. É claro que a sardinha é só um exemplo, pois poderíamos falar de algo que estivéssemos oferecendo ao cliente e, no momento da abordagem, eu enfatizaria mais o meu produto ou serviço.

O certo é que, em Comunicação, “puxar a sardinha para a minha lata” significa mais ou menos levar vantagem diante de outra pessoa. Foi aí que a aluna – aquela que eu achei meio desorientada – registrou: “Professor, não seria brasa no lugar de lata?”. Será? Bem, se assim o for, o exemplo fica, apenas, mal interpretado, mas é só trocar a lata pela brasa e a sua aplicabilidade será a mesma. Antes que eu me perdoasse pela substituição dos objetos, o aluno do outro lado da sala – aquele que eu também achei meio desorientado – adiantou: “Professor, o correto é puxar a brasa para a minha sardinha”. Eles aproveitaram o ensejo e soltaram os sorrisos de meia boca. Rimos muito e aprendemos mais ainda.

De tudo restou a certeza de que, se eles estavam meio desorientados, eu certamente estava desorientado e meio!

• Eugênio é escritor e funcionário da Funec 


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