Não compareça Mané

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No último fim de semana do mês, a festa rolava solta. A segunda quinzena começava com a turma trocando ideias nos intervalos para café ou nas rodas de conversa que se formavam na entrada e na saída da fábrica. A cada encontro, uma temática diferente, por isso os encontros eram tão esperados. Naquele mês, não foi diferente, com as pessoas chegando fantasiadas, mas se identificando na portaria. Terminado o tempo determinado para o fechamento das portas, mais uma vez o Manoel não apareceu.

Como toda festa que se preze, esta também tinha aquela famosa formação de grupos, com as pessoas se enturmando de acordo com os que as aproximavam. No entanto, algo era comum em todos os grupos: os comentários sobre a ausência do Manoel. As pessoas não dançavam, mas gritavam por conta da música alta, tratando do tema que mais lhes interessavam, qual seja, a ausência do Manoel. “como ele é esquisito, nunca vem na nossa festa”; “acho que ele não deve ter roupa para sair”; “ele é desengonçado demais”, eram alguns dos muitos comentários que tomavam a noite daquela turma.

Certa vez resolveram fazer um piquenique, no lugar da festa. Assim, prepararam muitas guloseimas, muita cerva gelada, e até uma “pinguinha da boa” era possível provar. Marcaram o ponto de encontro na subida da serra e, aos poucos, todos estavam lá, menos o Manoel. A subida, em grupos, era intercalada pelas respirações aceleradas e pelos comentários sobre o Manoel. “o Manoel é casado? Se for, é com mulher muito brava”; “que nada, deve estar lavando roupa”; “ele devia arrumar aqueles dentes”, eram apenas alguns dos comentários que consumiram toda a caminhada até o topo.

O período em que ficaram lá, cerca de duas horas, as brincadeiras, a música ao violão, eram sempre intercaladas com comentários sobre o Manoel, sobre sua ausência, sobre sua vida pessoal, sobre sua família ou sobre o seu trabalho. A descida, não foi diferente, com Manoel continuando a ser o tema principal das conversas, ladeira abaixo.

Certa vez combinaram uma viagem, para uma cidade próxima, onde passariam o dia em um pesque-pague. Correram a lista e, como sempre, os quarenta funcionários a assinaram, inclusive o Manoel. Nas conversas a “boca pequena”, todos falavam a mesma coisa, que o valor deveria ser dividido por trinta e nove, porque o Manoel, certamente, assim como fez das outras vezes, não iria participar, que apenas colocava seu nome por educação.

Marcaram de sair no domingo bem cedo, por volta de sete horas, para que pudessem estar lá, pescando, por volta de nove horas. Pescariam até ao meio-dia, almoçariam e chegariam cedo em casa, a tempo de descansarem para mais uma semana de trabalho. Na medida em que foram chegando, as pessoas iam ocupando os lugares e, de vez em quando, ouvia-se algo como “o Manoel vai comigo”, como a dizer “vou usar duas poltronas, porque o Manoel não vem mesmo”.

Os trinta e nove amigos já estavam devidamente sentados, fazendo o que mais gostavam de fazer, ou seja, ajudando a esquentar a orelha de Manoel. Foi quando alguém gritou: “Olha lá, o Manoel está vindo”.

Manoel chegou, pediu desculpa pelo atraso e tomou o seu lugar. A viagem transcorreu tranquila, com um silêncio que, em nada, combinava com uma aglomeração de quarenta jovens, dentro de um ônibus. A pescaria foi boa, o almoço também, e o retorno foi aproveitado para o cochilo dos cansados viajantes.

No mês seguinte, ao programarem a atividade do mês – provavelmente mais uma festa temática -, os organizadores esperaram a saída de Manoel para o almoço e circularam a lista. Não podiam arriscar, pois o Manoel poderia aparecer de novo e a turma, mais uma vez, ficaria sem assunto em seus encontros.

Enquanto isso, Manoel seguia seu caminho, convicto no entendimento de que se todos se ocupassem mais de suas próprias vidas e apenas dos impactos positivos que elas pudessem ter sobre a vida dos outros, o mundo seria muito melhor e os medíocres ficariam sem voz.

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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