HOJE EU SÓ QUERO FALAR DE FLORES

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*Eugênio Maria Gomes

Por ora, chega de notícias ruins. Hoje, eu quero falar de coisas boas…

Não quero falar nada sobre a Monique Medeiros, a mãe do Henry Borel, o garoto de quatro anos, assassinado recentemente. Quero falar da Maria dos Anjos, uma linda e sofrida senhorinha, residente no interior de Minas Gerais, que criou dez filhos, trabalhando na lavoura e vendendo hortaliças na feira da pequena cidade. Alguns filhos se casaram e foram para São Paulo, outros, ficaram por ali mesmo e, na medida em que iam tendo filhos, iam deixando com a vovó para serem criados. Criou outros dez, sem contar os que passaram por lá, como “filhos de criação”, e outros que acolheu como se fossem seus. Amou a todos, entregou-se a cada um, foi o que costumam ser as mães, durante suas passagens aqui na terra: anjos sem asas, amando e protegendo as suas criaturinhas.

Não quero falar de uma professora lá de Cuiabá, demitida depois de agredir duramente um aluno do ensino básico, com apenas seis anos de idade. Quero falar de outra professora, a Maria das Dores, residente no sertão pernambucano, que excluída de qualquer tecnologia, e proibida de usar a sala de aula oficial – uma tapera, coberta com folhas de coco e paredes de pau a pique -, por conta da pandemia, diariamente sai de sua casa, anda quilômetros a pé, em estrada de chão batido, para entregar e recolher, de porta em porta, os ensinamentos e as tarefas aos alunos. Em cada parada, conselhos, palavras motivadoras e de esperança.

Não quero falar mal de Manaus, a capital da Amazônia, encrustada na maior floresta do planeta e que possui o menor percentual de arborização entre as cidades brasileiras com mais de um milhão de habitantes. Quero falar de Goiânia, a capital verde do Brasil, que possui cerca de noventa e cinco metros quadrados de área verde por habitante, atingindo, proporcionalmente, o segundo lugar no planeta, perdendo apenas para Edmonton, no Canadá. Uma cidade que, independentemente de quem a administra, desenvolveu mecanismos de desenvolvimento urbano com responsabilidade ambiental.

Não quero falar dos nossos rios poluídos, dos nossos córregos que mais se parecem com esgotos a céu aberto. Poderia até falar do Sena ou do Tâmisa, exemplos de rios que já foram muito poluídos e hoje são chancelados como rios limpos. Mas, quero falar do rio Sucuri, localizado nas proximidades da cidade de Bonito, em Mato Grosso do Sul, na Serra da Bodoquena. Um rio de águas límpidas, com fauna e flora aquáticas de tirar o fôlego, até mesmo através de vídeos e fotos. Um daqueles rios brasileiros que o homem, ainda, não conseguiu estragar.

Não, eu não quero falar de tristeza. Já a temos demais em nosso cotidiano, muito mais acentuada nesses tempos de pandemia. Eu quero falar de alegria. Do neto que aprendeu a declamar uma poesia, da neta que entrou na pré-adolescência, de uma sobrinha-neta que nasceu e de outra que está a caminho. Quero falar de parentes e amigos que já tomaram a primeira dose da vacina e da esperança que se fortalece com a proximidade da segunda.

Quero falar de cooperativas que doam parte de seus lucros para o combate à pandemia; de restaurantes que, mesmo em tempos de crise, doam refeições aos mais carentes; da padaria que colocou um cesto de pão na porta com a inscrição: “se tiver dinheiro, deixe na caixa ao lado. Se não, leve o pão que você precisar”; quero falar dos internautas que fizeram uma gorda vaquinha virtual e compraram colchões e cestas básicas para famílias em situação de risco social, no Acre; quero falar de pessoas que, anonimamente, reunidos em um grupo denominado “Anônimos do Bem”, têm ajudado muita gente, buscando suprir uma parte das suas mais diversas necessidades; quero falar de um dono de restaurante, na Geórgia (EUA), que ao sofrer uma tentativa de roubo ofereceu emprego ao infrator, recuperando-o.

Não quero falar da violência policial americana, que ceifa vidas cotidianamente, de racismo, de porte de armas, de agressividade ou de comportamentos e de discursos raivosos, que destilam ódio a cada palavra que é dita. Quero falar que é possível haver uma polícia eficiente, que sequer utilize armas letais, como a polícia inglesa; que é possível vivermos em uma sociedade harmônica, onde as diferenças sejam respeitadas como na Nova Zelândia; quero falar que é possível através do diálogo, do respeito recíproco, da firmeza de princípios desde que associada a elegância do discurso, termos um ambiente político que não nos cause tanto constrangimento, tanta vergonha, nos transformando em um vexame mundial.

Porém, mesmo que pareça difícil, no momento, e apesar de tudo que vemos acontecer a cada dia, ainda há muitas coisas boas acontecendo, muita gente boa atuando como catalizadores das transformações que queremos e merecemos ver e, que, por vezes, podemos mesclar tudo isso com as inúmeras notícias ruins que nos chegam todos os dias.

De vez em quando, dá para não falar apenas dos espinhos, mas também falar das flores.

*Eugênio Maria Gomes é escritor


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