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Em determinado trecho da estrada uma senhorinha acenou, pedindo carona. Estava de máscara, parecia ter uns oitenta anos. O sol escaldante, certa tranquilidade por já ter tomado as duas doses da vacina e os cuidados em relação à contaminação, foram decisivos para que eu a tirasse daquele local ermo, no meio de uma reserva florestal.

Ela entrou, se identificou, disse para onde estava indo, fez o sinal da cruz e colocou o cinto de segurança. Não era uma mulher de muita conversa e, em pouco tempo, tirou um livro da bolsa e antes que eu pudesse ler o seu título, ela o apoiou sobre as pernas e iniciou a sua leitura. Abriu-o a um terço de seu início e corria com o dedo indicador cada linha lida.

Perguntei-lhe se ela não sentia mal-estar ao ler com o carro em movimento e ela acenou com a cabeça dizendo que não. Com esse gesto ela me tirou a oportunidade de perguntar-lhe sobre a obra, sobre o seu título, já que nenhuma conversa se desenvolveu. Insisti, lhe indagando então, se não sentia sonolência, ao que ela, mais uma vez, apenas fez o sinal negativo com a cabeça.

A viagem prosseguiu e percebi que daquele mato não sairia coelho algum e nem de sua boca sairia qualquer palavra. Por falar em coelho, o visual da estrada no meio daquela mata era realmente fantástico e, por algumas vezes, tive de reduzir a velocidade, por conta de alguns moradores naturais da floresta que resolveram passear pelas redondezas. Enquanto ela se mantinha calada, fui me distraindo olhando as árvores, os animais e lendo as placas.

De repente, ela deixou escapar algumas palavras. Primeiro ela disse “Travestis”. Meu pensamento voou em busca do título do livro… Que raio de livro seria aquele, que falava de travestis e era lido por aquela senhorinha? Acho que rodamos uns mil metros, quando ela disse a segunda palavra: “demais”. E, assim, a cada oitocentos metros mais ou menos, ela pronunciava mais uma palavra. Atento, ouvi as seguintes: “semestre, recusa e verdade”.

Aí não aguentei e perguntei-lhe o quê, exatamente, ela estava dizendo. Ela pediu para esperar e, após andarmos alguns metros, ela levantou a cabeça e disse: “Travestis demais semestre. Recusa a verdade”. Perguntei-lhe, então, se não estaria faltando a contração “no”, ao que ela logo concordou, dizendo que a frase correta seria “Travestis demais no semestre. Recusa a verdade”.

Achei aquilo tudo muito estranho… Não apenas a frase em si, a sua construção, a total falta de sentido, mas, principalmente, aquilo estar escrito em um livro e ter sido verbalizado por uma senhorinha já idosa, de forma totalmente fora de contexto. Foi quando resolvi fazer a pergunta que deveria ter feito assim que ela abriu o livro: qual é o título dessa obra? Ela gentilmente o fechou e me apresentou a capa de um livro de crônicas, de autoria de Rubem Alves.

Coincidentemente tratava-se de uma obra que eu já tinha lido e, podia afirmar com certeza de que, nela, não havia nenhuma citação a travestis e muito menos sobre recusa à verdade. Indaguei-lhe sobre isso, de onde ela teria tirado tal frase e ela disse que estava aprendendo a ler e que talvez ela estivesse errada, afirmando que “quando começo a ler as primeiras letras a minha cabeça já pensa logo em uma palavra”.

Insisti, se teria sido realmente na obra de Rubens Alves que ela havia lido aquilo e ela disse que não. “Eu li nas placas que vi pelo caminho. A todo momento passa a mesma placa e aí eu consegui ler tudo. Olha lá, mais uma placa daquela…”.

O carro foi se aproximando e, então, pude ler a placa da qual ela tirou a frase “Travestis demais no semestre. Recusa a verdade”. Tratava-se da placa mais comum em todo o trecho da reserva que passamos: Travessia de animais silvestres. Reduza a velocidade!

Assim, seguimos…

*Eugênio Maria Gomes é professor e escritor.


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Em 1988, enquanto os constituintes elaboravam a nossa atual Carta Magna, eu acordei com uma sensação de tontura e fraqueza, num misto de labirintite com glicose alterada. Muitos exames, a tal “curva glicêmica”, eletroencefalograma, eletronistagmografia e, por fim, talvez pela necessidade de que fosse receitado alguma coisa, acabei sendo orientado a tomar um comprimido de Tegretol 200mg. Acordei mais zonzo ainda e, por minha conta mesmo, resolvi partir o comprimido ao meio. Minha esposa me disse que, se o mal-estar havia passado, eu poderia parar de tomar aquele meio comprimido, pois certamente, ele não estaria fazendo qualquer efeito prático. Como bom mineiro, por minha conta e risco, continuei a tomar o placebo. E mais: como todo capricorniano que se preza, só dormia com o danado do meio comprimido separado, para não me esquecer de ingeri-lo logo ao acordar. Este foi o meu primeiro “remédio”…

Alguns anos depois, novo mal-estar, nova consulta, mais uma curva glicêmica e o início dos testes com medicamentos para controle da glicemia. Não sei se foi por eu ser mineiro ou se por ser capricorniano, nenhuma daquelas injeções caras deu certo. O caminho foi a Metformina mesmo, um comprimido à noite.

Ficou assim por um período, com um comprimido à noite e o outro – o placebo, pela metade, de manhã. Deu para controlar bem, até a alteração na dosagem do remédio para glicose, quando me foi indicado um comprimido à noite e outro pela manhã. Já eram três e começou a ficar um pouco mais difícil controlar o acesso e o horário. Para facilitar, eu deixava as embalagens dos medicamentos sempre à vista. Pouco tempo depois, mais um comprimido foi indicado para controle da glicose e aí eu passei a tomar remédio de manhã, à tarde e à noite. Relutei em usar qualquer outro método que não fosse o de ter as embalagens à vista e, a cada período de oito horas ingerir medicamentos, inclusive tendo que partir um deles – o placebo, ao meio.

Trabalho, filhos, vida sedentária e ingestão de gorduras, acabaram me apresentando à Atorvastatina. Um comprimido por dia para controle do colesterol. Quatro comprimidos e meio, três embalagens… Esse número aumentou no exame periódico seguinte, quando o médico pediu para associar o Stanglit no controle da glicemia, que a essa altura, já indicava o Diabetes tipo II. Mais um comprimido pela manhã, porém, ainda era possível, com muita disciplina, tomar os medicamentos na hora certa, mantendo-os nas embalagens.

Aí veio a pandemia e, com ela, mais sedentarismo ainda, necessidade de melhorar a imunidade e, claro, mais remédio. Daflon para melhorar a circulação nas pernas; Vitamina C para fortalecer o organismo, aumentar a absorção de ferro e ajudar no metabolismo celular e Vitamina D, tão necessária para a saúde dos ossos e que encontra certa dificuldade para ser produzida, naturalmente, pelos idosos. Estamos falando de mais três comprimidos por dia, sem contar que o destinado à melhoria da circulação é bem grande, meio parente do supositório…

Com tantos comprimidos para tomar, não há estômago que dê conta e o médico me receitou também o Pantoprazol, uma espécie de antiácido. Pois bem, caros amigos, não tive escolha e depois de muito relutar, de tentar continuar retirando comprimidos das embalagens, acabei cedendo aos encantos da famosa “caixinha de remédios”. Como sou teimoso, tenho uma caixa para os remédios da manhã, que são em maior quantidade, e continuo retirando comprimidos das embalagens à tarde e à noite. Provavelmente, em alguns anos, terei que aumentar o tamanho da caixa ou, então, passar a ter mais de uma, pois ainda haverá tempo para chegar os problemas com a pressão arterial, com a libido, com a enxaqueca, o Parkinson, o Alzheimer, a incontinência urinária…

Dizem que o tempo é o melhor remédio, mas eu acho é que ele é muito bom mesmo é para trazer remédio… E caixinhas! Aliás, caixinha de remédio é que nem andador e bengala, mais do que apenas um mero cuidado significa mesmo é que a velhice chegou, muito embora, nas palavras de Millôr Fernandes, “qualquer idiota consegue ser jovem. Mas é preciso muito talento para envelhecer”.

*Eugênio Maria Gomes é escritor e professor.
TEXTO PUBLICADO NO JORNAL DIÁRIO DE CARATINGA, EM 15 DEAGOSTO DE 2021


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Quando eu era criança, dormia com outros quatro irmãos, em um mesmo quarto. Dois beliches e uma cama que era armada a cada noite, no espaço que sobrava. No princípio, eu dormia em uma das camas de cima, mas acabei assumindo, definitivamente, a cama de campanha, por conta do xixi noturno, do trabalho para expor o colchão ao sol todos os dias e, também, por conta da reclamação dos meus irmãos!

Lembro-me perfeitamente de acordar em uma madrugada, todo ensopado e de ficar imaginando como passaria o restante da noite, de como seria bom se eu tivesse um quarto só para mim, para poder ter umas duas ou três camas à minha disposição, para usá-las na medida em que fossem sendo molhadas. Quem já dormiu molhado, no frio, sabe exatamente do que estou falando…

Aos doze anos parei de fazer xixi na cama, mas o desejo de ter um quarto só para mim, nunca me abandonou. Consegui tê-lo quando me formei e fui morar em Recife, mas foi por pouco tempo, pois logo veio o casamento, depois os filhos e, somente há poucos anos, o sonho foi realmente concretizado.

Meu primeiro emprego foi logo em uma construtora, depois veio uma siderúrgica, uma empresa de ônibus, a prefeitura e por último a universidade. Em todos esses empregos, sempre tive de viajar muito por conta das atividades externas. No entanto, salvo raras exceções, sempre viajava com colegas de trabalho, uma prática comum nas empresas, perdendo assim, a oportunidade de estar em um quarto de hotel sozinho. Quem gosta de ter um quarto só para si, pode entender a dificuldade de dividir esse espaço com outra pessoa, principalmente se não for alguém da sua profunda intimidade.

Viajar com amigos ou colegas de trabalho, por exemplo, dividindo o mesmo quarto, é um caso bem complicado, mas normalmente as empresas reservam quartos duplos, até por uma questão de economia. Você não pode – pelo menos não deve – fumar no ambiente, soltar gases, cantar no banheiro, defecar despreocupado com o barulho característico desse procedimento, roncar, dormir pelado e com o televisor ligado, entre outras coisas mais ou menos usuais em uma noite, sem falar outras que são inapropriadas para serem descritas aqui.

Certa vez viajei com um colega, não fumante, para Fortaleza. Naquela época podia-se fumar em todas as dependências do hotel, sem reservas. Eu tive que utilizar a janela do quarto – daquelas que possuem pouca abertura -, e praticamente coloquei meio corpo para fora, de forma que a fumaça não ficasse no ambiente. Estávamos no 12º andar e, em menos de 5 minutos, alguém gritou da rua: “Não pula, não pula”. Rapidamente uma pequena multidão se formou e já havia quem também incentivasse o pulo, até que o gerente acionou a campainha, preocupado com uma possível tentativa de suicídio.

Eu costumo ter horários rotineiros para ir ao banheiro, normalmente em torno de 7 e de 13 horas. Já fiquei mais de uma hora, suando frio e cruzando fortemente as pernas, esperando o colega que resolveu tomar banho no “meu” horário. À tarde, o negócio piora, pois imagina você usar o banheiro e alguém ter de entrar em seguida para escovar os dentes?

E quando o colega resolve jantar às 23 horas, se empanzinar com uma comida bem pesada, dormir de barriga para cima e roncar bem alto? Como manter o sono ouvindo um assovio, acompanhado de um trovão? Sem falar nos sons do escapamento, sempre de mãos dadas com aquele odor desagradável…

Sobre quarto duplo de hotel, ainda pesa o fato de às vezes ocorrer de o colega chegar e entrar no banheiro antes de você, achar bonitinho os sabonetes, os shampoos, os condicionadores – alguns hotéis inclusive disponibilizam escova e creme dental -, pegar tudo para ele, colocar na necessaire e deixar você sem nada. Isto se repetiu tantas vezes comigo que passei a levar os meus produtos de higiene de casa.

A divisão do quarto esbarra ainda na questão do canal da televisão que cada um quer ver, nas cuecas e meias que alguns costumam deixar espalhados pelo quarto, na descarga que não é dada, na temperatura do ar-condicionado, no horário de apagar a luz definitivamente, enfim, coisa que até para casais costuma não terminar lá muito bem.

Eu continuo na luta, firme no propósito de ter, sempre que possível, pelo menos numa parte do tempo, um quarto só para mim. Assim como Mário Quintana, “Quando abro a cada manhã a janela do meu quarto é como se abrisse o mesmo livro, numa página nova”. E cada vez que entro no meu quarto, reencontro o meu melhor lugar no mundo, onde eu posso chorar, escrever, refletir, descansar ou, simplesmente, não fazer nada, sem ter de explicar nada a ninguém.

*Eugênio Maria Gomes é escritor.

Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA.


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A primeira me chegou de repente. Do nada lá estava ela, à minha frente, como se tivesse surgido de um passe de mágica. Ela era pequena, do tipo “mignon”, clara, lisa, bonita. Sim, ela era bonitinha mesmo. Em pouco tempo tive o contato com a segunda, com a terceira… Adolescência, em cidade pequena, o tempo todo na rua, vendendo salgados ou brincando de pique esconde… Nada mais propício para este encontro.

Era a puberdade aflorada, trazendo consigo aquela quantidade de espinhas, alteração na voz, suor debaixo do cobertor e muitas e demoradas idas ao banheiro. Elas também chegavam uma vez ou outra, mas sempre pequenas, de certo modo graciosas, com formatos diversos, algumas inclusive do tipo “violão”.

Foi no início da juventude que apareceu a primeira diferente, mais madura, tipo morena jambo. Confesso que foi um susto tê-la à mão, toda minha, sem muita experiência e sem saber exatamente o que fazer com ela. Nos curtimos por um bom período e, assim como a juventude passa, aos poucos fui me esquecendo dela, deixando-a de lado, mas sempre atento a qualquer alteração em seu comportamento, pois apesar de não me importar tanto mais com ela, sabia que ela precisava ser cuidada e acudida se precisasse.

Por um longo período me esqueci delas. De verdade! Acho que foram as outras preocupações… Trabalho, casamento, filhos… Ah, os filhos! A partir deles você não tem olhos para mais nada. Morávamos à beira mar, em Recife, nos idos de 1982. Muito sol, muita praia, pouco protetor solar, caipirinha e cerveja gelada no fim de semana, alegria e a atenção totalmente voltada à família, sem qualquer lembrança delas. Foram anos muito bem vividos.
Mais tarde, mudança para Juiz de Fora, depois Caratinga, sempre com foco no trabalho e na família, com elas, as outras, em segundo plano. Foi assim até que a vida me pregou uma peça… Aos 44 anos eu fiquei viúvo. Aí sim, é que não tive mais tempo, nem condições, de me preocupar com elas.

Mas os filhos crescem, se casam, se mudam… E, de repente, me chegou mais uma. Muito mais madura, mais morena, grande… Que pinta! Chegou e tomou o seu lugar, passando a ser a “chefe” de qualquer outra que pudesse aparecer. Como dizia a minha querida mãezinha, essa chegou e se esparramou. Ela era diferente de todas as outras que eu já tinha tido a oportunidade de ter. Não sei por que, mas, dessa vez, sua presença me preocupou… O que fazer com ela? Ela estava em minhas mãos, mas será que não me faria mal? Seria ela confiável? Sim, porque ela poderia ser como essas pessoas que chegam à sua vida, como se gostassem de você e se transformam em um câncer, daqueles que corroem até a sua alma…

Deixei de me preocupar muito com ela após procurar um especialista, que me disse para que eu acalmasse o meu coração, porque ela certamente não me faria mal. Ficaria feia com o passar dos anos, mas não me faria mal…

Deixei que ela ficasse ali, quieta no seu canto, já que não me causaria problemas. Além disso, eu a tinha em minhas mãos, qualquer coisa eu me livraria dela.

Aos poucos, confesso, fui mesmo me esquecendo dela, assim como já havia me esquecido das outras. Até porque, a vida passa tão rápido que, quando você menos espera, outras vão aparecendo… Sim, outras vieram… Muitas outras.

Manchas… Benditas machas senis! Antes de me lembrarem da minha finitude, elas me contam os bons momentos vividos e apontam para muitas coisas que ainda posso e devo viver!

*Eugênio Maria Gomes é professor e escritor
Texto publicado hoje, no Jornal DIÁRIO DE CARATINGA


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Recentemente falamos sobre a importância de olharmos ao redor e tentar, de alguma forma, amenizar o sofrimento de milhões de brasileiros que vivem atualmente na famigerada linha da pobreza. Em seguida deparei-me com um comunicado da Associação Médica Homeopática de Minas Gerais, dando ciência à comunidade de que “Neste mês de abril, estamos contribuindo com 210 kg de feijão e 300 kg de arroz, produtos estes de boa qualidade e adquiridos de atacadistas. Fizemos essa opção, uma vez que observamos que as chamadas ‘cestas básicas’ nem sempre têm produtos de qualidade e necessários”, visando amenizar o sofrimento de parte dessa população que tanto tem sofrido.

Fiquei incomodado com o assunto. Uma Associação Médica tão importante não teria este posicionamento sem razão. Aí fui pesquisar, principalmente sobre o que é básico e o que é necessário. De fato, faz pouco sentido você ter, na mesma cesta, 1 kg de sal e 1 kg de fubá, quando se tem, apenas, 1 kg de feijão. Ademais, tirando os 5 kg de arroz, os demais itens – com exceção do sal e do fubá – são suficientes para poucas refeições. Você sabe, exatamente, quais produtos compõem uma cesta básica “padrão”?

Nas chamadas “Cestas básicas para doação” há os mais variados modelos, dependendo do valor, das marcas dos produtos, do tamanho do bolso do comprador e do interesse do supermercado em disponibilizar determinados produtos. Buscando na internet, em uma grande rede de supermercados do país, encontraremos basicamente dois tipos de cestas: a cesta básica “Básica” e a cesta básica “Completa”.

Na “básica”, normalmente, se encontram os seguintes produtos: 5 kg de arroz, 1kg de feijão, 1 kg de açúcar, 1 garrafa de óleo de soja, 1 pacote de macarrão, 1 kg de sal, 1 kg de fubá, 1 lata de massa de tomate, 1 pacote de biscoito recheado, 1 caixa de gelatina, l lata de sardinha, 1 lata de ervilha. Na versão “completa”, acrescenta-se: 1 kg de farinha de trigo, 250 gramas de pó de café, 1 lata de milho verde, 1 saco de farofa pronta, 200 gramas de achocolatado, 300 gramas de alho e sal, ½ kg de flocos de milho e ½ kg de farinha de mandioca.

      Em qualquer dos dois modelos de cestas, o sal disponibilizado dará para cozinhar todos os produtos e ainda sobrar para cozinhar mais uma, e mais uma e mais uma cesta básica de produtos. Ademais, sabemos que muito sal nem é bom para a saúde... Sem falar na quantidade de fubá que acaba sendo usado para tratar de animais, até porque, angu sem feijão, sem uma verdura, não deve descer muito bem. 

     Não pretendemos aqui desfiar um rosário de críticas às cestas básicas, não obstante sabermos que ela foi criada, principalmente, para atender grandes empresas fornecedoras, a partir das necessidades apresentadas pela população mais pobre. Ou seja, mais uma vez é a miséria de muitos enchendo os bolsos de poucos. 

     Não podemos nos esquecer também, que as pessoas que doam a cesta básica – mesmo sendo essa que não atende às necessidades básicas de nenhuma família -, o faz com o intuito de ajudar. Graças a Deus que fazem isso. No entanto, a ajuda pode ser mais substancial, gastando-se o mesmo valor despendido na cesta básica. Essa relação de 5 kg de arroz, 1 kg de feijão e l kg de sal, não faz o menor sentido. O valor gasto com gelatina, ervilha, milho verde etc. pode muito bem ser convertido em mais feijão. 5 kg de arroz, 5 kg de feijão e um litro de óleo fariam muito mais sucesso e atenderiam muito mais as necessidades básicas da família do que essa miscelânea de produtos que não devem durar uma semana em uma casa com cinco pessoas para se alimentarem. E não se preocupe com o sal, porque este as famílias o têm aos montes, como resultado das sobras das tais cestas básicas, recebidas em outros carnavais. 

    É claro que o melhor seria acrescentar ao feijão e ao arroz (5 kg de cada) um pouco de proteína e de legumes. Mas, tudo quando é possível. O mais importante é que, ao darmos vazão a essa vontade que temos de ajudar, pensemos, também, em uma questão simples: se fosse eu, o que seria básico para mim? A partir disso, a gente consegue ajudar um pouco mais e de forma bem mais satisfatória. 

  Madre Tereza de Calcutá registrou que “O importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá”. Com essas palavras, a nossa santinha disse, nas entrelinha, que tudo o que é feito com amor é bem-feito. A partir do amor, sempre doaremos o melhor de nós!  

*Eugênio Maria Gomes é escritor
*Texto publicado no jornal DIÁRIO DE CARATINGA


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Esta Semana a minha campainha foi acionada no domingo, por um rapaz pedindo ajuda. Ele me disse que era pedreiro e que precisava de ajuda, que iria começar a trabalhar no dia seguinte e que me pagaria na sexta-feira. Perguntei-lhe que tipo de ajuda ele procurava e ele me respondeu que precisava de R$24,00. Questionado sobre o valor ele me disse que precisava comprar uma marmita térmica e um frango, já explicando que era apenas a marmita, pois o suporte ele tinha. Frango? Indaguei-lhe e, ele, com toda calma me disse: “sim, porque não tenho dinheiro pra comprar porco ou boi”.

Por mais estapafúrdia que me pareceu aquela resposta (como assim, o sujeito sem dinheiro, precisando comprar comida e fala em frango?), depois de alguns minutos de silêncio, daqueles em que passam um turbilhão de pensamentos em nossa mente, pedi que aguardasse e fui buscar o que pedia. Talvez ele volte na sexta-feira para fazer o pagamento, talvez não. Talvez nem tenha arranjado trabalho e talvez nem tenha comprado a tal marmita e o frango.

O que sei é que, nesses tempos de pandemia, com o desemprego no Brasil batendo a casa dos 15 milhões de pessoas e com um quarto da população brasileira vivendo na chamada “Linha da Pobreza”, a situação está feia para muita gente. E não estou falando, apenas, de um contingente de brasileiros que, mesmo antes da pandemia, já vivia situações gravíssimas de privações, sendo que boa parte deles, inclusive, já era atendida por instituições sociais, religiosas e por grande número de voluntários. Estou falando de pessoas que pertencem inclusive à classe média, de gente que por conta da pandemia, está passando aperto, passando por necessidades, por situações que, até então, não tinham passado. Pessoas que estão com dificuldade para pagar a conta de luz, a conta de água, de comprar a cesta básica ou o remédio, algo que eles sempre fizeram, com seu próprio esforço.

Este é um tempo propício para, sem perder de vista o trabalho social que cada um já desenvolve, olhar no seu entorno, olhar para os que estão próximos inclusive. Estou falando do nosso vizinho, do nosso amigo, do nosso colega de trabalho, daquele nosso parente. Estou falando de pessoas que, talvez, jamais tenham coragem de pedir ajuda, mas que podem ser ajudadas com pouca coisa, às vezes, apenas com uma orientação, com uma mão amiga e uma cabeça mais tranquila, capazes de lhes mostrar caminhos, de lhes propiciar a abertura de algumas portas.

A maioria das empresas do nosso país está passando por dificuldades e, mesmo assim, muitas delas, estão mantendo empregos, a duras penas, para não aumentar ainda mais o caos social. O governo, dentro do que lhe é possível fazer, também tem contribuído com os “auxílios emergenciais”. As instituições sociais, mesmo com toda a dificuldade imposta pelo necessário distanciamento social, têm atendido milhares de pessoas que vivem em situação de risco social.

Nós podemos, embora também tenhamos problemas nesse momento, ajudar um pouco, ligar para algum amigo, vizinho ou parente que a gente sabe que pode estar precisando de alguma coisa, de uma cesta básica por exemplo ou de uma palavra amiga, de aconselhamento, de esperança, e lhe oferecer a nossa solidariedade. Também podemos ajudar através dos diversos grupos que atuam nessa pandemia, como se fossem anjos de Deus aqui na terra, amenizando o sofrimento de muitos irmãos.

Definitivamente, este não é um momento para, apenas, agradecermos porque não temos problemas com a nossa subsistência, com a manutenção de um mínimo de conforto para nós e para os que amamos. Este é mais um momento para exercitarmos a nossa fé através das obras.

A Fé sem obras é uma fé morta. Precisamos agir, de forma ativa e participativa, como instrumentos de mudança na vida de nosso semelhante. Para isso, temos que ser solidários com a dor, o sofrimento e as carências vividas por tantos, neste triste momento que passamos. Ninguém tem tão pouco que não possa compartilhar o pouco que tem, com aquele que nada tem. Não podemos nos manter indiferentes, alheios à situação de pobreza e de miséria vivenciada por tantos brasileiros, nesse momento.

A solidariedade, também não precisa ser circunscrita a ajuda com bens materiais. Há muitas formas de ser solidário, muitas das quais, não dependem de dinheiro. Milhares de pessoas padecem de solidão, e silenciosamente, sofrem pela ausência de um ombro amigo, pela ausência de alguém que as ouça, que compartilhe com ela a sua dor…

Nosso grande desafio, é aprender “que os joelhos que se dobram para a oração, precisam ser desdobrados em braços solidários” que se abrem para o acolhimento, para a ajuda, para o sustento daqueles que necessitam.

*Eugênio Maria Gomes é escritor

  • Texto publicado no DIARIO DE CARATINGA em 25 de abril de 2021

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*Eugênio Maria Gomes

Por ora, chega de notícias ruins. Hoje, eu quero falar de coisas boas…

Não quero falar nada sobre a Monique Medeiros, a mãe do Henry Borel, o garoto de quatro anos, assassinado recentemente. Quero falar da Maria dos Anjos, uma linda e sofrida senhorinha, residente no interior de Minas Gerais, que criou dez filhos, trabalhando na lavoura e vendendo hortaliças na feira da pequena cidade. Alguns filhos se casaram e foram para São Paulo, outros, ficaram por ali mesmo e, na medida em que iam tendo filhos, iam deixando com a vovó para serem criados. Criou outros dez, sem contar os que passaram por lá, como “filhos de criação”, e outros que acolheu como se fossem seus. Amou a todos, entregou-se a cada um, foi o que costumam ser as mães, durante suas passagens aqui na terra: anjos sem asas, amando e protegendo as suas criaturinhas.

Não quero falar de uma professora lá de Cuiabá, demitida depois de agredir duramente um aluno do ensino básico, com apenas seis anos de idade. Quero falar de outra professora, a Maria das Dores, residente no sertão pernambucano, que excluída de qualquer tecnologia, e proibida de usar a sala de aula oficial – uma tapera, coberta com folhas de coco e paredes de pau a pique -, por conta da pandemia, diariamente sai de sua casa, anda quilômetros a pé, em estrada de chão batido, para entregar e recolher, de porta em porta, os ensinamentos e as tarefas aos alunos. Em cada parada, conselhos, palavras motivadoras e de esperança.

Não quero falar mal de Manaus, a capital da Amazônia, encrustada na maior floresta do planeta e que possui o menor percentual de arborização entre as cidades brasileiras com mais de um milhão de habitantes. Quero falar de Goiânia, a capital verde do Brasil, que possui cerca de noventa e cinco metros quadrados de área verde por habitante, atingindo, proporcionalmente, o segundo lugar no planeta, perdendo apenas para Edmonton, no Canadá. Uma cidade que, independentemente de quem a administra, desenvolveu mecanismos de desenvolvimento urbano com responsabilidade ambiental.

Não quero falar dos nossos rios poluídos, dos nossos córregos que mais se parecem com esgotos a céu aberto. Poderia até falar do Sena ou do Tâmisa, exemplos de rios que já foram muito poluídos e hoje são chancelados como rios limpos. Mas, quero falar do rio Sucuri, localizado nas proximidades da cidade de Bonito, em Mato Grosso do Sul, na Serra da Bodoquena. Um rio de águas límpidas, com fauna e flora aquáticas de tirar o fôlego, até mesmo através de vídeos e fotos. Um daqueles rios brasileiros que o homem, ainda, não conseguiu estragar.

Não, eu não quero falar de tristeza. Já a temos demais em nosso cotidiano, muito mais acentuada nesses tempos de pandemia. Eu quero falar de alegria. Do neto que aprendeu a declamar uma poesia, da neta que entrou na pré-adolescência, de uma sobrinha-neta que nasceu e de outra que está a caminho. Quero falar de parentes e amigos que já tomaram a primeira dose da vacina e da esperança que se fortalece com a proximidade da segunda.

Quero falar de cooperativas que doam parte de seus lucros para o combate à pandemia; de restaurantes que, mesmo em tempos de crise, doam refeições aos mais carentes; da padaria que colocou um cesto de pão na porta com a inscrição: “se tiver dinheiro, deixe na caixa ao lado. Se não, leve o pão que você precisar”; quero falar dos internautas que fizeram uma gorda vaquinha virtual e compraram colchões e cestas básicas para famílias em situação de risco social, no Acre; quero falar de pessoas que, anonimamente, reunidos em um grupo denominado “Anônimos do Bem”, têm ajudado muita gente, buscando suprir uma parte das suas mais diversas necessidades; quero falar de um dono de restaurante, na Geórgia (EUA), que ao sofrer uma tentativa de roubo ofereceu emprego ao infrator, recuperando-o.

Não quero falar da violência policial americana, que ceifa vidas cotidianamente, de racismo, de porte de armas, de agressividade ou de comportamentos e de discursos raivosos, que destilam ódio a cada palavra que é dita. Quero falar que é possível haver uma polícia eficiente, que sequer utilize armas letais, como a polícia inglesa; que é possível vivermos em uma sociedade harmônica, onde as diferenças sejam respeitadas como na Nova Zelândia; quero falar que é possível através do diálogo, do respeito recíproco, da firmeza de princípios desde que associada a elegância do discurso, termos um ambiente político que não nos cause tanto constrangimento, tanta vergonha, nos transformando em um vexame mundial.

Porém, mesmo que pareça difícil, no momento, e apesar de tudo que vemos acontecer a cada dia, ainda há muitas coisas boas acontecendo, muita gente boa atuando como catalizadores das transformações que queremos e merecemos ver e, que, por vezes, podemos mesclar tudo isso com as inúmeras notícias ruins que nos chegam todos os dias.

De vez em quando, dá para não falar apenas dos espinhos, mas também falar das flores.

*Eugênio Maria Gomes é escritor


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*Eugênio Maria Gomes

Vivemos um tempo em que tudo parece diferente de “antigamente”. Não estou falando de tecnologias, de infraestruturas urbanas ou de comodidades, porque isso realmente, nos tempos hodiernos, em nada se parece com o que tínhamos e usufruíamos há alguns anos. Estou falando de valores, de relacionamentos, de posturas, da forma de enxergar a vida e de compreender o outro. Em relação a estes aspectos, muita gente está encontrando dificuldade para perceber que algumas questões não mais poderão ser tratadas ou aceitas como ocorria em outros tempos. A exemplo do bullying, uma forma preconceituosa de se referir às pessoas, que sempre disfarçam tentativas de menosprezar aqueles que não se enquadram nos padrões estereotipados impostos pela pretensa cultura dominante.

Isso é “mimimi”! Esta é uma frase muito comum que costumamos ouvir, quando alguém reclama por ter sido vítima de comentários maldosos ou de atitudes preconceituosas. Alguns falam de um suposto saudosismo. De um tempo, em que a vida não apenas corria mais devagar, mas no qual as pessoas que compõem as chamadas “minorias” aceitavam melhor as coisas e não reclamavam de nada.

De fato, não reclamavam. Piadas eram feitas, “brincando” com pessoas obesas, com alguém que tivesse o cabelo crespo, que tivesse uma orientação sexual diversa ou que professasse uma religião afrodescendente e, aparentemente, eles não ligavam e, até, costumavam rir com quem os provocava. Mas, acreditem, era só aparentemente. No fundo, eles sofriam. Calados, mas sofriam.

Ocorre que os tempos mudaram. As pessoas passaram a ter mais acesso à informação e aprenderam a se posicionar. As denominadas minorias se cansaram de ser “objeto de chacotas”, de ocuparem os piores postos de trabalho, de não terem acesso aos benefícios e direitos dos demais e de ouvirem, o tempo todo, como desculpa para as ofensas que recebem, coisas do tipo “eu não sou racista”, “eu não sou homofóbico”, “eu não sou xenófobo” e “eu não sou gordofóbico”, entre outros hipócritas argumentos.

Sim, sempre falamos e vivenciamos esses acontecimentos e, mesmo sem termos, algumas vezes, a real intenção de ofender, de fato, ofendíamos os outros sim. As vítimas das nossas ofensas é que viviam em uma situação de dominação e não tinham sequer forças para lutar contra isso. Hoje elas têm voz e estão certas ao exigirem respeito de todos nós. Sim, essas pessoas mudaram e cabe a nós mudarmos também.

Se é chato para mim, para você ou para qualquer um ficar ouvindo isso sem parar, tenha certeza de que também é muito chato para eles terem de nos lembrar disso o tempo todo. E mais: é muito doloroso para eles a convivência constante com a discriminação, com o preconceito e com a percepção de que são tradados com inferioridade.

Eu quero mesmo acreditar, que muitas vezes esses comentários maldosos não são feitos com o real intuito de ofender, mas também entendo que até nisso precisamos mudar, pois se fomos “acostumados” a falar o que queríamos com os outros, agora não podemos mais. Quando ofendermos alguém, mesmo sem a real intenção de fazê-lo, o mais correto é que peçamos desculpas e aprendamos a não fazê-lo mais. Ficar buscando desculpas, chamando de “mimimi” ou insistir que não se é preconceituoso, é alimentar o preconceito estrutural que existe em nossa sociedade.

As vezes é difícil perceber esse preconceito estrutural porque muito dele se encontra, justamente, disfarçado de inofensivas brincadeiras. É mais fácil constatar as violências físicas sofridas diariamente por negros, mulheres ou homossexuais, estampadas cotidianamente nos noticiários. Ou as dificuldades de locomoção enfrentadas por pessoas com sobrepeso, idosos ou portadores de necessidades especiais, diante de aparelhos urbanos e de transporte inapropriados para suas especificidades. O mais difícil e perceber que as aparentemente inofensivas brincadeiras que são feitas, nada mais são do que reflexos cruéis dessa infeliz característica de nossa sociedade. Menosprezar e subjugar os que não se adequam aos padrões estereotipados, impostos por uma cultura de dominação dos que são diferentes…

Muito já se evoluiu nesse aspecto, tanto em relação aos que se mantinham em silencio quando ofendidos – porquanto apropriaram-se do “ter vez” e “ter voz” -, quanto dos ofensores que, aos poucos, vão entendendo um pouco mais sobre o que é empatia, sobre o que é sentir na pele o que o outro sente. Mas a luta é árdua. E não pode parar.

Mas creio que haverá um tempo, no qual, finalmente, percebamos que a glória da criação está justamente na diversidade de suas formas, que devemos nos diferenciar apenas por nossos talentos e por nosso caráter, e que nossa aparência física, nossa etnia, nossa posição social, são apenas invólucros, uma mera embalagem, a ocultar nossa verdadeira e genuína igualdade, a de que todos fomos criados à imagem do Criador, que nos fez iguais, ainda que diversos e semelhantes, ainda que plurais!

*Eugênio Maria Gomes é escritor


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*Eugênio Maria Gomes

A frase que dá título ao presente é uma síntese metafórica da conclusão de Thomas Hobbes sobre a natureza humana e que veio à tona durante uma conversa com o amigo José Horta, o excepcional editor do DIÁRIO DE CARATINGA e um ser humano ímpar, quando falávamos sobre a pandemia e se seria necessário outro dilúvio para propiciar o surgimento de uma nova humanidade, uma vez que, parece, o ser humano não tem jeito mesmo. Nesse momento, ele registrou que não seria preciso água, fogo, nada disso, pois o homem mesmo dará conta de acabar com a Obra da Criação, sendo ele próprio o lobo do homem.

Claro que não podemos generalizar, mas é razoável pensar que alguns exemplares da nossa espécie sequer conseguem alcançar a real dimensão do grande problema que estamos vivendo, nestes tempos de pandemia. Quantas vidas perdidas mundo afora, quantas pessoas desempregadas, quanta fome, quanta dor, quanta miséria! E, não obstante tudo isso, muitos seguem a vida como se nada estivesse acontecendo, agindo como se o momento fosse ideal para mostrar sua pseudo supremacia, para humilhar os outros, para tirar vantagens em um mundo de tantas desvantagens, de tanto sofrimento.

Alheios ao triste momento por que atravessa o planeta, muitos passam seus dias tentando convencer outros de que o seu político de carteirinha está certo, de que o outro está errado; minimizando mortes, disseminando medos e compartilhando mentiras; ainda tem gente defendendo a ditadura militar em oposição ao comunismo, como se não houvesse outro caminho possível; há gente utilizando a boa-fé das pessoas para tirar proveito para si próprio e, infelizmente, muitas “religiões” usando o nome de Deus em vão para enganar, mentir e ludibriar fieis.

O lado “lobo” do homem se escancara quando empresários e políticos promovem uma sessão clandestina de vacinação em Minas, furando a fila de quem espera, pacientemente, pelo cumprimento do cronograma do SUS, enquanto milhares de outros brasileiros, ao longo de todo o país, aguardam vagas nas UTIs. O pior: para tomarem uma vacina que não se sabe de onde veio, talvez falsificada ou, ainda, resultante do furto de algum órgão ou instituição.

O lobo mostra suas presas quando uma enfermeira, com a maior cara de pau e demonstração de desumanidade, faz de conta que aplicou uma vacina em um idoso, seja por maldade, seja para poder reutilizar o precioso líquido em troca de alguns reais…

Somos todos “lobos” quando jogamos comida fora, enquanto milhões passam fome sem ter um pedaço de pão para comer; quando agredimos o meio ambiente e dele fazemos uso como se fosse nossa propriedade exclusiva; quando roubamos o outro, quando fraudamos a empresa, quando corrompemos o governo e o Estado.

O lobo mostra suas presas, mais afiadas, quando se defende o respeito ao direto da propriedade intelectual das patentes de vacinas, por parte de alguns poucos conglomerados farmacêuticos, em detrimento do direito à vida de bilhões de pessoas mundo afora, em países que sequer iniciaram a imunização de sua população, sequer possuem recursos para adquiri-las. Mesmo nas regiões do planeta que sediam esses fabricantes, já se constatou que esses conglomerados não são capazes de produzir vacinas em quantidade suficiente para atender sua própria população, enquanto há plantas produtoras ociosas, capazes de aumentar significativamente a produção, em um esforço mundial pela universalização do direito a imunização.

Somos todos “lobos” quando se tem o ultraje de defender a aquisição de vacinas pela iniciativa privada, neste momento de horror extremo, quando todos sabem que não há vacinas disponíveis para serem adquiridas pelos governos e distribuídas equanimemente por toda a população, sem distinção de classes, e essas empresas, apenas as muito ricas, vão acirrar uma desleal competição pela aquisição desse bem tão valioso, criando ainda maiores distorções na imunização global, e mais uma vez, corroborando a triste constatação de que não somos iguais no direito a vida, pois alguns o tem assegurado, outros não, que alguns de nós somos lobos vorazes, enquanto outros são ovelhas indefesas.

A situação vivenciada neste triste início de século, por todo o mundo, e a situação de horror instalada no Brasil, não nos permite, no momento, discordar da lamentável conclusão de Hobbes, e constatar a profunda degradação Moral a que chegou nossa espécie.

Ao mesmo tempo, precisamos rogar aos Céus que nos seja complacente e piedoso, para que nós, os degredados filhos de Eva, condenados à expulsão do Eden pelo pecado original – a desobediência-, demonstrando uma tendência, uma inclinação de todos para o mal, só corrigível pela voluntária e verdadeira redenção cristã, não sejamos novamente, degredados, desta vez, da nossa própria vivência terrena, só que por um pecado ainda mais terrível – o Egoísmo.

“o Homem é o lobo do Homem, sempre em guerra de todos contra todos” – Thomas Hobbes.

*Eugênio Maria Gomes é escritor

  • Texto publicado no DIARIO DE CARATINGA em 7 de abril de 2021

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*Eugênio Maria Gomes

Riobaldo é o protagonista de uma das maiores obras literárias brasileiras, denominada “Grande Sertão: Veredas”, de autoria de João Guimarães Rosa. O romance, escrito em seis centenas de páginas, no ano de 1956, é sempre atual no monólogo do velho jagunço, que trocou a vida de bandidagem pela de fazendeiro, propiciando-nos uma analogia com o tempo em que vivemos, como se o sertão fosse o mundo. E mais, através das falas de Riobaldo, Guimarães nos dá a oportunidade ímpar de refletirmos sobre nós mesmos, sobre nossas dores, nossos medos e nossos objetivos.

Separei algumas frases da obra, ditas pelo protagonista, que falam muito do tempo e espaço em que vivemos, como se fôssemos, todos, Riobaldos.

         “O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia”. Cada um de nós tem feito a sua travessia. Cada um à sua maneira, mas, ninguém, está incólume ao que anda acontecendo. Alguns com muitas dores, outros nem tanto, mas, certamente, todos com algum sentimento novo, diferente, que vai do medo à perplexidade, do choro à euforia, da impotência à soberba. E sobre a travessia de cada um, o autor nos dá de presente algo que devemos carregar para a vida toda: não existe dor maior ou menor, existe dor. Jamais tente quantificar o que outro sente por conta de suas convicções, de suas experiências, por conta da sua forma de atravessar a vida, porque “Um sentir é do sentente, mas o outro é o do sentidor”.

         “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Só mesmo a coragem para nos conduzir nesse momento. Como lidar com o olhar dos filhos que passam fome porque os pais não podem trabalhar?  Como lidar com a dor da ausência de um amor, de um parente ou de um amigo, perdido para o coronavírus? Como se acostumar com a partida de alguém muito querido se não foi possível dele se despedir, por conta de um caixão lacrado? Guimarães Rosa parece que responde isso ao dizer “Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto”, exatamente por não ter respostas a estes questionamentos. E ele deixa fluir o que, às vezes, o incomoda, mostrando como somos volúveis também em relação ao que nos vai na alma, ao dizer “Medo, não, mas perdi a vontade de ter coragem”.

        Ao mesmo tempo, através de Riobaldo, Guimarães nos leva à aceitação da complexidade da morte, pela simples razão de que, em relação a ela, não há muito o que fazer, ao dizer: “Viver é um descuido prosseguido”; “A gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver não é muito perigoso?” e “Viver é muito perigoso: sempre acaba em morte”. Fala isso tudo para terminar com a mesma sensação que a maioria dos homens tem de que a morte pode até chegar, mas ela não pode ser provocada: “Um dia ainda entra em desuso matar gente”.

E Riobaldo, como que para contrapor esse momento dolorido, também fala de amor, de amizade, de sentimentos que amenizam nossos medos, nossas dores, nossas angústias: “Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade”; “Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o porquê é que é”. Quem de nós, de fato, tem um amigo assim, verdadeiro? Daqueles que não te julgam, e mesmo criticando suas atitudes, te acolhe. Quantos amigos, verdadeiros, cada um de nós conseguiu reconhecer nesses momentos de isolamento, de incertezas? Ainda bem que, como bem disse Riobaldo, “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.

Riobaldo nos faz refletir sobre o caráter das pessoas, a capacidade que algumas têm de ceder à hipocrisia e à falsidade, mesmo nos momentos em que tudo o que a humanidade mais precisa é de um pouco de cuidado, de carinho, de verdade, de solidariedade. Ao dizer “Eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza!”, ele nos fala de como seria bom se pudéssemos acreditar no outro, sem receios, sem medo de estar sendo apenas usado e de como os homens de boa fé se deixam manipular pelos desejos espúrios de outros, por não carregarem em sua essência sentimentos menores. Para ele, “Ser ruim, sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de experiência”.

Ainda bem que existe a aprendizagem e, como tudo na vida, apendemos também pela dor, porque mesmo sabendo que “A colheita é comum, mas o capinar é sozinho”, no final boas coisas nascem até das experiências ruins, porque “Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo…”. E a gente erra de novo, se deixa levar pelo brilho do “ouro dos tolos”, porque “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só fazer outras maiores perguntas”. O melhor de tudo, porém, é que “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”.

E para terminar, acredite: “O senhor ache e não ache. Tudo é e não é …”, porque “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.

*Eugênio Maria Gomes é escritor

  • Texto apresentado em reunião da Academia Caratinguense de Letras, em reunião virtual no dia 22 de março e publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 28 de março de 2021.

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Em um mundo onde os valores e as virtudes parecem estar em plena ebulição; em uma época na qual grande parte das pessoas parece ter se esquecido do real e verdadeiro sentido das coisas, e o real e verdadeiro sentido da própria vida, destaca-se, como nunca visto, a incapacidade de muitos em lidar, de forma comedida, prudente e mansa, com o Poder, com a Fama, e com suas próprias fraquezas.

Pode tratar-se de Poder político, econômico, social, institucional ou até mesmo em relações mais próximas, quer seja no ambiente de trabalho, ou até mesmo no convívio familiar. O fato é que, quando se alcança ou se é alçado à posições de comando ou de chefia, quando se ocupa cargos ou funções de Poder, não raramente se descobre a verdadeira face das pessoas em questão. Poucos sabem resistir à tentação do despotismo, do autoritarismo, da arrogância e da prepotência. Poucos sabem resistir à tentação ao nepotismo, ao fisiologismo, ao apadrinhamento, a autopromoção, à vaidade, sempre acompanhados, inevitavelmente, da autoindulgência, própria daqueles que embriagados pelo Poder, justificam seus atos de excesso, perdoando-os sempre, sob a justificativa de que são meras consequências do simples fato de ocuparem tais funções.

O Destino, o Divino, ou até mesmo, em alguns poucos casos, suas qualidades intelectuais, algo acima da média, concederam-lhe essas prerrogativas. Estavam fadados a exercer a chefia, o comando… Estavam predeterminados a comandar, esquecendo-se que todo Poder, sempre deve vir acompanhado de enorme responsabilidade, e que quando é legítimo e merecido, deve ser exercido com mansidão, empatia, compaixão, fidelidade de caráter e uma profunda convicção de que sempre será passageiro, efêmero, como tudo na vida.

O mesmo ocorre com a Fama, com a Beleza, com o vigor físico.

Um dia, invariavelmente, todos as perderemos. E assim ocorre, com o Poder. Sua transitoriedade nunca deve ser esquecida pelo seu detentor. Dias, meses, ou até anos podem passar, mas aquele que hoje ocupa as elevadas funções de comando e de chefia de forma despótica, que usa e abusa de sua influência e autoridade, sem comedimento, encontrar-se-á com a outra face do Poder: a Solidão, o abandono pelos verdadeiros amigos, a sujeição à vingança e a retaliação, e muitas vezes, ao próprio escárnio, por parte daqueles que foram vítimas de sua incapacidade de exercer o Poder de forma virtuosa.

Na verdade, muitas vezes se constata, que aqueles que buscam, a qualquer custo, o Poder, e o exercem de forma deturpada, não percebem que esta ânsia não se origina em suas forças ou em suas qualidades, mas sim em suas próprias fraquezas, em sua imaturidade, em seus caprichos.

Como muito bem registrado está, por vários pensadores, ao longo da história, alguns dizem que o Poder muda as pessoas, enquanto outros afirmam que, para conhecer, de fato, o caráter de alguém, basta dar-lhe Poder. Mas o Poder não muda, de fato, as pessoas, o Poder apenas mostra, de fato, quem verdadeiramente elas são…

De qualquer forma, o que sempre vimos ao longo da História humana, e o que ainda vemos hoje, na leitura cotidiana dos jornais, nos noticiários da TV, nos comentários de corredor, nos burburinhos quase inaudíveis das pessoas e nas mensagens que circulam pelos modernos meios de comunicação interpessoal, nos leva à clássica sentença, proferida pelos antigos de que o Poder é sempre perigoso. Atrai os piores e corrompe os melhores. E que o poder não legitimado pela temperança e pela altivez de caráter, sempre é dado apenas àquele que se sujeita a se rebaixar para pegá-los…

O exercício do Poder desenfreado e corrompido pela vaidade, pelo egocentrismo e pelo autoritarismo, pode ser bem exemplificado pela metáfora do balão de gás. Originariamente murcho e sem vida, vai sendo paulatinamente inflado pelos vícios, pelos abusos e pelos desmandos cometidos. A cada entrada de ar, vai adquirindo maior volume, maior grandeza, a ponto dessa grandeza, aparente, estimular, de forma desenfreada, maior entrada de ar, sem que o balão perceba que, quanto mais ar recebe, e maior volume adquire, mais próximo se encontra sua própria ruína, porém, mesmo assim, busca incansavelmente mais e mais ar. Até que em certo momento, exageradamente inflado por sua própria grandeza, esquece de seus próprios limites, e incapaz de reter tanto ar, explode subitamente, retornando ao seu estado inicial, murcho, esvaziado, desprovido de qualquer utilidade e imprestável para qualquer outra função…

Por tudo isso, se impõe àqueles que alcançam posições de Poder, que sempre submetam seus atos e suas decisões ao crivo das virtudes. Que ajam com mansidão e que reconheçam as limitações dos outros, além de nunca esquecerem a efemeridade do Poder que ora possuem. Nunca é demais reforçar a lembrança da metáfora do balão: todo aquele que, em algum momento, detém o Poder, está fadado, invariavelmente, a retornar, solitário e envelhecido, à insignificância e à imprestabilidade de um balão furado… É o ciclo natural das coisas.

“Pior do que o mau uso de Poder, é a ilusão de que esse Poder é eterno…”.

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor.


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Não podemos negar que o ano que está prestes a terminar foi muito difícil para a maior parte da população. Para alguns, inclusive, foi um ano muito, muito ruim. Um ano de perdas e de dor. Até quem não teve nenhum amigo ou parente acometido pela pandemia, acabou passando por dificuldades financeiras ou por dissabores relacionados à dificuldade de encontros, de relacionamentos e ou de aglomerações. Enfim, um ano que só não foi perdido, porque deixará marcas inapagáveis em muitos de nós, além de ter possibilitado momentos de grande aprendizagem para a humanidade.

Sem dúvida o ano de 2020 nos fez caminhar em direção ao nosso interior (só não aproveitou quem não quis) e à vivência de alguns valores importantes, tais como a oportunidade da prática da humildade, da serenidade, da temperança, da penitência e da coragem de voltarmos para dentro de nós mesmos, reconhecendo nossas imperfeições, nossos vícios, nossos “pecados”, nossas fraquezas. Tivemos a oportunidade de dar um basta na complacência com as nossas próprias imperfeições, de submetermo-nos à nossa própria consciência e, assim, de sermos capazes de olhar com mais compaixão para com nossos semelhantes.

2020 nos propiciou a oportunidade de descobrir o quão importante é a dádiva da vida. Nos fez enxergar que mais importante do que a quantidade de anos vividos é a intensidade com que cada dia é vivenciado; que cada dia tem sua importância, se de alguma forma conseguirmos tocar o coração de alguém. Por mais que esteja doído, difícil, complicado mesmo viver nesse isolamento, nesse distanciamento das pessoas, aprendemos muitas coisas, passamos a conhecer mais os outros e a nós mesmos e, mesmo à distância, chegamos a nos aproximar mais de muita gente que andava distante.

O ano da pandemia, além de provocar sofrimentos físicos e psicológicos, ainda trouxe agravamento da crise econômica, nos levando a mudar o foco em nossas prioridades, em nossos desejos, em nossas exigências. Reclamar de conversas na hora do almoço? Que nada, quem dera pudéssemos ter muitas pessoas ao nosso lado, comendo e conversando, em vez de termos tantas cadeiras vazias em torno da mesa… Reclamar da visita do parente ou do amigo fora de hora? Que nada, quem dera pudéssemos abrir a porta para receber as pessoas, deixando rolar boa música e cerveja gelada… 2020 nos fez sentir falta de coisas que não valorizámos muito, mas que se tornaram fundamentais para nós: abraços, beijos, carinhos, conversas, histórias, afagos…

2020 foi um ano em que pudemos perceber a importância da autonomia na interpretação dos acontecimentos e da nossa responsabilidade pelos resultados obtidos. Tivemos de nos “virar” mais e a ocupar menos os outros, porque todo mundo esteve, e ainda está, no mesmo barco. Passamos a entender, rapidinho, que programar o futuro significa tomar as melhores decisões no presente. Aprendemos, na dor, que de nada adianta ficar chorando o leite derramado e que, às vezes, é preciso parar, recarregar as energias, retomar a caminhada ou, simplesmente, mudar. E como aplicamos a Metanóia nestes últimos dez meses! Sangrando descobrimos que, assim como acontece com as águas do rio, nossa vida se movimenta sempre para a frente, insiste e persiste nesse movimento contínuo e é certo que, jamais, retornará ao mesmo lugar.

O ano de 2020 exacerbou em nós a nostalgia, a saudade, trazendo-nos lembranças de um tempo que não volta mais, de uma época em que as coisas eram mais fáceis, a vida corria mais lenta, tínhamos mais tempo para o lazer, para a família, para os amigos, para as brincadeiras na rua, para a missa e cultos aos domingos. Um ano que nos fez valorizar mais o que tínhamos, o antigamente, onde os pais eram respeitados, em que a pobreza não era a causa da violência e a cura para a insônia era encontrada numa xícara de chá de camomila. Neste momento de nossa história, com essa pandemia maluca que se abateu sobre a humanidade, foi praticamente impossível não sermos tomados por um saudosismo, por certa melancolia, uma quase tristeza, mas que nos levou ao crescimento a partir de questionamentos como “O que terá dado errado? Onde será que nos desviamos do caminho? Como reverter isso?” “… Sim, este foi um ano de muita aprendizagem.

Aprendemos, por exemplo, a rezar mais e melhor, a falar menos da vida alheia, a cuidar mais de nossa saúde, a higienizar devidamente os alimentos, a valorizar mais nossos empregos, a entender que o tempo passa rápido demais e que cada minuto precisa ser vivido intensamente. Aprendemos a conviver com a melancolia, a ver a vida passar com a sensação de que estávamos parados. Este foi um ano que nos ensinou, através da dor, a economizar energia para o que realmente importa. É um bom começo!

Descobrimos que a bondade é capaz de nos tornar pessoas mais felizes, que a melhor recompensa não estará ao final da busca, mas no resultado de cada boa ação que realizarmos durante o percurso. Aprendemos a levar a vida de forma mais leve, com mais propósito, com menos preconceitos e com mais respeito às diferenças. Aprendemos a viver mais devagar, a observar nossos ritmos individuais, a humanizar os relacionamentos e a priorizar o que é, genuinamente, mais importante. Aprendemos a consumir menos, a ter menos coisas para cuidar e menos coisas para fazer, para assim, cuidarmos melhor do que temos, e fazermos melhor o que fazemos.

Em 2020 nós choramos, sofremos, vivemos… Aprendemos. Quem não o fez, perdeu!

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor.


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Estamos no Tempo do Advento e, daqui a cinco dias será Natal. Na memória, me vem a lembrança desse mesmo tempo vivido nos anos anteriores, quando a preocupação que pautou meus escritos, então, foi a de que não ficássemos presos às compras, aos presentes, às fartas ceias, mas sim, que nos lembrássemos do outro, do abraço, do carinho, do perdão, da confraternização em família, do compartilhamento do calor humano.

E aqui estou, em plena pandemia, para sugerir a todos que continuem evitando gastos desnecessários com natais suntuosos, com ceias exageradas, daquelas que fazem o pernil perdurar por dias na geladeira e as latas de lixo serem entupidas por sobras de comida. Porém, preciso completar: dessa vez, nada de abraços, nada de confraternização com várias pessoas, nada de compartilhar calor humano através do toque, do beijo, de demonstrações físicas de afeto.

O momento, agora, exige de nós o maior distanciamento possível. Vamos compartilhar emoções, carinho e amor pelo telefone, pelas vídeochamadas ou através da janela e da soleira da porta. Não podemos presentear quem amamos com a doença, com o sofrimento.

Essa semana circulou uma mensagem nas redes sociais, na verdade um desabafo, da psicóloga Larissa Figueiredo, que atua no CTI do Hospital Felício Roxo. Em um dos trechos mais dramáticos de seu relato, ela diz: “Entro no box acompanhando o médico que calmamente e com muita segurança explica ao paciente que as medidas ventilatórias não invasivas foram insuficientes… o paciente já sabe com o que está lidando: ‘deixa eu conversar com minha família antes?’. Videochamada. Anota aí a senha do banco, avisa nossa filha que amo ela demais. O carnê do plano funerário tá na segunda gaveta da minha mesa. Ainda não paguei a rematrícula da escola. Rezem por mim, serei intubado”.

E ela continua a relatar os momentos dramáticos que vive o paciente e a equipe médica, sem poder precisar se aquele paciente conseguirá ser extubado, se precisará de uma traqueostomia, se conseguirá sobreviver e passar por tratamentos muito dolorosos, e voltar ao convívio dos seus.

Tocou-me fundo esse relato, esse desabafo da psicóloga. Eu também tive parentes e amigos lutando pela vida e sofri juntamente com seus familiares. Eu também chorei a morte de pessoas muito queridas e não posso sequer imaginar que eu possa ser o agente causador de uma dor desta para alguém, simplesmente porque não pude ou não quis passar um Natal com um pouco mais de distanciamento.

Há anos comemoro o Natal da minha família, em minha casa. São sempre mais de cinquenta pessoas, entre tios, irmãos, sobrinhos, cunhados, genros e amigos mais próximos. Esse ano, nem pensar. A tradição terá de ser quebrada e me arriscarei, no máximo, a comemorar com o meu núcleo familiar, com os que estão mais próximos, com os quais convivo diariamente, ainda assim tomando todos os cuidados para não me contaminar e não contaminar ninguém.

Será doído para nós? Com certeza. Mas será também uma boa penitência, um sacrifício que ofereceremos pelos que estão sofrendo por conta dessa pandemia: milhares de pessoas nas enfermarias, buscando a recuperação; pessoas nas UTIs, lutando pela vida; pessoas adoecendo por acompanhar e tratar tantos doentes; pessoas chorando a morte de um ente querido; milhares de pessoas que passarão um Natal muito mais triste do que o nosso, já que não poderão simplesmente postergar um abraço… Milhares de famílias não poderão voltar a abraçar algumas pessoas, pelo real motivo de não estarem mais aqui, nem próximos, nem longe, mas na dor de uma saudade que não tem fim.

Neste Tempo do Advento, enquanto esperamos o nascimento de Cristo, elevemos a Deus as nossas preces, para que a vacina ou algo que amenize tanta dor chegue breve. Aproveitemos para aglomerar corações. FELIZ NATAL!

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Como um contumaz leitor, enquanto me atualizo com as notícias da semana, automaticamente vou construindo minha crítica interior sobre o que estou lendo, mas ela é sempre amenizada pelo meu lado escritor, pois sei que quem escreve coloca no papel aquilo que lhe vai na alma, o que, necessariamente, não é uma radiografia fria da realidade, pois costuma estar impregnada pela forma com que o autor enxerga a vida e de como compreende a si mesmo.

Tanto quanto os textos, chama-me a atenção os comentários dos leitores.

Quando lemos algo, adquirimos o direito de tomar o texto para nós, passamos a nos apropriar dele e a interpretá-lo com base em nossas crenças, em nossos desejos, inclusive os mais escondidos. Assim que corremos os olhos no que foi escrito, deixa de importar o que o escritor quis dizer e passa a importar tão somente aquilo que eu consigo entender, aquilo que eu quero que esteja ali, no texto à minha frente.

Quando algum colunista escreve, por exemplo, sobre a importância de se esclarecer, com a maior precisão possível, as nuances das mortes de Mariele Franco – brutalmente assassinada no Rio de Janeiro -, do garoto Miguel – que despencou do 9º andar do prédio na grande Recife -, do João Alberto – espancado até a morte em Porto Alegre – ;das meninas Emily e Rebecca, mortas na porta de casa durante um tiroteio, em Duque de Caxias; ou do Cabo Derinaldo Cardoso dos Santos, morto enquanto cumpria o seu dever, em um mercado na Baixada Fluminense; parecem-nos cruéis os comentários do tipo “Esse assunto já deu” e “Essa mídia não tem outro assunto?”, mas é possível, ainda que não se os aceite, pelo menos que se entenda tais comentários. É que estes assuntos, definitivamente, não fazem a menor diferença para quem faz essa espécie de comentário.

Muitas pessoas, de fato, não estão interessadas nesses temas, porque são assuntos que não fazem parte de suas preocupações. Interessante que, logo após escreverem tais comentários, eles costumam escrever coisas do tipo “O fulano fez isso e ninguém falou nada”, “Quando morreu sicrano, ficou todo mundo calado”, naquele viés que todo mundo já conhece muito bem: para se livrar da responsabilidade de discutir algo que incomoda, basta desviar o foco e contrapor o tema com outro que mais lhe seja do agrado.

Tem dois temas, no entanto, que estão deixando alguns leitores sem terem muito o que comentar, de tão esquizofrênicas que estão ficando essas questões: a incapacidade de Donald Trump de entender o “Perdeu cowboy”, e o reconhecimento de que o coronavírus não é só uma “gripezinha”.

A posição adotada pelo atual presidente norte-americano, de querer permanecer no poder a qualquer custo, em uma das mais consolidadas democracias representativas do mundo atual, iniciou-se causando certo pânico, encaminhou-se para a posição do ridículo e, agora, encontra-se na seara das piadas. Sua imagem, de homem mais importante da terra, transformou-se na de um menino chorão, que depois de chupar o seu pirulito, não que deixar que o seu coleguinha também saboreie um. Tipo “Esse pirulito é meu” e “Não saio, não saio, não saio”.

Já a pretensa despreocupação com a pandemia, a tentativa de minimizar os seus riscos a todo custo, criou uma onda de negacionismo sem precedentes em algumas partes do mundo, mais perceptíveis nos E.U.A e aqui, no Brasil, levando à morte milhares de pessoas. No começo, as mortes estavam acontecendo longe, na Europa, na Ásia. “O vírus não gosta de calor, no nosso clima ele não sobreviverá”, diziam muitos. Depois, ele veio para América do Norte e depois chegou no Brasil. “Isso é vírus de rico, só anda de avião”, “Pobre não pega isso não”, “Brasileiro precisa ser estudado, pois não pega esse vírus não”, foram apenas algumas das nossas frases a demonstrar a não aceitação do que estava à nossa porta.

Teve quem dissesse que o vírus não cruzaria as montanhas de Minas, como se o covid-19 conhecesse ou fosse limitado por fronteiras. Pois bem, ele chegou, e as mortes começaram a ficar cada vez mais próximas de nós. Saíram das ruas e vieram para as nossas casas. Sentimos, na pele, que não era apenas uma gripezinha. Até quem sempre defendeu que “é assim mesmo, o efeito rebanho vai selecionar os mais fortes”, ou então “um dia todos nós vamos morrer”, anda mudando de ideia, porque até pode morrer muita gente, desde que não seja “nenhum dos nossos”, ou melhor, “nenhum dos deles”!

Ainda há os que dizem “Aqui em casa os meninos pegaram e não tiveram nada” e “Esse vírus chegou e vai ficar e não vamos parar a vida por conta disso”. É sabido que a maioria das pessoas não sente qualquer efeito mais grave do vírus, mas são justamente estas pessoas que colaboram para matar os avós, os pais, os tios, o parente ou amigo que possui alguma comorbidade. Insisto: a sua liberdade termina exatamente onde começa a minha. Você pode fazer o que quiser da sua vida, mas não da minha vida!

Da minha vida eu cuido e quero essa peste de vírus bem longe de mim e dos meus! Mas não posso deixar de perceber, que em poucos momentos da História, algumas pessoas foram tão hábeis em deturpar a realidade, moldá-la aos seus próprios interesses, ou analisá-la através de seus olhares míopes e suas visões curtas.

“Porque eu sou do tamanho do que vejo, e não, do tamanho da minha altura…”, disse Fernando Pessoa, no início do século passado. Nada mais atual. Talvez o mais universal poeta português estivesse antevendo o comportamento de muitos, um século a frente…

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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No último fim de semana do mês, a festa rolava solta. A segunda quinzena começava com a turma trocando ideias nos intervalos para café ou nas rodas de conversa que se formavam na entrada e na saída da fábrica. A cada encontro, uma temática diferente, por isso os encontros eram tão esperados. Naquele mês, não foi diferente, com as pessoas chegando fantasiadas, mas se identificando na portaria. Terminado o tempo determinado para o fechamento das portas, mais uma vez o Manoel não apareceu.

Como toda festa que se preze, esta também tinha aquela famosa formação de grupos, com as pessoas se enturmando de acordo com os que as aproximavam. No entanto, algo era comum em todos os grupos: os comentários sobre a ausência do Manoel. As pessoas não dançavam, mas gritavam por conta da música alta, tratando do tema que mais lhes interessavam, qual seja, a ausência do Manoel. “como ele é esquisito, nunca vem na nossa festa”; “acho que ele não deve ter roupa para sair”; “ele é desengonçado demais”, eram alguns dos muitos comentários que tomavam a noite daquela turma.

Certa vez resolveram fazer um piquenique, no lugar da festa. Assim, prepararam muitas guloseimas, muita cerva gelada, e até uma “pinguinha da boa” era possível provar. Marcaram o ponto de encontro na subida da serra e, aos poucos, todos estavam lá, menos o Manoel. A subida, em grupos, era intercalada pelas respirações aceleradas e pelos comentários sobre o Manoel. “o Manoel é casado? Se for, é com mulher muito brava”; “que nada, deve estar lavando roupa”; “ele devia arrumar aqueles dentes”, eram apenas alguns dos comentários que consumiram toda a caminhada até o topo.

O período em que ficaram lá, cerca de duas horas, as brincadeiras, a música ao violão, eram sempre intercaladas com comentários sobre o Manoel, sobre sua ausência, sobre sua vida pessoal, sobre sua família ou sobre o seu trabalho. A descida, não foi diferente, com Manoel continuando a ser o tema principal das conversas, ladeira abaixo.

Certa vez combinaram uma viagem, para uma cidade próxima, onde passariam o dia em um pesque-pague. Correram a lista e, como sempre, os quarenta funcionários a assinaram, inclusive o Manoel. Nas conversas a “boca pequena”, todos falavam a mesma coisa, que o valor deveria ser dividido por trinta e nove, porque o Manoel, certamente, assim como fez das outras vezes, não iria participar, que apenas colocava seu nome por educação.

Marcaram de sair no domingo bem cedo, por volta de sete horas, para que pudessem estar lá, pescando, por volta de nove horas. Pescariam até ao meio-dia, almoçariam e chegariam cedo em casa, a tempo de descansarem para mais uma semana de trabalho. Na medida em que foram chegando, as pessoas iam ocupando os lugares e, de vez em quando, ouvia-se algo como “o Manoel vai comigo”, como a dizer “vou usar duas poltronas, porque o Manoel não vem mesmo”.

Os trinta e nove amigos já estavam devidamente sentados, fazendo o que mais gostavam de fazer, ou seja, ajudando a esquentar a orelha de Manoel. Foi quando alguém gritou: “Olha lá, o Manoel está vindo”.

Manoel chegou, pediu desculpa pelo atraso e tomou o seu lugar. A viagem transcorreu tranquila, com um silêncio que, em nada, combinava com uma aglomeração de quarenta jovens, dentro de um ônibus. A pescaria foi boa, o almoço também, e o retorno foi aproveitado para o cochilo dos cansados viajantes.

No mês seguinte, ao programarem a atividade do mês – provavelmente mais uma festa temática -, os organizadores esperaram a saída de Manoel para o almoço e circularam a lista. Não podiam arriscar, pois o Manoel poderia aparecer de novo e a turma, mais uma vez, ficaria sem assunto em seus encontros.

Enquanto isso, Manoel seguia seu caminho, convicto no entendimento de que se todos se ocupassem mais de suas próprias vidas e apenas dos impactos positivos que elas pudessem ter sobre a vida dos outros, o mundo seria muito melhor e os medíocres ficariam sem voz.

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Mais uma vez quero tratar de um tema sobre o qual muitos não gostam de conversar, preferindo “empurrar o assunto para debaixo do tapete”. Porém, a minha cultura, a minha formação, o meu aprendizado familiar e as minhas crenças não permitem que eu me omita. Sei que isso tem um preço, mas, infelizmente, pagarei se for preciso. Já me chamaram de “esquerdista” – como se o fato de ser de esquerda fosse algum ruim, e de “apoiador de comunista”. Bem, se o fato de acreditar na fraternidade; na igualdade; na liberdade de expressão com responsabilidade; na diversidade e na pluralidade; na importância da preservação ambiental e na possibilidade de uma convivência harmoniosa do homem com os seus pares, independentemente do gênero, credo e raça; se o fato de acreditar na educação como ferramenta transformadora de uma realidade e desejar que a saúde e o bem-estar sejam oferecidos a todos, indistintamente, significar ser o que pensam os extremistas de direita, então serei de fato qualquer coisa que queiram me denominar. E, hoje, mais uma vez, eu quero falar de racismo. A cada vez que acontece um ato de racismo no país, daqueles que são óbvios demais e que não dá para ficar fazendo de conta de que esse pérfido sentimento não existe por aqui, também ficam evidentes as desculpas e as justificativas que são apresentadas pelas pessoas. “Tenho sangue negro nas veias”, é a mais comumente utilizada por alguns brancos, como se o fato de ter resquício de sangue afrodescendente no genótipo fosse suficiente para retirar o seu nome da lista dos racistas. Não, não é, até porque, negros racistas também os encontramos aos montes. Aliás, entre os negros, o que existe de gente que, para fugir da responsabilidade de lutar por um resgate social de seus iguais – ou por vergonha de sua origem -, se declara “moreno”, não está no gibi. Você, certamente, tem um amigo ou uma amiga assim, da pele “moreninha”, que não admite a sua negritude. Triste de ver! Essa turma não entendeu que a terminologia “negro” engloba todos os pretos e os pardos do país. Ou seja, a maioria de nós é muito mais que “moreninho”. Esta semana presenciamos quase que uma reedição do caso George Floyd, aqui no Brasil, quando morreu asfixiado, depois de ser duramente agredido, o negro João Alberto, em um estacionamento de uma grande rede de supermercados, em Porto Alegre. Impressionante como gostamos de copiar coisas dos americanos: a comida gordurosa e calórica, o halloween, o black Friday, as expressões inglesas no meio das frases – coisas do tipo “oh my god” e “yes” -, entre outras. Mas, precisávamos importar as loucuras do Trump e o descaramento e a violência do racismo americano? Recentemente, ao comentar o ocorrido com João Alberto, nosso vice-presidente afirmou, categoricamente, que aqui nós não temos racismo, citando inclusive a sua experiência nos Estados Unidos, onde, para ele “lá é que existe o racismo. As pessoas de cor são separadas das pessoas brancas”. Não bastasse sua fala ser impregnada de eufemismo racista – como assim, pessoas de cor? -, parece que nosso mandatário não tem a menor ideia da diferença entre segregação racial e racismo. Ah, João Alberto foi quem começou a confusão, inclusive agredindo pessoas. Pode ser verdade. Porém, haveria necessidade de ele ter sido espancado daquela forma? Se naquela mesma situação a vítima fosse branca, loira, de olhos azuis, o gran finale teria sido o mesmo? Ah, mas o rapaz não era lá essas coisas, com passagem pela polícia… Sim, e daí? Por isso torna-se necessário espancar uma pessoa até à morte? Então a maneira de livrar a sociedade daquilo que ela não gosta, ou que não se coaduna com o seu “jeito de pensar e de viver”, é matando? Ora, cada um de nós não gosta de alguma coisa. Se formos olhar o gosto de cada um, certamente teríamos um país praticamente desabitado, porque além dos que têm “passagem pela polícia”, dos que brigam em supermercados e dos que agridem as pessoas, temos as prostitutas, os mendigos, os corruptos, os mais feios, os pretos, os branquelos, os ladrões, os estupradores, os homossexuais, os políticos, os professores ruins, os comunistas, os maridos infiéis, as meninas que provocam os homens, os ladrões de galinha, os hipócritas, os racistas, os supremacistas e por aí vai. Se fôssemos olhar o gosto individual de cada cidadão, é bem provável que nós mesmos seríamos mortos. As reações ao crime ocorrido foram as mais diversas, inclusive ocorrendo invasões e depredações de algumas lojas da rede de supermercados, e isso não podemos aprovar. De fato, violência só gera violência. Entendo que os negros estejam cansados de tanta conversa fiada e pouco resultado prático, mas ainda assim, nada justifica a violência. Sem contar que a reação violenta não ameniza, em nada, a violência da morte de João Alberto. Por que a nossa dificuldade em aceitar, neste caso, que independentemente de quem era João Alberto, ele não poderia ter sofrido aquela violência? Por que a nossa insistência em negar que o racismo existe por aqui? Não, o que aconteceu com João Alberto não foi uma ocorrência isolada, mas apenas mais um ato desse triste espetáculo que é vivenciado pelo país, há séculos, tendo como protagonistas os negros. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. A maioria dos pobres é negra e os negros superlotam os presídios país afora. Há quem diga que essa estatística se justifica pelo fato de a maioria da nossa população ser negra, mas não conseguem explicar por que então eles não são a maioria nas melhores escolas, no congresso, nos clubes de serviço, nas empresas, nas instituições em geral. Se conseguirmos explicar isso, sem constatar que ao longo dos séculos eles vêm sendo preteridos, subjugados e menosprezados, talvez eu também faça coro para dizer, com orgulho, que não somos racistas. Às vezes olho para o meu filho e para o meu neto, negros, e me dá aquela vontade de ir embora, de levá-los para um local bem longe, em outro continente, onde pudessem ter uma vida mais feliz, sem olhadas de “rabo de olho”, sem desconfianças, sem menosprezo. Onde possam ser informados e conhecer, orgulhosamente, seu passado glorioso, seus deuses e sua mitologia, seus costumes e sua cultura sofisticada. Onde não sejam lembrados a todo instante que são descendentes de escravos, e compreender que são descendentes de seres humanos que foram escravizados por outros seres humanos. Onde possam ser pessoas boas ou más em função de seu caráter, e não em função da cor de sua pele…É que, às vezes, cansa. Mas, prosseguir é preciso. Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Criamos nossos filhos para serem felizes. No entanto, é muito comum que ofereçamos ferramentas diferentes aos meninos e às meninas para que cavem o túnel que os levarão à felicidade. Meninos, futuros homens, são criados “mais à vontade”, enquanto as meninas, futuras mulheres, são quase sempre criadas com regras mais rígidas, devem estar sempre arrumadas, bonitas, devem aprender a cozinhar, ajudar a mamãe nas tarefas da casa e são ensinadas a serem prendadas. Em muitos casos, meninos são criados para terem sucesso profissional, enquanto boa parte das meninas são criadas para serem boas esposas, boas mães, boas donas de casa. É claro que isso não é mais uma regra geral, mas ainda acontece com muita frequência em vários pontos do país.

Com raras exceções, a menina que se torna uma profissional em condições de concorrer com o homem, é quase sempre resultado de um ato de rebeldia, afrontando alguns idiotas que, ainda, acham que lugar de mulher é em casa. E antes que você pense “lá vem ele com esse negócio de igualdade de gênero”, quero lhe dizer que a questão vai muito além do “menino veste azul” e “menina veste rosa”. Estamos falando de oportunidades, de valorização e de reconhecimento do ser humano, independentemente de seu gênero.

A questão, no Brasil, extrapola qualquer tentativa de justificar o óbvio, ou seja, a mulher brasileira é sim muito desrespeitada, muito desvalorizada e isso não faz o menor sentido. Não podemos continuar convivendo com o triste resultado de uma estatística que apresenta como maioria absoluta dos pobres do país as mulheres e, em sua maior parte, negras. Um país onde a mulher continua a receber um salário muito inferior ao do homem, mesmo desempenhando funções ou ocupando cargos iguais aos deles. Mulheres que, mesmo após a criação de uma lei específica de proteção a elas, continuam sendo maltratadas, agredidas, violentadas, vilipendiadas e mortas, por alguns “machões”.

Talvez o fato de eu ter quatro filhas, facilite este meu posicionamento, mas, todo homem é gerado no ventre de uma mulher e a maioria deles cresceu sob o olhar vigilante, o colo aconchegante e o amor incondicional de uma mulher, o que por si só já é motivo de sobra para querer que elas sejam amadas, respeitadas, valorizadas e felizes.

Propiciar meios para que a mulher seja feliz na vida, que encontre o seu lugar no mundo e seja reconhecida por isso, significa que elas devem ser educadas para que possam decidir os caminhos profissionais que seguirão, as atividades que vão exercer, os comportamentos que vão adotar, sempre com dignidade, responsabilidade e honestidade.

Minhas filhas, desde pequenas, sempre andaram bonitas, cheirosas e bem arrumadas. Todas sempre ajudaram nas atividades domésticas, mas sempre me viram também ajudando, dividindo as tarefas, para saberem que, em casa, não existe o “papel do homem” e o “papel da mulher”. Existem atividades necessárias que devem ser igualmente compartilhadas por todos que moram na casa, sem qualquer distinção de gênero. Todas foram educadas para o trabalho, para a importância da aquisição de conhecimento e para a independência. Sempre lhes disse que elas não deveriam, jamais, se submeterem ao julgo masculino por conta de dependência financeira ou qualquer outro tipo de “poder” que alguns homens costumam exercer. Também foram criadas para a vida em família, para o respeito ao outro, para serem mães ou não, para se casarem ou não, mas principalmente, foram criadas para só fazerem aquilo que as deixassem felizes e para lutarem sempre pelos seus direitos. Elas sempre tiveram em mim um guerreiro pronto para uma batalha, ao lado delas, seja em que fronte fosse.

Temos, ainda, um longo caminho a percorrer, pois não basta apenas criarmos nossas meninas mais preparadas para o mundo, mas, também, é preciso criarmos nossos meninos para que enxerguem nelas seres humanos iguais a eles, com os mesmos direitos e deveres. Talvez, nesse quesito, muitos de nós, incluindo muitas mulheres, estejamos cometendo erros, alguns imperceptíveis, mas que transmitem mensagens muito significativas, tanto para nossas meninas, quanto para nossos meninos. Não podemos esquecer, que de início, tudo se aprende em casa, na forma como discriminamos, de maneira quase natural, nossos meninos e nossas meninas, em função do gênero.

Meninas vestem rosa, mas podem, se quiserem, vestir azul, verde, amarelo, laranja, ou qualquer outra cor existente. Meninas devem ajudar nas tarefas da casa, assim como os meninos, pois todos habitam o mesmo espaço. Todos devem receber a mesma educação, devem ser preparados para serem boas pessoas, bons cidadãos. Respeitados e reconhecidos em sua integral identidade humana, em sua infinita diversidade existencial e em sua plenitude espiritual!

Se quisermos que as mulheres da nossa vida – mães, esposas, filhas, sobrinhas, amigas, cunhadas etc. -, sejam verdadeiramente felizes, teremos de passar pelo entendimento de que o empoderamento da mulher é assunto para todos nós.

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Todo Mundo tem algo em seu corpo que não o agrada muito. Não estou falando de nada vaidoso demais, apenas de algum detalhe que nos incomoda e que, em algum momento, a gente acaba dando um jeito de consertá-lo ou, pelo menos, de disfarçá-lo. Alguns não gostam do nariz, outros não gostam da orelha, do cabelo ou da boca. No meu caso, nenhum disfarce deu jeito, nem mesmo uma camisa preta ou um terno escuro: a barriga. Desde pequeno – período em que eu consegui receber o apelido de “desnutrido” na escola, e nem entendia isso como bullying, mas apenas como uma constatação da minha magreza -, mesmo magro, a barriga estava ali, como se fosse um grande depósito de lombrigas…

E assim foi a vida toda, em todos os momentos da minha vida, estando magro ou gordo, a barriga desconhecia qualquer parâmetro harmônico entre ela e o todo. Ainda hoje é assim e as ações para exterminá-la não param. Abdominais? Aos montes. Hoje faço, diariamente, entre 150 e 200 flexões. Faço-o de teimosia, porque tanto faz fazer ou não, ela permanece imutável, protuberante, como a me dizer “Não perca seu tempo, daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Dieta? Só se for para morrer de fome. Na verdade, quando corto a massa, o doce, a sobremesa, o “sanduba” com bastante molho, o sorvete, ela até se acomoda um pouco, mas nada de sumir.

O maior problema com esta minha – já de casa -, barriga, é que quando eu consigo, enfim, depois de muito abdominal e muita dieta, fazer com que ela dê aquela disfarçada boa, as pernas ficam mais finas, o rosto fica “acaveirado” e a bunda que já é pequena, desaparece de vez… Certa vez minha mulher me deu uma “coisa” de presente, como se fosse um colete, de borracha elástica, daqueles que entra apertado e quase não te deixa respirar. A ideia do “troço” é te fazer suar, apertar suas banhas o bastante e te fazer se sentir um pouco mais fino. Depois de muito esforço, consegui enfiar aquilo no corpo, coloquei uma camisa por cima e sai, animado, para uma volta na rua. Mal saí de casa encontrei uma amiga, ganhei de seus braços aquele abraço e, de sua boca, o seguinte: “Rapaz, como você engordou!”. Além de não disfarçar nada, só quem já usou uma vez sabe a dificuldade que é tirar aquilo do corpo suado, principalmente para os que, como eu, tem essa quantidade toda de pelos…

Já testei algumas receitas e simpatias. Passei a comer uma maça pela manhã e engordei alguns quilos, pois nunca vi nada para me dar mais fome que a tal da maçã. Tomar limão com água, em jejum? Ah, fiz muito e o estômago quase foi para o brejo. Aliás, uma vez me mandaram partir um limão ao meio e colocar uma parte em cada olho… Não fiz, mas certamente era para arder bem os olhos para que eles não enxergassem a comida….

No fim do ano passado, agradeci a Deus o ano que tivemos e pedi um ano novo com muitas viagens e menos peso. Eu certamente já tinha bebido além da conta quando falei com Ele, pois recebi justamente o contrário, ficando preso em casa este tempo todo e aumentando significantemente o peso, perfeitamente justificável pela vida de panda que levei nesses últimos meses.

Recentemente achei que tudo estaria resolvido, pois ao voltar de uma viagem à casa da minha filha, em Lagoa Santa, encontrei em um ponto de apoio ao viajante algo que me encheu os olhos: um pote branco, com o nome “Adeus barriga”. Ao ler as inscrições verifiquei que era feito a partir de ervas naturais. Entre os ingredientes, cana de açúcar, berinjela, folha de inhame, maracujá, abóbora, laranja, feijão, beterraba etc. Até aí, tudo bem. Passei, então, a ler as indicações que estavam em dois pequenos quadros. No primeiro: “Cura varizes, diminui a ansiedade, melhora o diabete, regula a pressão, solta o intestino, emagrece e combate a TPM”. Achei desnecessário sobre a TPM, mas me animei a ler o segundo quadro, onde constava: cura espinhela caída, melhora a sorte, reata amizades, traz a mulher de volta e enxuga a barriga. 100 cápsulas, por apenas R$10,00. Como efeito colateral, aumento na produção de gases.

Não comprei. Além de barrigudo só faltava passar a ser peidorreiro.

· Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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– 52 milhões de pobres
– 14 milhões de miseráveis
– Entre as pessoas abaixo da linha de pobreza, 70% são de cor preta ou parda
– Entre os milhões de pobres, cerca de 40% são mulheres negras
– 45 milhões de brasileiros residem em domicílios inadequados, sendo 31 milhões de cor preta ou parda.
– Brancos ganham muito mais que os negros
– Homens ganham muito mais que as mulheres
– Violência doméstica só aumentando .

As grandes questões nacionais continuam sem solução e sem qualquer sinal de uma luz no fim do túnel. Enquanto isso os políticos vão se digladiando por conta de poder e de pretensões futuras. Se não bastasse tudo isso, ainda temos de conviver com desatinos diários, de uma pseudo supremacia branca, de machistas, de gente sem educação, sem qualquer capacidade de compartilhar afeto, de gente incapaz de enxergar além do próprio umbigo.

Infelizmente temos entre nós pessoas que a minha educação não permite adjetivar. De mim receberão sempre repúdio e desprezo.

Vidas Negras Importam.
Pela igualdade de oportunidades para todos.
Pelo empoderamento feminino.
Pelo respeito ao Ser Humano

Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Sempre foi inegável a enorme influência que os Estados Unidos exercem sobre o Brasil. Não me refiro, apenas, à influência econômica e política, que seriam relativamente óbvias diante da absoluta hegemonia que esse país adquiriu no mundo e, em especial, na América latina, desde a segunda guerra mundial. Refiro-me a influência que o “american way of life” exerce sobre os brasileiros em geral, pelo menos, na parcela urbana da classe média brasileira. No cinema, na música, e em diversas outras áreas, o jeito americano de viver está presente em diversos aspectos do nosso cotidiano.

Porém, a par dessa gigantesca preponderância cultural norte-americana, que foi capaz de banir totalmente a outrora mania dos brasileiros de copiar os franceses – e os europeus em geral -, nunca uma eleição presidencial daquele país chamou tanto a nossa atenção. A vitória de Obama, primeiro presidente negro, foi muito comentada por aqui, mas nada comparável a derrota de Donald Trump.

Donos de um sistema eleitoral idealizado há mais de duzentos anos para evitar que a Federação, recém criada, acabasse dominada pelos estados mais populosos; titulares de uma plêiade de legislações eleitorais locais e fanáticos em prognósticos estatísticos, tudo isso banhado por declarações de um presidente cuja bizarra personalidade assemelha-se às piores performances de telenovelas mexicanas, fez com que as eleições americanas dominassem totalmente os telejornais brasileiros, e despertassem amor e ódio entre nós.

A eleição de Trump, há quatro anos, inaugurou uma era de radicalismo, conservadorismo e sectarismo que rapidamente, alastrou-se pelo mundo. Em um breve período, Trump fez vários discípulos. Cá entre nós, na Hungria, em Israel, na Bielorrússia, enfim, eleito, o presidente norte-americano encarnou, não uma postura conservadora, mas um conservadorismo arcaico, violento, misógino, negacionista, sectarista, algo que envergonharia até Margareth Thatcher, Ronald Reagan ou mesmo George Bush… Porém, Trump exagerou tanto em suas performances ridículas, com gestos e palavras absolutamente incompatíveis com a dignidade e compostura que se espera de um Presidente, que os eleitores americanos – pelo menos a maior parte -, resolveram desalojá-lo da Casa Branca.

Em que pese as bravatas e ameaças dessa “triste figura” não terem ainda terminado e que, provavelmente, tenhamos que suportá-las por algum tempo, o certo é que Biden foi eleito como o quadragésimo sexto Presidente daquele país, de todos os demais do mundo, o que mais possui traços de similitude conosco.

Diante de tudo isso, parece mesmo que os norte-americanos tem algo a nos ensinar.

Em primeiro lugar, fica uma importante mensagem sobre a organização e a confiabilidade do nosso sistema eleitoral. A unificação da legislação eleitoral, o sufrágio direto, as urnas eletrônicas, a Justiça Eleitoral de âmbito nacional, tudo isso, comparado ao caótico sistema americano, nos ensina que somos capazes de desenvolver e aplicar técnicas e processos infinitamente superiores.

Em segundo lugar, vemos que o populismo nasce sempre com data marcada para morrer, independentemente de sua base ideológica.

Obviamente, a derrota de Trump foi fruto de diversas questões de conjuntura, como a crise econômica, a crise sanitária e a crise racial. No entanto é importante localizar o significado da derrota de Donald Trump dentro do chamado Populismo. O termo “populismo” atualmente tem sido utilizado para se referir a regimes políticos baseados em líderes que dizem expressar a vontade do povo – seja lá o que tal conceito realmente signifique –, frente a elites corruptas.

O sucesso desses políticos se basearia em um discurso que divide a sociedade em dois polos antagônicos: os bons contra os ruins, os não corruptos contra os corruptos, o povo contra o Poder, os “servos” de Deus contra os “pecadores”.

A retirada de Trump da Casa Branca demonstrou que a maior parte dos eleitores percebeu a hipocrisia, a falsidade e o enorme perigo que se escondia nas entrelinhas desse discurso de ódio e de total desrespeito à diversidade, aos direitos e às liberdades civis em geral, e de absoluto desprezo a tudo aquilo que não correspondia à deturpada e medieval visão de mundo que dirigentes desse naipe ostentam.

Por último, embora fosse possível extrair ainda diversas outras lições desse evento eleitoral americano, destaco uma derradeira lição, ou melhor, uma derradeira premonição: deveremos ver aqui, nessas terras tropicais onde permanecemos deitados em berço esplêndido, episódio semelhante. Não me refiro a questões relativas ao sistema eleitoral. Refiro-me a uma postura de negação do resultado das urnas, de questionamentos sobre a confiabilidade do sistema de votação e apuração. Refiro-me a estratégia de tentar desacreditar o processo eleitoral. O populismo – seja de direita ou de esquerda -, só sobrevive se conseguir manter hipnotizada sua base de apoiadores, ainda que o contexto econômico, social, político e sanitário não lhe favoreça.

Para os que advogam a tese populista, o messianismo, o culto à personalidade e a certeza subjetiva de que são instrumentos divinos, enviados para uma “Cruzada” de salvação da Pátria, o povo se resume àqueles que o seguem. Os demais são “impuros”, ou “inimigos da Nação”, ou “pervertidos”, ou “traidores”, ou simplesmente “comunistas”.

A mesma tempestade perfeita que propiciou a ascensão desse conservadorismo raivoso, deve repetir-se, às avessas, daqui em diante. Continuamos profundamente divididos, permanecemos ainda, cada um a seu modo e com seus argumentos, donos exclusivos da verdade e da razão; ainda não fomos capazes de perdoar ou esquecer os erros praticados por parte dos políticos mais progressistas do nosso espectro partidário, porém, a profunda crise econômico-social que vivemos, o aumento exponencial da miséria, da fome, do descaso ambiental, as palavras chulas, o comportamento misógino e vulgar, e, principalmente, a comprovação de que a corrupção não é exclusividade da Esquerda, deverão cobrar seu preço nas próximas eleições…

Enfim, quem viver verá…

Ainda há luz no fim do túnel.

Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec. 


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A ideia foi aproveitar o tempo livre, entre uma aula e outra, para um bate papo mais descontraído com os alunos, sem, contudo, perder o foco no conteúdo. Decidi falar sobre algumas questões práticas a respeito do Marketing e de como a Comunicação é fundamental em todo o processo. Como forma de motivá-los, lhes pedi que me falassem um ditado popular para que eu, a partir dele, lhes mostrasse como o comunicar-se com o outro pode ocorrer desde as formas mais simples às mais elaboradas.

Uma aluna que estava sentada mais ao fundo da sala levantou a mão e disse-me o seguinte: “Professor, que tal o ditado popular água mole em pedra dura, tanto bate até que fura?”. Por um momento achei uma boa ideia, já que qualquer um entende, exatamente, o que o tal ditado quer dizer nas entrelinhas. Mas, abortei a sugestão imediatamente, pois vi pleonasmos em excesso na frase… Água mole…. Pedra dura…

Sem querer entrar nesse tipo de discussão, envolvendo a nossa gloriosa – e às vezes complicada -, Língua Portuguesa, fiquei aliviado quando outra voz soou no outro lado da sala: “Professor, quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Confesso que, por pouco, não deixei escapar um leve sorriso, pois a citação do aluno fazia parecer que eu havia solicitado a eles, justamente, o uso da tal figura de linguagem. Agradeci aos desorientados alunos, me dirigi ao quadro e escrevi: “Vou puxar a sardinha para a minha lata”.

Assim que me voltei para a turma, percebi aquele silêncio profundo, meio esquisito para uma sala de aula nos dias de hoje. Percebi, também, um leve sorriso maroto, em praticamente todos eles. Compreendi, então, que eles não conheciam o ditado e dei início à sua explicação. Puxar a sardinha para a minha lata significa que eu vou me favorecer mais do que ao outro… Aquelas caras, com os olhos arregalados, continuaram a ostentar aqueles sorrisos de canto de boca.

Insisti: olha só pessoal, imaginem dois portugueses, lá nos arredores do Porto, com suas latas vazias esperando a separação das sardinhas. (Achei melhor pensar em latas maiores, utilizadas nas pescarias, porque percebi que não seria nada fácil explicar se os recipientes fossem as famosas “Latas de sardinha”, já que nelas o alimento entra processado). E continuei: aí, eu pego as sardinhas, coloco três na minha lata e duas na sua, e mais uma vez repito a operação, por sucessivas vezes. É claro que, ao final, eu terei muito mais sardinhas na minha lata do que você na sua. Essa ocorrência pode ser entendida como um “favorecimento” a mim. É claro que a sardinha é só um exemplo, pois poderíamos falar de algo que estivéssemos oferecendo ao cliente e, no momento da abordagem, eu enfatizaria mais o meu produto ou serviço.

O certo é que, em Comunicação, “puxar a sardinha para a minha lata” significa mais ou menos levar vantagem diante de outra pessoa. Foi aí que a aluna – aquela que eu achei meio desorientada – registrou: “Professor, não seria brasa no lugar de lata?”. Será? Bem, se assim o for, o exemplo fica, apenas, mal interpretado, mas é só trocar a lata pela brasa e a sua aplicabilidade será a mesma. Antes que eu me perdoasse pela substituição dos objetos, o aluno do outro lado da sala – aquele que eu também achei meio desorientado – adiantou: “Professor, o correto é puxar a brasa para a minha sardinha”. Eles aproveitaram o ensejo e soltaram os sorrisos de meia boca. Rimos muito e aprendemos mais ainda.

De tudo restou a certeza de que, se eles estavam meio desorientados, eu certamente estava desorientado e meio!

• Eugênio é escritor e funcionário da Funec 


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Há alguns meses nosso tempo andava bem escasso e era praticamente todo consumido nas tarefas ligadas ao trabalho, nos compromissos sociais, nas redes sociais, ou nas compras, entre outras. Para as demais atividades sempre faltava tempo, principalmente para dormir mais, fazer uma refeição com calma, brincar com os filhos, ler um livro, ir ao cinema, enamorar a parceira, o parceiro… E como isso nos incomodava. Chegamos a abrir campanha contra o uso excessivo da tecnologia, colocamos o movimento slow em evidência, buscando distribuir melhor o tempo em outras atividades que, também, são muito importantes. Mas, de repente, veio essa necessidade de isolamento social. Muitos tiveram seus contratos de trabalho suspensos e, outros, passaram a atuar em home office. Até para os que mantiveram a atividade profissional no módulo presencial, faltaram lojas para comprar, bares para se divertir, reuniões para frequentar, já que alguns setores da indústria e do comércio tiveram de cerrar as portas por um período. Ou seja, aquilo que tomava a maior parte do nosso tempo, simplesmente foi desativado, provisoriamente.

Fomos para casa, meio que “aquartelados”, sem saber exatamente quanto tempo ficaríamos lá. Nos primeiros dias, foi tudo muito complicado, pois os dias não passavam, a gente tinha que ficar procurando coisas para fazer. Lembro-me, perfeitamente, da angústia que eu senti na primeira semana de quarentena, por não conseguir ficar parado e me sentia meio que inútil, por conta da quantidade de coisas que costumava fazer, ao mesmo tempo. Comecei a reformar e a pintar a casa, depois a arrumar gavetas, armários, guarda-roupa, geladeira… O interessante é que, na medida em que as atividades extras foram terminando, eu não as substituí. Passei a gastar mais tempo em tarefas rotineiras, como lavar o próprio talher, arrumar a cama, falar com os filhos e netos na vídeo-chamada, a rezar com mais calma ao me deitar e ao me levantar, a comer à mesa, a ler e escrever com mais calma… E, assim, comecei a perceber que faltava tempo para viver as 24 horas de isolamento social. E como tenho ouvido isso das pessoas!

Muito estranho isso, faltar tempo para conseguir fazer aquilo que nem era prioridade há poucos meses. Passei a participar de grupos sociais, a realizar reuniões de trabalho no formato online e de encontros familiares pela internet. Passei a me exercitar em casa e, mais do que em qualquer outro período da minha vida, deixei que o computador e o celular assumissem lugar de destaque em minha rotina.

E o que tenho escutado das pessoas me permite dizer que, inexplicavelmente, estando em casa, passamos a ficar sem tempo. Nada diferente do que tínhamos antes, pois também não tínhamos tempo. O que mudou é o agente que tem impactado em nossa ocupação do tempo e do espaço.

Antes, era a correria do dia a dia, os percursos que precisávamos percorrer entre uma atividade e outra, era a cronometragem do tempo. Agora não. Temos 24 horas, em casa, para fazermos o que precisa ser feito. Aí deixamos aquela “manha”, tão comum nos fins de semana, tomar conta de todos os nossos dias: amanhã faço isso, depois do almoço faço aquilo, vou cochilar um pouco, quero me levantar mais tarde, depois respondo, vou comer uma bobagem e depois eu almoço… Passamos a administrar a utilização do nosso tempo, só que sem disciplina… Haja tempo para dar conta da nossa vontade própria.

Sinto que esta valorização de coisas às quais não dávamos importância, veio para ficar. Não sei se poderei deixar de fazer tudo isso e voltar, exatamente, ao modo de ser e de fazer as coisas de algum tempo atrás. E isto tem me preocupado, pois daqui a pouco, se Deus quiser, voltaremos a uma certa “normalidade”, o tal do “novo normal”, mas que trará com ele, em algum momento, percursos a serem vencidos entre as atividades, horários a cumprir, compras a fazer, encontros a realizar e, na outra ponta, teremos desejos relacionados a almoços mais calmos, à roda de conversa com a família, à leitura diária de um livro e às gostosas vídeos-chamadas com os netos, os amigos e familiares…

Impressionante como o mundo gira, as coisas acontecem e nos encontramos, sempre, frente a frente com as incertezas que a vida nos traz. Nossa vida sempre à mercê das nossas escolhas. A vida inteira escolhendo entre uma coisa e outra, mas, nada mais salutar que ter a oportunidade de escolher caminhos, de experimentar o novo e, até, de correr riscos. Numa permanente tentativa de fazer as escolhas corretas, sabendo que o Tempo não perdoa quem perde tempo fazendo as escolhas erradas.
Viver é, com certeza, correr riscos, tentar acertar ao máximo, para que a vida tenha mais leveza, mais suavidade, mais alegria, mais encantamento.

Depois de amanhã, dia 2 de novembro, é um daqueles dias em que essa vontade de aprender a administrar bem o tempo bate mais forte. Segunda-feira será um daqueles dias em que somos lembrados da nossa finitude, e da certeza, inevitável, de que precisamos aprender a dividir bem o tempo de que dispomos, para que possamos usufruir, integralmente, desse presente maravilhoso que recebemos: a Vida!

O tempo corre, o tempo é curto; preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver, como se esta minha vida fosse eterna!

• Eugênio é escritor e funcionário da Funec


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Terminamos a semana, ainda, com as muitas notícias sobre o dinheiro encontrado na cueca do senador da república, Chico Rodrigues. Além das muitas brincadeiras feitas com o episódio, muita gente ainda perdeu tempo de, mesmo sem abrir defesa declarada ao senador lambão, tentar explicar que o dinheiro encontrado na cueca dele não era sujo. Sinto muito, mas aquele montante de dinheiro, mesmo tendo em sua composição notas novas de duzentos reais, era e continua sendo sujo.

Antes de qualquer coisa é preciso que se diga que, face aos acontecimentos, é bem provável que o congressista em questão usasse naquele dia uma cueca tamanho super G – vulgo cuecão -, ou então que tenha o bumbum bem desfavorecido – vulgo o “sem-bunda”, o “achatado” -, para conseguir guardar cerca de quinze mil reais em sua retaguarda.

O dinheiro por si só, já é algo sujo, já que as notas passam pelas mãos de várias pessoas e vão acumulando impurezas, bactérias, ao longo de sua circulação. Ah, mas aquelas notas do cuecão eram limpas, inclusive tinham notas novíssimas, de duzentos reais? Sim, mas foram entregues ao senador por alguma mão, depois foram guardadas em algum lugar por outras mãos e, por último, foram retiradas de onde estavam, com as mãos, pelo próprio senador, e colocadas na cueca.

Mesmo imaginando que ninguém, absolutamente ninguém, tenha tocado com as mãos sujas o dinheiro que tenha sido produzido pela Casa da Moeda, o que é praticamente impossível, ao colocar o dinheiro na bunda, o senador sujou o dinheiro. Gente, bunda é uma coisa naturalmente suja, às seis horas da manhã. O senador, no dia anterior, deve ter ficado atendendo seus correligionários, bateu aquele prato de pirarucu desfiado, mais tarde comeu uma caldeirada roraimense e ainda mandou para dentro uma paçoca de banana. Deve ter ido dormir com o bucho cheio e acordou duas vezes em suas poucas horas de sono: uma para ir ao banheiro de madrugada e colocar o processamento daquela comida para fora, e outra às seis horas, com a chegada da polícia federal. Bem, foi na bunda que teve essa performance na madrugada, que ele colocou o dinheiro.

Teve quem dissesse que o senador é muito bem remunerado e que poderia ser considerado, até certo ponto, normal um parlamentar desse naipe ter dinheiro vivo, nessa quantidade, em casa. Verdade, mas o dinheiro dele foi parar na traseira, aquela que é a porta de saída do ex-pirarucu… Ou seja, dinheiro sujo!

Também cheguei a ler coisas do tipo “Qualquer dinheiro que se encontre no momento, na casa de alguém, tem de ser dinheiro sujo? Ele pode ter recebido uma dívida, principalmente dos amigos que nestes tempos hodiernos gostam muito de trabalhar com dinheiro vivo”. Verdade, mas, lembrem-se, o dinheiro foi colocado na porta dos fundos, local de saída do substrato da digestão da caldeirada… Ou seja, dinheiro sujo!

“Ora, ora, este dinheiro pode ter sido colocado ali, simplesmente porque estamos em tempo de pandemia e a maioria dos brasileiros guardou algum dinheiro em espécie para alguma eventualidade. Quem ganha menos, coloca menos, mas quem ganha mais, coloca mais”. Verdade. Mas, não podemos nos esquecer que este dinheiro do senador entrou em contato com o espaço em que está localizado o duto de saída de paçoca de banana processada… Ou seja, dinheiro sujo!

Quem sabe, talvez, este dinheiro não seja o resultado de economias juntadas há meses, advindas da rachadinha – e todo mundo sabe que rachadinha não incomoda muita gente, até porque ninguém foi preso por conta dela. Verdade, pode mesmo. O sujeito recebe um pouco de uma rachadinha aqui, outra rachadinha ali… O problema é que ele colocou o dinheiro no rachadão… Ou seja, dinheiro sujo!

Também teve quem dissesse: “Em vez de falarem sobre esse pequeno desvio, lembrem-se da corrupção do PT”. Bem, independentemente de qualquer coisa, o Senador da República, homem sério, defensor da moralidade e que em seu último discurso disse que “Vamos acabar com a corrupção nesse país”, escondeu mais de trinta mil reais no cuecão, sendo parte do valor encaixado na parte de trás. Ou seja, dinheiro sujo!

Se não é dinheiro da CORRUPÇÃO, é dinheiro da CURRUPÇÃO. Ou seja, é dinheiro sujo!

• Eugênio é escritor e funcionário da Funec


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Quando alguém mora em uma cidade diferente daquela onde moram seus pais, torna-se comum que ela dê um telefonema e diga coisas do tipo “Mãe, coloca água no feijão que eu estou chegando”. Ou, então, se mora na mesma cidade, porém em casa distinta, dá aquela passadinha por lá para tomar um café e saber como é que está a mamãe, o papai, enfim, se todos estão bem. Não importa de onde parta o filho, pois ao chegar, é sempre recebido como se há muito tempo não tivesse estado ali. Uma macarronada, um frango assado, um bolo e, às vezes, um pudim de leite condensado ou um doce de figo com queijo fresco. 

E quando se recebe um telefonema, dizendo? “Fiz uma broa deliciosa, passa aqui para tomar café comigo. Estou com saudades”. Um telefonema deste não tem preço e o seu significado é muito maior, tem muito mais valor que qualquer sabor que a broa e o bolo tenham. 

O interessante, é que é lá, na casa dos pais, que a gente consegue encontrar os irmãos, ver os sobrinhos, rever uma tia que não via há muito tempo. Ela reencontra um vizinho, fica sabendo de algum acontecimento da rua, recebe um convite para um casamento, para uma missa de aniversário, participa de coisas que normalmente não integram sua rotina diária. É que lá, é a casa da mãe, do pai e, de alguma forma, é a casa mais próxima de sua essência. 

Para o que mora em outra cidade, a hora da partida – mesmo com o coração apertado e a saudade doida querendo se transformar em choro -, é sempre um momento de festa, com a turma toda na varanda, na janela, ou na porta da rua, acenando e desejando boa viagem. Toda e qualquer vergonha se dissipa, ao ver as pessoas gritando “Vai com Deus”, às vezes cantando, mas, sempre, carregadas de bons sentimentos, de bons desejos em relação ao viajante e à vida. 

Para aquele que mora na mesma cidade, partir é como se estivesse saindo para uma viagem rápida, sabendo que no outro dia estará de volta, encontrará o mesmo sorriso, dirá “Bênção pai, bênção mãe” e receberá, com muita fé, energia e verdade um gostoso “Deus o abençoe”.

Infelizmente chega o dia em que isso, simplesmente, deixa de existir. Por mais que tenham durado todas essas viagens, as visitas, os abraços, as bênçãos, os cafés e a mesa cheia, é como se tudo tivesse passado rápido demais. De repente a pessoa não tem mais um número para ligar e uma voz da mamãe ou do papai do outro lado da linha para ouvir. Como em um passe de mágica, o seu telefone não toca mais para ser informado de uma guloseima qualquer ou, simplesmente, para lhe dizer que está com saudades e saber se está bem. 

Em um dia qualquer a pessoa passa na rua e é como se não tivesse mais nada a fazer ali. A casa, ou está vazia, ou tem outros moradores. Lá dentro não tem mais aquela broa, aquele queijo fresco, o doce delicioso, o café passado na hora. Lá dentro, não tem mais aquele abraço gostoso, o aconchego esperado, aquele cheiro de mãe… Lá dentro, não tem mais o “Deus o abençoe”, não tem mais o adeus na janela. Por mais que a pessoa queira, depois de a casa ficar vazia, seu mundo nunca mais será o mesmo. Ela encontrará cada vez menos os parentes, ouvirá menos histórias, jamais saboreará novamente a comida que a acompanhou vida afora, jamais fitará os olhos que a viram nascer, crescer e caminhar.

Se você tem um número para ligar, ligue. Se tem uma casa para visitar, visite-a. Porque depois que as janelas se fecharem, por mais que te tragam lembranças, a casa será, apenas, mais uma casa na rua. 

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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Nos últimos tempos, tem sido recorrente ouvirmos comentários destacando uma pretensa “fragilidade” da nossa jovem democracia.

O fato é que, embora jovem, nossa democracia tem resistido bravamente a uma série de eventos, poucas vezes visto em outras democracias ocidentais. Sobreviveu a dois impeachments presidenciais, prisões de ex-presidentes, senadores, deputados, governadores, juízes, empresários…

Assim, a conclusão que chegamos, em que pese todos esses acontecimentos, é que nossa democracia, nada tem de frágil. Embora imperfeita, incapaz de superar as inúmeras contradições de nossa desigual sociedade, a democracia brasileira segue firme.

Todavia, nunca é demais nos mantermos alertas, vigilantes, sempre prontos para defendê-la.

Recentemente, as instituições democráticas brasileiras sofreram poderosos ataques, na tentativa de miná-la, subvertendo-a sob o pretenso argumento de que democracia é o império da vontade da maioria, o que nos remete a um pensamento pueril e superficial. Antes de fazer valer a vontade da maioria, democracia significa respeito às minorias, proteção aos excluídos e marginalizados, evolução constante do processo civilizatório.

Um dos principais baluartes democráticos, garantidor do respeito às leis e dos princípios democráticos, o Judiciário em geral, e o Supremo Tribunal Federal em particular, vem sofrendo poderosos ataques, oriundos dos subterrâneos mais obscuros, mais retrógrados e autoritários de nossa sociedade.

O Judiciário é passível de críticas? Claro que sim. E alguém que atua na área jurídica pode criticá-lo? Claro que sim. Porém, chegamos ao cúmulo de ouvir alguns advogados, bacharéis em direito, propondo o fechamento do Supremo. Mesmo não sendo da área jurídica – sem conhecimento profundo da legislação pertinente, mas estudioso contumaz -, considero absurdo e inimaginável ouvir tamanha barbaridade daquele que jurou, ao tornar-se advogado, “defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado Democrático, os direitos humanos, a justiça social, a boa aplicação das leis…”. Inexistem palavras para expressar o repúdio que tais profissionais são merecedores. É como se o médico fizesse ode à morte, o assistente social à permanência da miséria e o professor ao analfabetismo. 

Nenhuma democracia é perfeita, aliás, nenhum sistema político o é. Mas do alto de sua imperfeição, o regime democrático, com seus contornos e pilares contemporâneos, é o que de melhor a inteligência humana foi capaz de construir até o momento.

Os problemas e as imperfeições do aparelho judiciário devem ser corrigidos pelos próprios meios e modos previstos nas leis e na Constituição. Não é difícil observar que quando as decisões do Supremo agradavam a determinados setores, ávidos em afastar do Poder aqueles que os incomodavam, o Tribunal só recebia elogios. Quando, no entanto, suas decisões passaram a coibir desmandos, impedir retrocessos democráticos e as mais variadas tentativas de subverter os valores reais da miscigenada, plural e diversa sociedade brasileira, o Tribunal e seus membros passaram a sofrer pressões e ataques os mais agressivos.

Nada pode ser pior para o ambiente democrático do que a subversão dos valores intrínsecos e inerentes a esse regime político. Democracia pressupõe coexistência pacífica e harmônica entre posições políticas diversas, buscando sempre a composição de interesses; respeito aos direitos das minorias, da diversidade de ideias, costumes, tradições culturais, e igualdade de gêneros, dentre outros; avanço constante do processo civilizatório e ampliação dos direitos sociais; INDEPENDÊNCIA DOS PODERES E RESPEITO ÀS DECISÕES DO JUDICIÁRIO; IMPRENSA LIVRE E LAICIDADE ESTATAL.

Os ataques que têm sido feitos, nesses tempos recentes, nesses tempos de loucura, visam subverter justamente cada um desses valores! Todos, invariavelmente, todos eles têm sido atacados, na tentativa de instalarmos uma teocracia retrógrada, autoritária e fundamentalista.

Por isso, é importante que resistamos bravamente, façamos valer o que temos de melhor, o que temos de mais valioso: nosso apreço integral à liberdade, duramente conquistada; nosso respeito total à diversidade e a pluralidade e nosso compromisso fundamental com o respeito à nossa Constituição!

Assim, demonstraremos, de forma inquestionável, que nossa democracia é mais forte do que se pensa

• • Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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Você já se deu conta que, em momento algum, Jesus o obriga a segui-lo? Pelo contrário, ele apenas o convida, mas lhe dá o livre arbítrio para escolher. “Quem me serve precisa seguir-me; e, onde estou, o meu servo também estará”. Ora, em todas as passagens do Novo Testamento, vamos encontrar o Jesus que prefere os pobres, os oprimidos, os marginalizados. Os “homens de Deus” e as “puras mulheres” das religiões precisam entender, de uma vez por todas, que Jesus não foi humilhado, escarrado, apedrejado e crucificado por ser santo – como de fato o é -, mas por ser e pensar diferente dos “doutores da lei”, dos “homens fieis e santos”, e por discordar de um pensamento que era dominante na época. 

Jesus andava com ladrões e prostitutas, os acolhia, os perdoava e os ajudava. Ah, mas com essa parte da história e dos ensinamentos de Jesus você não concorda? Então, talvez, seja melhor abandonar o cristianismo e procurar outra coisa para acreditar e cuidar.

Se Jesus estivesse aqui seria socialista? Se assim o fosse, certamente seria crucificado de novo, pelo menos aqui no Brasil, já que para os “entendidos” em ideologias, cá, por essas bandas, socialismo é sinônimo de comunismo, e como comunista come criancinhas… Uma coisa é certa, Jesus não se meteria nessa discussão fútil sobre direita e esquerda, capitalismo e socialismo… Pelo que Ele andou dizendo e está registrado na Bíblia – e é de bom tom que o cristão acredite no que lá está escrito -, certamente Ele iria aprovar o Estado Laico, pois foi assim que respondeu ao questionamento sobre a imposição do pagamento de impostos a Roma: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. 

Em todos os lugares do mundo em que a religião se misturou com a política, o resultado foi – e ainda o é em muitos países – a divisão, a morte e a dor. Não que os políticos não possam professar sua fé, acreditar em um ente supremo e praticar a sua crença, assim como não faz sentido pensar que um religioso não possa se posicionar politicamente, ou gostar ou não de determinado gestor público. Estou falando de não misturar Bíblia com Constituição, porque isso já está mais do que provado, por centenas de anos de História, que não funciona.

O Cristão é um cidadão de dois mundos. O Terreno e o Celestial. Possui obrigações e deveres para com ambos, São dois mundos interligados, mas regidos por normas diferentes, de origem e fundamentos diferentes. São mundos de naturezas diferentes, muito bem demonstrados na própria pessoa de Jesus, ao mesmo tempo humano e divino. E, claro, não devemos nos esquecer nunca que só chegaremos, de fato, ao mundo Celestial, se tivermos uma boa passagem pelo mundo Terreno, amando o próximo – e não pode haver qualquer discriminação acerca de quem é o próximo -, como a nós mesmos. 

O que para mim, porém, está muito claro é que se você não gosta de negro, não gosta de pobre, acha que os ladrões e assassinos deveriam ser exterminados, que as prostitutas deveriam ser presas, que os que possuem orientação sexual diferente da sua queimarão no mármore do inferno, que índio não é gente, que o Brasil devia fechar as fronteiras e expulsar os imigrantes e que os recursos naturais são seus, e que você pode fazer o que quiser com eles, é bom ir arranjando outro deus para seguir, porque o Deus de Javé, o Cristo, o Espírito Santo, Este disse com todas as letras que “Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar”. 

Não, seguir Jesus não é tarefa fácil, a não ser que você faça uma leitura deturpada de suas palavras ou, então, que faça do jeito que achar correto, aqui na terra, e deixe a questão para ser resolvida mais tarde, “Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida que usardes para medir a outros, igualmente medirão a vós”.

• Eugênio Maria Gomes é Escritor e funcionário da Funec


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Chega a ser engraçada a capacidade do ser humano de resolver determinadas situações, “ajeitando” daqui e dali, de tal sorte que a sua zona de conforto seja preservada. E o brasileiro, de uma maneira muito especial, quando não lhe agrada determinada realidade, é mestre em dar um jeitinho de adaptá-la a si próprio, preservando assim o seu magnânimo entendimento de que quem está certo é ele. Isto fica muito claro, por exemplo, quando o assunto é a sua vivência da fé. 

Os católicos romanos, do mundo todo, celebram o homem que ocupa a cadeira de Pedro, não apenas porque entendem que o papa é a mais alta autoridade do catolicismo, mas, principalmente, porque este papa é de fato diferenciado. Ao adotar o nome de Francisco – em homenagem àquele que se despojou de toda vaidade, de toda a riqueza, para viver uma vida de simplicidade -, o atual papa disse logo a que veio: aproximar o fiel do Evangelho de Jesus Cristo, levando a Igreja para além de seus suntuosos templos e palácios, acolhendo os oprimidos, os marginalizados, os pobres, os excluídos, os diferentes…

Pouco tempo após o início do papado de Francisco, escutei de uma católica fervorosa, o seguinte: “Esse papa sim, é dos bons. Que simplicidade, não quis o anel de ouro e dorme no alojamento com outros padres”. De fato, ela estava certa. Francisco é um homem muito simples e o anel a que ela se referiu é o Anel do Pescador, único para cada papa, mas sempre confeccionado com o ouro do anel de seu antecessor. O papa preferiu um anel de prata, mais simples, e tornou-se o primeiro papa a não usar o anel feito a partir do material usado no adorno por todos os seus antecessores. E mais: a ala conservadora da Igreja vive às turras com o pontífice por conta de ele não deixar que os fiéis beijem o seu anel. 

Recentemente, ao falar com essa mesma católica fervorosa, ouvi dela que este papa seria, na verdade, o anticristo. Como assim, perguntei? A resposta soou aos meus ouvidos como algo inacreditável: “Este papa é comunista. Fica defendendo índio, a Amazônia, protege as minorias. Ele defendeu os homossexuais!”. Neste último quesito, o que o papa disse, literalmente, foi: “Pessoas homossexuais têm o direito de estarem na família, e os pais têm o direito de reconhecer essa criança como homossexual. Você não pode jogar fora alguém da família ou tornar a vida impossível para eles.”. Não, ele não é o anticristo. Mas ela está certa: o papa defende mesmo o índio, a cultura, o meio ambiente, o trabalhador, o negro, o pobre, a prostituta, o marginalizado… 

Alguns Católicos, também, estão dizendo que uma carta escrita pelos bispos brasileiros está dividindo a Igreja, e que esses bispos são comunistas. O início da carta, assinada por 152 bispos e arcebispos do Brasil, mostra bem o equívoco no entendimento de parte dos católicos que só aceitam como certo aquilo que lhes convém: “Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo”. 

Três dias depois da publicação desta carta, 1058 padres assinaram um manifesto em apoio aos bispos, ratificando que “O Brasil atravessa um dos momentos mais difíceis de sua História e vive uma “tempestade perfeita”, combinando uma crise sem precedentes na saúde e um avassalador colapso na economia…”.

A questão que se coloca aqui é simples: ninguém é obrigado a gostar do papa, a aprovar a atitude “comunista” dos bispos. Mas, uma coisa é certa: quer ser católico? Quer permanecer na Igreja Católica? Então observe, respeite e acate o que determinam as autoridades eclesiásticas. Mesmo não gostando, guarde em seu coração, reze e evite sair difamando os representantes da sua Igreja. 

Se não conseguir fazer isso, talvez seja melhor procurar algo que se lhe adapte melhor. Algumas doutrinas costumam dizer, apenas, aquilo que gostamos de ouvir, e nem sempre, aquilo que precisamos ouvir…

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Após seis meses de ausência da coluna, aqui estou, de volta aos meus escritos. No final de 2019, ao completar 500 textos publicados no DIÁRIO DE CARATINGA, decidi que seria bom dar uma “parada”, mas, nem de longe, eu poderia imaginar que ela viria envolta por uma pandemia, alterando a rotina da humanidade e ceivando milhares de vidas em todo o mundo. No começo, logo após a interrupção das atividades laborais, loucura total: compra de vários litros de álcool 70; retirada de dinheiro, em espécie, para eventuais emergências; compra de alimentos, em maior quantidade, para estocar; confecção de muitas máscaras, para substituir frequentemente; suspensão provisória da diarista e, até, o isolamento total. Aos poucos, fomos percebendo que os cartões e cheques continuavam valendo; que alguns alimentos venceram a validade sem que pudessem ser usados; que no máximo, duas ou três máscaras eram suficientes para o rodizio; que estocar litros e mais de litros de álcool é perigoso; que a diarista poderia trabalhar, desde de que observados pequenos cuidados com a segurança e que o isolamento total da família, sem encontrar, mesmo que de longe, com filhos e netos, era praticamente impossível de ser efetivado. Muitos migraram do isolamento para o distanciamento social, outros sequer se preocuparam com isso ou não puderam manter tal distanciamento, enquanto alguns simplesmente não acreditaram na virulência do covid-19. Aconteceu, e ainda acontece, de tudo: isolamentos inadequados levaram alguns aos hospitais, assim como o fez a descrença na própria existência do vírus, não obstante as milhares de vidas perdidas, noticiadas diariamente. Para alguns, a ficha somente caiu quando a tristeza rondou o seu entorno. Hoje, podemos afirmar, sem qualquer medo de errar, que cada brasileiro teve notícias de alguém conhecido que tenha perecido ou sofrido muito por conta do tal coronavírus. A pandemia ainda persiste e os que se encontram no “grupo de risco” continuam em isolamento ou, então, mantendo o mais cuidadoso distanciamento social. O que, às vezes, nos parece sem sentido, já que muitas pessoas idosas e portadoras de doenças pré-existentes tornaram-se imunes sem a apresentação de sintomas mais sérios, enquanto outros, jovens, sofreram horrores nas diversas UTIs espalhadas pelo país. Mas, como a maioria dos que morreram, encontravam-se na faixa etária acima dos sessenta anos e, ainda, apresentavam comorbidades, a turma tem acreditado na máxima de que “o seguro morreu de velho”. De certo, o que temos, é que milhares de pessoas passaram ou estão passando, pelos mais tristes momentos de suas vidas. Permaneci por exatos cento e setenta dias em isolamento social. Reformei a minha casa, passei, lavei, cozinhei. Gravei vídeos diariamente, como forma de interagir com as pessoas, de desabafar, de motivar a mim e aos outros. Valeu a pena. Nesse período, arranjei assunto para alguns novos livros: “Reflexões de Uma Quarentena”, em parceria com o sobrinho e psicólogo Caio César; “170 dias de devaneios”, este autoral e “Sons do Silêncio”, projeto literário a ser desenvolvido em parceria com Alim Rocha e Almir Morgado. Como aprendi neste período! Sim, penso mesmo que cresci, que amadureci ainda mais, ratificando os meus cabelos grisalhos e as rugas que teimam em sobressair quando sorrio ou franzo a testa. Prossigo no isolamento social moderado, mas rígido no distanciamento social, até que alguma coisa boa chegue, de vez, para dar o cartão vermelho à esta pandemia. Domingo que vem nos encontraremos aqui, se Deus quiser! … Quero lá, lá, lá, ia, porque eu tô voltando!• Eugênio Maria Gomes – Escritor e funcionário da FunecCharge de ‘Edra Cartunista


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” Vivemos um novo tempo? Ou retornamos as nossas origens, no que realmente somos? 
O substantivo feminino singular da língua portuguesa «pessoa» deriva etimologicamente da palavra latina persona, também, substantivo feminino singular. No uso corrente, pessoa significa indivíduo, “considerado em si mesmo, homem ou mulher, ser humano; personagem; individualidade ou, também, o homem em suas relações com o mundo ou consigo mesmo”. Em outra concepção, a palavra persona significa o mesmo que em grego seria traduzido como máscara.
Como estamos no momento atual de nossa civilização? Quais os efeitos dos novos (ou velhos tempos) em nossas vidas? Qual persona prevalece, qual “máscara”?
Analisar sobre o efeito do novo coronavírus nos remete a refletir sobre o mal estar na civilização. Para Freud se o desenvolvimento da civilização é semelhante ao do individuo, e se usa os mesmos meios, não teríamos o direito de diagnosticar que muitas civilizações, ou épocas culturais, e até mesmo a humanidade, se tornaram neuróticas sob a influência do seu esforço de civilização? Medo, isolamento, refúgio, traumas, culpa, resistência, repressão, regressão. Muitos adjetivos, conceitos e princípios psicanalíticos poderiam ser discutidos aqui. Por diferentes olhares poderíamos pensar e refletir sobre de que maneira caminha a humanidade. 
Mas me detenho a dialogar sobre um olhar mais objetivo e direto sobre alguns aspectos subjetivos de um comportamento social, peculiar, ou seja, a persona do sujeito que escreve, do sujeito que lê e daqueles que cochilam em meio à pandemia. Para Freud a civilização começa com a repressão, ele acrescenta que “nunca dominaremos completamente a natureza, e o nosso organismo corporal, pois ele mesmo parte desta natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira, com limitada capacidade de realização e adaptação”. Pois bem, assim como agora a humanidade passou por momentos de profundas tragédias e momentos de desespero, dentre as várias situações, podemos citar a gripe espanhola com grande semelhança com o estado atual da humanidade. Então daí, deriva as perguntas: novos tempos, ou o retorno dos velhos tempos? O que mudou no passar dos anos, qual o efeito para essa nova geração? 
Arrisco-me a dizer, que é possível nos dividir em quatro grupos distintos de persona que vivenciam o “atual” da humanidade. Os que se enquadram nos grupos de Esquiva ao Dano, que tendem a inibição de um comportamento em respostas a sinais de punições ou frustrações. Esses procuram se proteger, evitar o contato, seguir aos princípios da preservação da vida, principalmente da sua vida. Demonstram pessimismo, medo, fragilidade e pouca energia, munem-se de alguns mecanismos como o deslocamento e transferência. 
O segundo grupo, penso, seria o da Busca por Novidades, comportamento exploratório frente às novidades. É impulsivo, busca a excitação, evita o isolamento. Sente-se empoderado , é irritável, extravagante. Diante do perigo, coloca-se sempre fora do grupo de risco, justifica-se ao pensar que o risco é especificamente para um pequeno grupo pelo qual não se encaixa. Assim, demonstra-se egoísta, provocador, perverso e com tendências antissociais. 
O terceiro grupo estaria ligado ao de Dependência por Gratificação, busca uma ação que lhe permite a manutenção de um comportamento em resposta a sinais de recompensa social. É sentimental, aberto, caloroso e afetuoso. Suas ações implicam em promover ações de partilha, de ajuda, de trabalho. No contexto atual, permanecem afastados, ou saindo porque tem que ganhar o pão. De certa forma buscam interagir e promover laços, como as campanhas de ajuda pelas redes sociais, “Live” entre outras ações. Nesse caso, objetiva-se sempre a recompensa.
Já o quarto grupo, diria ser o da Persistência, da Manutenção de um comportamento indiferente de frustração, indiferente a fadiga ou reforçadores intermitentes (gratificações). Sua característica mais comum é o empenho, determinação e certo grau de perfeccionismo. Esse é um grupo “seleto” os que nesse momento estão no campo de batalha, que mostram a cara (mas de máscara). 
Se para Freud a Civilização começa na repressão e se essa mesma civilização produz no sujeito a neurose, então é possível evidenciar nesses diferentes grupos, sujeitos e seus respectivos sintomas. Esse vírus ameaçador e invisível, paradoxalmente nos torna visível, transparecendo nossas características perversas, ou histéricas, paranoicos, em pânicos, abandonados, bipolares. Por outro lado nos permite depararmos com nossa humanidade, abandonar por determinado tempo o sentimento “narcísico”, em que, colocando a “máscara”, nos permite ver como iguais. Essa máscara permite de certa forma nos colocar no mesmo patamar, sem diferenças de credo, de cor, de condições sociais, no mesmo cenário. 
Bom, para terminar você pode me perguntar: então Marco Antonio, e agora o que farei com o que me tornei? Com o que sou? Eu te responderia evocando o filósofo Jean Paul Sartre: O que importa é o que você fará a partir de agora.”
autor Marco Antonio
fonte https://www.facebook.com/marcoantoniomag/posts/1525274904320957


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No ano de 1995 eu já havia retornado a Caratinga e trabalhava então na Viação Riodoce. Lembro-me, perfeitamente, de ter às mãos a primeira edição do jornal DIÁRIO DO AÇO CARATINGA. Confesso, achei pouco provável que a ideia vingasse. É muito difícil manter um jornal circulando, todos os dias, em uma cidade do porte de Caratinga. Alias, outros já haviam tentado, mas acabaram sucumbindo às dificuldades econômicas e ao pouco gosto pela leitura, comuns à maioria das pessoas, naquela época. 

Eu costumo dizer que a Vera do Diário é muito mais que uma mulher empreendedora, ela é dedicada, persistente, uma heroína da comunicação impressa em nosso estado. Quando penso que completei quinhentos textos publicados, semanalmente e, às vezes, quinzenalmente, consigo entender a grandeza da produção de notícias, todos os dias, em várias páginas de um jornal. Escrever, não é algo fácil. E escrever, com constância e imparcialidade, é muito mais difícil ainda. 

Um grande desafio do jornal tem sido fazer com que o leitor busque pela boa informação. É que a Internet, essa mídia considerada terra de ninguém, acabou se transformando em um espaço onde as pessoas escrevem qualquer coisa e, muitas vezes, sem qualquer responsabilidade. E o que é pior: um espaço onde reina, de forma livre e relativamente absoluta, a impunidade. A respeito dessa impunidade, busco mais uma vez na memória o editorial da “Gazeta Digital”, de fevereiro de 2016, onde está registrado o seguinte: “Os criminosos invadem sistemas e programas de computadores no Brasil sem o menor receio, fazem vítimas, destroem indivíduos e famílias inteiras a todo instante porque confiam que seus crimes não serão descobertos. Afinal, sabem muito bem que na contramão da velocidade virtual, trota sobre a velha carroça, a legislação brasileira!”. 

E o DIÁRIO DE CARATINGA tem conseguido contrapor-se a essa propagação da má informação, exatamente através da internet, já que, além do jornal impresso, diariamente o leitor pode ter acesso ao mesmo jornal, com todos os seus mínimos detalhes, na própria Internet. Basta você acessar o seu site e você tem o jornal nas mais diversas mídias digitais. Mas, acredite, não tem sido tarefa das mais fáceis, pois não basta, apenas, lançar a boa informação na internet, é preciso que as pessoas queiram acessá-la. Aí esbarramos em um problema estrutural do país, cuja solução parece cada vez mais distante: a Educação, o gosto pela leitura e a capacidade de discernimento do que é certo e errado na notícia. 

O jornal DIÁRIO DE CARATINGA guarda, em seus arquivos, uma cópia de cada edição destes 25 anos de existência. Se o leitor pudesse manusear este importante registro histórico, perceberia que a própria história do município e a de suas principais personagens estão devidamente registradas em suas páginas. E mais: quando você pega um exemplar do jornal, em uma manhã qualquer, você vai perceber que são várias as pessoas envolvidas na ação de levar informação ao leitor. São jornalistas, colunistas, editores, diagramadores, fotógrafos, diretoria e pessoal de apoio, enfim, uma plêiade de pessoas dedicando seu tempo e empregando seus esforços para que o leitor tenha a boa comunicação em mãos. 

Neste dia 21 de março de 2020, ao completar 25 anos de existência, não poderia deixar de agradecer ao jornal, seus diretores, funcionários, chargistas, ilustradores e colaboradores, por essa proeza, qual seja, a de nos brindar, diariamente, com informação de qualidade e de elevada confiabilidade. 

Parabéns DIÁRIO DE CARATINGA. Feliz aniversário! 

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec. 


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•Texto nº 500 – publicado no DIÁRIO, em 08/3/2020.

“Batidas na porta da frente… É o Tempo”.

O Tempo. Essa poderosa grandeza física, que reduzido a um conceito mais familiar à percepção humana comum, nos permite dividir nossa existência em três dimensões lineares: o passado, o presente e o futuro.

Hoje, o Tempo veio me lembrar que, há cerca de onze anos, eu escrevia meu primeiro artigo. Hoje, também, o Tempo veio me lembrar que completo quinhentos artigos publicados. 
Quinhentas mensagens transmitidas. Em cada uma delas, espelhei um pouco de mim. Um pouco do que penso, um pouco do que desejo. Um pouco do que vejo, do que sinto. Um pouco do que me atemoriza, do que me alegra, do que me entristece…

Em cada artigo que escrevi, abordei os mais diversos e variados assuntos. Sempre buscando contribuir, ainda que de forma tímida e subliminar, para a evolução moral, política e espiritual dos meus leitores. Às vezes, devo ter sido ácido. Outras vezes, fui suave, romântico, sereno. Poucas vezes fui raivoso, demasiado crítico ou excessivamente áspero. Mas sempre, invariavelmente sempre, reservei um parágrafo para fazer uma profissão de fé na possibilidade de construirmos, juntos, um futuro melhor, uma sociedade mais justa, um país mais digno e um mundo mais harmonioso.

“…Num dia azul de verão, sinto o vento. Há folhas no meu coração… É o Tempo”.

O Tempo. Ele veio me lembrar do “Zé Simples” e da importância de valorizarmos as “Pequenas Coisas da Vida”, aquelas que realmente importam e que nos fazem verdadeiramente felizes. Para isso, precisamos tomar consciência de que “Menos é Mais”, que não devemos “Atirar a Primeira Pedra” e que a solução das nossas diferenças pode ser encontrada com “Vinho, Educação e uma Boa Conversa”.

O Tempo. Ele veio me lembrar que não podemos nos transformar em “Prisioneiros de um Mundo Irreal”, que não se pode ter “Vergonha de Ser Honesto”, que as “Noites Traiçoeiras” passarão, e que a Verdade, sempre sairá do Poço.

“… O Tempo zomba de mim… Do quanto eu chorei…Ele sabe passar, eu não sei…”.

Entristeci-me com a “Política”. Chorei com “A Noite de São Bartolomeu”, tremi com o “Pesadelo”. Em cada um desses artigos, expressei meu profundo descontentamento com a maneira que nossos líderes conduziram e conduzem nosso País. Utilizando-se dos seus cargos para proveito próprio, apartando-se da “Ética e da Moral”, buscando o Poder como um valor em si mesmo, sendo lenientes com a corrupção e esquecendo as mais elementares necessidades do nosso Povo, esquecendo “Onde Dormem as Pessoas Marrons”.

Constatei, com profundo pesar na alma, que muito da mensagem do Cristo foi desvirtuada, que a palavra sagrada, retirada de seu contexto, passou a servir de fundamento para a substituição do Perdão pela Vingança, da União pelo Sectarismo, do Amor incondicional pela Cólera dos discursos de Ódio daqueles que esqueceram que “Com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós”.

Muitas vezes, com lágrimas nos olhos, lembrei da necessidade de preservarmos o meio ambiente. Das queimadas na Amazônia ao lamaçal da Baía de Guanabara, de Brumadinho ao Rio Caratinga, tentei mostrar a todos que “Uma hora a Conta Chega”, e que é preciso “Saber Viver” sob pena de “Não haver Amanhã”.

“…Recordo um Amor que perdi. O Tempo ri…Diz que somos iguais. Se eu notei. Pois não sabe ficar … E Eu também não sei…”.

Falei de Amores. Do mais nobre dos sentimentos. Da conquista, da perda, da reconquista. Do prazer de “apaixonar-se novamente pela mesma pessoa”, e que sempre e sempre “O Amor Vale a Pena” e que mesmo se um dia o Tempo, esse temível predador de sentimentos, apagar o Amor, “eu vou ficar guardado no seu coração, e nas noites frias, na solidão, a saudade vai chamar meu nome. Eu estarei guardado no seu coração, num verso triste de paixão, no toque de seu telefone”.

Falei de filhos, para quem deixarei uma herança de esperança, integridade, alegria e profundo Amor. Falei de netos, meu verdadeiro tesouro, e a certeza de que uma parte de mim continuará a existir nesse plano físico.

Falei de Família, da necessidade de conciliarmos nossos afazeres, nossos compromissos, com a indispensável convivência familiar, com o cuidado e o carinho para com os pais, filhos, netos, irmãos, sobrinhos. A Família, esse porto seguro, que uma vez cultivada, nos permitirá “Envelhecer com Alegria”.

“…O tempo se rói com inveja de mim… Me vigia querendo aprender, como eu morro de Amor, e assim, reviver…”

Por tudo que escrevi, sobre tudo que falei, conquistei muitos amigos. Toquei-lhes, ora o coração, ora a consciência. Algumas vezes, consegui expressar em palavras escritas, o que muitos gostariam de dizer. Fiz das deles, as minhas palavras, e eles, fizeram das minhas, as suas mensagens. Dei-lhes vez e dei-lhes voz, através do que Eu escrevia, e embora no anonimato, muitos deles se sentiram ouvidos, muitos entenderam que “A Selva de Pedras também tem serpentes”…

Inimigos? Talvez alguns. Às vezes, dizemos aquilo que não se deseja ouvir. Às vezes, mostramos aquilo que não se quer ver, inclusive que “Beijamos o beijo de Judas, todos os dias”. O Tempo me lembra que cada um tem seu momento, que muitos ainda se encontram perdidos entre um passado infeliz e um presente medíocre, e que se não perceberem que precisam exorcizar seus pecados, corrigir seus desvios de caráter e conter sua “Inveja” estarão condenados a um triste Futuro, pois somos o “Resultado de nossas Escolhas”. Não lhes desejo o “Inferno de Dante”, descrito na “Divina Comédia”. Desejo-lhes que encontrem “Paz de Espírito”.

O Tempo. O Tempo me lembra que “Sou um Escritor em Construção”. Não sou um escritor estático. Assim como a vida, Eu vivo em “constante mutação”. Minhas opiniões podem mudar, meu modo de ver o mundo pode mudar. Essa “Metamorfose” é própria do ser humano e demonstra, tão somente, que trilhamos nossa jornada, que moldamos nosso futuro a cada passo dado, e que a todo o momento, deixamos de ser a mesma pessoa, e que invariavelmente, “O Novo Sempre Vem”.

O que permaneceu constante, porém, e que permanecerá assim, para sempre, é meu profundo compromisso com o Bem, o Bom, o Certo e o Justo. Que nunca me deixei seduzir pelo “canto de sereia” dos “falsos profetas” e que permaneço íntegro em minha Fé no Deus do Amor e do Perdão. Na crença incondicional de que todos nós somos iguais. De que a Democracia e os valores da Liberdade, da Pluralidade e do respeito recíproco são os únicos compromissos capazes de resolver, sem violência, os imensos desafios que nos esperam. Que o “Ser” é infinitamente mais importante que o “Ter”. Que o Criador tem muitas faces e que seu lar tem muitas moradas. Que é possível construirmos um mundo melhor para os que virão e que a glória da criação reside na diversidade de suas formas, e na maneira como as nossas diferenças se combinam, formando esse maravilhoso mosaico de cores, de tons, de sons, de opiniões, de mistério e de beleza. “Mosaico de Vidas!”.

“… Respondo que ele aprisiona, Eu liberto. Que ele adormece as paixões, Eu desperto”.

E assim lá vou Eu. Sempre em frente. Errando, acertando. Caindo, levantando. Caminhando, cantando. Trilhando meu caminho. Minha paixão pela vida, expressa em minha paixão pela Literatura, me impulsiona a cada manha. Não cedo às amarras do Tempo, tripudio com ele. Escapo de suas garras a cada obra que termino, a cada frase que escrevo. Assim como Cora Coralina, “Não sei… se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas”.

“… O Tempo é uma eterna criança, que não soube amadurecer. Eu posso, mas ele não vai poder me esquecer…”

O Tempo insiste em lembrar, todas as vezes que chorei. Por não ter sido compreendido, por ter falhado em minhas mensagens, por ter magoado alguém querido. Respondo-lhe que também sorri muitas vezes. Porque disse o que queria dizer, porque mesmo sem saber, ajudei alguém a superar uma dor, porque chamei a atenção de todos para um assunto importante. Lembro ao Tempo que chorar e sorrir fazem parte da vida. E que o importante é “que emoções eu vivi”!

Esta, então, é a minha resposta ao Tempo.

Ele passa, e passará para sempre.

Assim como “Todos esses que aí estão. Atravancando meu caminho. Eles passarão… Eu passarinho!”.

•Eugênio Maria Gomes é Escritor e funcionário da Funec. 
* Inspirado na música “Resposta ao Tempo” de Aldir Blanc e Cristóvão Bastos, brilhantemente interpretada por Nana Caymmi.


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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 01/03/20

É impressionante como permitimos que uma parte significativa de nossa curta existência seja consumida por coisas tão pequenas, tão desprovidas de significado. Se pensarmos bem, passamos a maior parte do nosso tempo, envolvidos com problemas familiares, insatisfação profissional, desgaste nas relações amorosas, desentendimentos sociais e os infindáveis boletos a pagar. Enfim, estes são alguns dos “problemas” que costumam consumir o nosso tempo e energia, a ponto de nos tirar o bom humor, o apetite, o sono e, em alguns casos extremos, a vontade de viver. 

Quando se consegue entender que problemas existem para serem resolvidos e que, quando chegam naquele ponto em que não há solução, solucionados estarão, passamos a ter mais tranquilidade para tentar colocar ordem na casa e encontrar caminhos que facilitem uma possível reorganização da vida.

Há noites em que o sono vai embora e você fica pensando como fará no dia seguinte. É como se quiséssemos que a noite durasse mais tempo, o suficiente para que as soluções pudessem surgir com o nascer do sol. Não é bem assim. Por mais difícil que pareça, nada é melhor do que uma boa noite de sono para que encontremos as soluções para as questões que costumam nos assolar, rotineiramente. 

Minha avó sempre dizia que apenas para a morte não existia solução, mas que, mesmo assim, só não existia para nós, porque para o morto a solução era a melhor possível. Ela dizia isso referindo-se à vida Eterna. De fato, qualquer problema se apequena, quando confrontado com a morte, com a possibilidade real da perda de alguém. Escrevo este texto em plena terça-feira de carnaval. No meio da folia, de tantos motivos de alegria para alguns, e de preocupações para outros, algumas pessoas choram a dor da perda de entes queridos. Também a morte, não deixa de ser uma oportunidade de reflexão para todos nós: não sabemos quando será a nossa hora, mas temos a certeza de que ela chegará. Portanto, a dor acaba por se tornar um bom momento para que façamos um balanço, uma verificação de como estamos tocando a vida por aqui, se não estamos nos preocupando demais com bobagens, valorizando o que não importa, deixando de viver a nossa vida para viver a vida dos outros, gastando energia demais apenas para acumular bens materiais. 

A vida não pode ser reduzida a um constante turbilhão de problemas e uma infinidade de boletos a pagar…

Não que problemas não existam, ou que contas deixem de chegar mês a mês. O que ocorre é que se passamos a maior parte do nosso tempo apenas dando conta disso, algo está errado, estamos conduzindo nossas vidas de forma equivocada, estamos fazendo as escolhas erradas…
Por que de tantos problemas?

Será que estamos com problemas familiares porque nos esquecemos de respeitar o espaço do outro, esquecemos que, embora unidos por laços de sangue, somos seres diferentes, com opiniões diferentes, com visões de mundo diferentes?

Será que nossas relações amorosas se desgastaram porque não as cultivamos, porque não fomos leais, porque deixamos que a rotina apagasse a chama da paixão, porque sucumbimos às tentações passageiras e efêmeras em detrimento do amor verdadeiro, seguro, tranquilo e duradouro?

Será que nossa insatisfação profissional não reside no fato de que trabalhamos naquilo que não gostamos e que não nos satisfaz, e não fomos capazes de conciliar a necessidade salarial com nossa inclinação vocacional?

Será que nossos desentendimentos com amigos e colegas não são fruto de nosso egoísmo, de nossa falta de empatia, de nossa necessidade de competição, de nossa inveja, de nosso rancor, de nossa dificuldade de perdoar as inúmeras imperfeições humanas?

Por que de tantos boletos?

Será que todas as contas que temos a pagar são, verdadeiramente, necessárias? Será que todos os bens que adquirimos e todos os serviços que consumimos, genuinamente, se traduziram em utilidades indispensáveis às nossas vidas e à nossa felicidade? 

Ou será que tantos boletos representam apenas nosso consumismo, nossa mania de acumular bens e coisas pouco úteis ou necessárias?

Ou será então que todos esses boletos representam apenas a necessidade pueril e egocêntrica de ostentarmos um status que não possuímos, no afã de demonstrar para o outro o quanto “temos” ao invés de investirmos nosso tempo no quanto “somos”?

Talvez, tantos problemas e tantos boletos representem, infelizmente, que esquecemos o verdadeiro sentido da vida: Ser Feliz!

Hipotecamos nossa Felicidade em troca de prazeres passageiros, de coisas inúteis, de relações vazias, de amizades superficiais, de empregos monótonos.

Hipotecamos nossa Felicidade, tornando-nos amargos e rabugentos em troca de boletos… Intermináveis boletos…

Erramos. Mas ainda há tempo. E tudo tem solução. Ainda podemos rever nossas vidas, repensarmos nossas escolhas, mudarmos nosso destino. O futuro pode ser diferente, nosso livro da vida ainda não chegou ao epílogo.

Então, mãos à obra, pois a vida precisa ser mais do que pagar boletos!

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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*Publicado no DIARIO DE CARATINGA, em 23/2/20

Em nosso último texto, falamos sobre a Efemeridade do Ter e o terminamos com a seguinte pergunta: o que leva algumas pessoas a se manterem amigas e fieis, independentemente do que você é capaz de fazer por elas? Pois bem, hoje tentaremos abordar este tema, bem na linha dos versos de Cecília Meireles: “Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que, simplesmente, aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre”. 

Nossa poetisa diferencia as pessoas que deixam marcas em nossas vidas, daquelas cujas jornadas se cruzam com a nossa, em um ou outro momento, mas que rapidamente são lançadas ao esquecimento. Porém, aqui, importa falar naquelas que nos marcam positivamente. Aquelas que permanecem ao nosso lado, sem qualquer relação com o que se tenha, ou o que se possa oferecer a elas de vantagens pessoais. Estabelecemos com elas, um tipo de elo, de vínculo permanente, parecendo que estamos unidos por algo invisível, maior que nossa posição social, ou o patrimônio que ostentamos.

Assim que publiquei o texto, recebi comentários muito interessantes, a exemplo do enviado pelo irmão de Ordem, lá de Volta Redonda, José Ivo, que registrou o seguinte: “Bacana. Esse Eu Gênio é porreta mesmo. Se eu tivesse a capacidade de articular uma crônica, seria como a dele. Já passei por algo semelhante e também me faço a pergunta do porquê desse remanescente de amigos permanecerem comigo. Já não tenho nada de material ac. Só posso contribuir com minha solidariedade e amizade sincera. Só sei de uma coisa, esses amigos que restaram após eu deixar de TER, completam minha vida nesse crepúsculo existencial. Um dia ainda terei o prazer de apertar a mão desse Gênio”. 

Agradecido pelo carinho do irmão, espero um dia apertar-lhe a mão e, quem sabe, passar a ganhar mais um verdadeiro amigo. Pessoas que oferecem a solidariedade e a amizade sincera TÊM muito mais do que imaginam possuir. É justamente sobre os amigos aos quais se refere o José Ivo que eu tento, ainda sem sucesso, explicar neste texto. E você, caro leitor, tem amigos assim? Daqueles que, antes de qualquer julgamento, te oferecem apoio, acolhida e um ombro como amparo? É certo que sim, mas, provavelmente, não os tem em grande quantidade. Sim, amigos verdadeiros são raros e podem ser contados em alguns dedos das mãos. Mas, eles existem, por isso precisam ser cuidados, cultivados e regados com atenção, carinho, respeito e gratidão.

Este tipo de amigo é como uma peça rara, daquelas cujo valor vai muito além de sua composição e de sua aparência. O coração de um amigo assim é como se fosse um relicário, guardando coisas valiosas e provocando emoções a cada vez que é aberto. 

Não seriam a doação de um e a receptividade do outro as responsáveis pela existência dessa amizade duradoura, que sobrevive à distância e ao TER? O que uniria duas pessoas permanentemente, sem qualquer interesse recíproco senão o prazer e a alegria de compartilharem momentos de alegria, de tristeza, de sucesso e de derrota, de dor e de êxtase, de paz e de agonia? 

Não é fácil explicar a amizade verdadeira. 

Assim como não é fácil explicar o Amor. Esse sentimento tão nobre, que contraria a razão, a lógica, ignora barreiras e dificuldades, tripudia com a distância e resiste até à crueldade do Tempo.

Sim. Amizade verdadeira é Amor.

“É o Amor sem asas” mencionado pelo poeta inglês Lord Byron, na mais eloqüente descrição desse sentimento tão nobre que une pessoas diferentes, com vidas diferentes, mas cujas almas comungam naquilo que as une, naquilo que se completam.

Amigos verdadeiros são tão raros quanto o são os amores verdadeiros. Amigos que passam, que se perdem no passado, que não deixam saudades, são como “amores de verão”…

A Amizade verdadeira é aquela que nos acompanha para sempre, mesmo que estejamos fisicamente distantes. Amigos verdadeiros estão sempre juntos, embora nem sempre perto. Não se pode explicar o motivo porque permanecem em nossas vidas e nós permanecemos na deles. Apenas acontece…

E esse acontecimento…É maravilhoso!

Então, concluo que não há como explicar a amizade verdadeira. Até porque, se soubesse explicar, não seria mesmo uma amizade de verdade, pois assim como o Amor, a Amizade verdadeira foge de todas as explicações possíveis… (Carlos Drumond de Andrade).

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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*Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA EM 15/2/20

Em 1981, logo após o término da graduação em Engenharia, dei início à minha vida profissional em Volta Redonda. Fui trabalhar em uma empresa de recuperação de metálicos e manutenção de alto forno. Em três meses estava promovido para coordenar a unidade de Recife – polo regional -, com outras duas unidades no Nordeste. 
Diariamente, pela manhã, eu era levado por um motorista ao trabalho e, ao final do dia, de volta à minha casa. Semanalmente, era transportado para o aeroporto, por conta de visitas às filiais. Minha mala era carregada e o motorista abria a porta para mim. Cada vez que chegava a um aeroporto da cidade onde havia uma filial, um funcionário, com uma placa na mão onde se lia “doutor Eugênio” (sim, naquela época eu ainda não havia concluído o doutoramento, mas engenheiro era considerado “doutor”), me aguardava e me conduzia à empresa, ao hotel, ao restaurante. 

Minha casa em Recife era sempre muito frequentada por funcionários e “amigos” e, eu e minha esposa, tínhamos de nos desdobrar para atender aos muitos convites para almoços nos fins de semana, em casas de veraneios, nas melhores praias da região, de propriedade de diretores, de “amigos” e colegas de trabalho. 

Passados seis anos, resolvemos mudar de ares e nos mudamos para Juiz de Fora. Entre mudar de empresa e de cidade, foram ainda mais trinta dias em Recife, embalando móveis e já sem convites para um fim de semana mais interessante. Os “amigos”, repentinamente, sumiram; os colegas de trabalho já estavam com a atenção voltada para o novo gerente e lembro-me, como se fosse hoje, da dificuldade de carregar tantas malas, sozinho, de casa até o táxi e, dele, ao terminal do aeroporto de Guararapes, no momento da partida. Despedimo-nos da Dora, uma amiga de verdade e, aquele momento, talvez tenha sido, de fato, a minha primeira experiência sobre a transitoriedade do “Ter”. 

Em Juiz de Fora, depois de alguns meses em outra filial, fui convidado a compor o quadro de funcionários da Siderúrgica Mendes Júnior. Assumi a função de “Gerente de Operações Especiais”, dentro da Superintendência de Metálicos. O título do cargo parecia referir-se à polícia ou a uma agência de espionagem. Mas não, era uma área voltada ao desmanche de ferrovias, navios, plataformas, com vistas ao abastecimento de matéria prima para a produção de aço. Tínhamos vários “entrepostos” na região Sudeste, de onde fazíamos o transbordo da sucata para a matriz, em Juiz de Fora. Toda a equipe destas filiais estava subordinada à minha área. Mais uma vez, sempre alguém carregando minha mala, abrindo a porta do carro para mim e nos convidando para almoços e jantares. 

Minha casa em Juiz de Fora, localizada em uma das esquinas da Avenida Rio Branco, estava sempre cheia. Sempre gostei – e ainda gosto muito – de receber pessoas, de um bom papo, de boa música e da alegria que este tipo de encontro proporciona. Foram alguns anos de muita prosperidade e muita “amizade”, até que chegou a “crise do aço”, nos idos de 1990, e a empresa foi vendida e os seus funcionários demitidos. Tentamos a permanência na cidade por uns seis meses, até que resolvemos nos mudar para Caratinga, já no ano de 1991. Mais uma vez, o “isolamento social” aconteceu, os “amigos” sumiram, os encontros festivos desapareceram e nos despedimos de Juiz de Fora através do fraterno e sincero abraço de amigos como Sonia Bellém, Maria Célia Junqueira e Valdir Lino, daqueles que, assim como a Dora de Recife, valorizavam de fato o “Ser”. 

Não! Este não é nenhum texto lamurioso ou de registro de tristes ocorrências, mas, tão somente, a constatação de que, infelizmente, nesta má construída sociedade em que vivemos o homem ainda vale, para a maioria das pessoas, pelo o que ele tem, por sua capacidade de atender e beneficiar ao outro, a despeito do que ele é. 

Hoje, com os pés no chão, depois de ter passado por outras situações, inclusive em Caratinga, nas quais ocupei cargos e posições importantes, sei exatamente a extensão do meu valor. Por isso, consigo enxergar os colegas, consigo identificar os interesseiros e reconhecer os verdadeiros amigos. E acredite: amigos verdadeiros podem ser contados, de fato, em poucos dedos. Aprendi, também, o quanto é importante que Eu, apenas Eu, mesmo tendo quem o faça por mim, carregue sempre a minha própria mala e abra sempre, Eu mesmo, a porta do carro. 

Acredito que numa conta assim bem por alto, podemos dizer que, de cinquenta “amigos”, assim que se rompe o frágil elo baseado apenas em qualquer tipo de relação de poder, apenas uns cinco manterão os laços de amizade. É fácil entender o que acontece com os outros quarenta e cinco: como os laços de trabalho terminam, os interesses pessoais acabam e as pessoas, então, se afastam de nós e, às vezes, nós mesmos nos afastamos delas. Porém, o que eu gostaria mesmo de saber é o porquê de esses cinco permanecerem… O que os leva a se manterem amigos e fieis, independentemente do que você é capaz de fazer por eles? Bem, isso é assunto para outra crônica…

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.
*Charge do ‘Edra 


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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 11/2/20

Não foram, apenas, quatorze anos de vida. Foram quatorze anos de bênçãos, de um tempo mais que precioso, de vida compartilhada com seus familiares e amigos. Vida de gente boa, vida de anjo. Vida intensa, latente, daquelas que transformam tristeza em alegria, lágrimas em sorrisos, apatia em energia, vontade de sucumbir em motivação para recomeçar. João Henrique foi, entre nós, um anjo sem asas. Sua existência nos faz entender todo o significado de nossa passagem por aqui. 

Eu tive a oportunidade de me encontrar com João algumas vezes, nos eventos do Lions e nos corredores da escola. Em todas elas, com ou sem algum movimento, às vezes apenas com um leve sorriso e, na maioria das vezes, apenas através da serenidade de seu semblante, o anjinho me dizia coisas do tipo “está reclamando de quê?” e “você pode viver mais e melhor”. Através de suas limitações, João nos ensinava o tempo todo para termos cuidado e não nos tornássemos prisioneiros da nossa liberdade, escravos da nossa capacidade de locomoção. Era como se dissesse “você pode. Tome as rédeas de sua vida e repense as suas ações, as suas escolhas”. Aquele anjo, cada vez que se encontrava conosco, praticamente inerte em sua amiga e companheira “cadeira”, parecia repetir o pensamento de José Saramago: “A vida é uma aprendizagem diária. Afasto-me do caos e sigo um simples pensamento: quanto mais simples, melhor!”

João não ia. Era levado. João não andava. Era carregado. E aqui reside toda a grandeza do amor de uma família por um Ser tão especial. João jamais foi “escondido”, a pretexto de preservar sua privacidade. Pelo contrário, João conviveu com todos, fez coisas do arco da velha, andou de barco e montou a cavalo e teve quantos dias felizes foram possíveis, através das mãos de seus avós, pais, tios, professores e cuidadores. João teve uma família abençoada e, por isso, conseguiu abençoar a todos nós através de sua presença em nosso meio. 

A presença daquele doce menino, sua quase inércia física, imposta pelas inexplicáveis vicissitudes da existência humana, parecia nos mostrar, de forma clara e direta, como somos ingratos e orgulhosos. Como sucumbimos facilmente diante de adversidades superáveis e passageiras, como nos vitimizamos, deixando-nos entorpecer por sentimentos de autopiedade, de autocomiseração, nos privando, assim, a nós mesmos, de desfrutar do privilégio da vida que nos foi concedido. 

É estranho que mesmo com a grande dor da perda física, não dê para falar do João com tristeza. Este sentimento que todos sentimos nesta hora, como se fosse um aperto no peito, é fruto maior da pena que sentimos de nós mesmos, pela falta que sentiremos dele do que propriamente por sua partida. Nosso tempo é de agradecimento, pela oportunidade que tivemos de conviver com um anjo tão perto de nós, cuja permanência aqui, acredito, foi até postergada, quem sabe para que aprendêssemos mais, para que pudéssemos evoluir um pouco mais. 

Ah garoto, como aprendemos com você! Obrigado por sua presença nestas paragens. Agora, chegou o momento de colher os frutos, de se deixar voltar ao ponto de partida. O bom filho a casa torna! Reintegra-se ao Eterno! Sentiremos saudades, sua família e seus amigos sentirão a sua ausência, mas a lembrança de sua pureza, a mensagem de otimismo que nos deixou e sua angelical presença entre nós serão instrumentos a massagear nossas almas e nossos corações. 

E, “Embora a saudade doa como um barco, que insiste em descrever um arco, evitando, assim, atracar no cais”, a certeza de sua permanência no firmamento, a iluminar todos aqueles que buscam pela compreensão de que o Tempo é relativo, de que momentos podem ser eternos, e de que a grandeza da alma pode superar a pequenez do corpo, atenua o sofrimento imposto pela ausência do físico, porém, olhando para o céu, poderemos sempre ver o brilho de sua estrela…

Porque hoje nasce uma estrela! Porque hoje você é uma estrela…

Brilhe em Paz João Henrique! 

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec. 


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*Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, de 09/02/2020

No começo eram apenas rios, cachoeiras, matas, planícies, montanhas, água de boa qualidade, ar puro e bichos. Praticamente de todas as espécies, menos uma, aquela que chegaria para “botar fogo no parquinho” e transformar a perfeita harmonia existente entre a terra, a água e o ar. De repetente, chegou a mais predadora de todas as espécies animais, conhecida como bicho-homem. Ele foi ocupando o Norte, o Sul, o Leste, o Oeste… 

Se o rio incomoda, muda-se o seu curso. Não gosta daquela montanha, basta removê-la. Para quê tanto espaço para um córrego, se o melhor era fixar moradia às suas margens? Ah, mas se o córrego atrapalha… Canaliza-o! E assim o homem foi tomando conta, assumindo o seu papel de “dono”, de “chefe” de algo que não lhe pertencia. 

Mas era pouco, apenas, mexer na parte física do meio ambiente. Depois de derrubar a árvore, seria bom queimá-la, transformá-la em carvão, movimentar máquinas e colorir o azul do céu com um pouco de fuligem. Máquinas produzem resíduos, mas para que servem os rios? Basta jogar na água que a sujeira vai embora rapidinho. Agora, com as encostas devastadas fica mais fácil construir casas e prédios com vistas privilegiadas! 

Fura daqui, fura dali, e o homem descobriu o petróleo! Com ele, desenvolveu combustíveis, plásticos, asfaltos e o gás. Passou a movimentar mais máquinas, a se transportar com mais facilidade, a transformar o dia em noite, a ter mais conforto, a se alimentar melhor e a expandir os seus momentos de lazer e prazer. 

Até aí, tudo certo. O único problema é que, a cada ação desenvolvida, o homem não se preocupava com qualquer tipo de análise sobre o impacto de suas múltiplas atividades, em um espaço que, inicialmente, só pertencia aos outros bichos. Estava tudo fácil demais, tudo à mão, então não fazia sentido questionar coisas do tipo “Se eu cerco o rio, para onde a água irá?”, “Que efeitos a poluição pode ocasionar na atmosfera?”, “Se eu arranco a mata das encostas, como é que o morro se sustentará?”, “Se eu espanto o bicho de seu habitat, para onde ele irá?”, “Como conciliar o conforto que eu quero com o bem estar do meio em que eu vivo e dependo?”… Enfim, eram perguntas demais para responder. Melhor era fazer o que tivesse que ser feito e depois pensar nas respostas. 

O homem é, essencialmente, imediatista. Se o seu presente está dando para viver legal, para que se preocupar com o futuro? O próximo que vier que se vire! E, assim, séculos após séculos, o homem tornou-se um especialista em desmanchar o que levou milhões de anos para se formar naturalmente. O resultado é um número cada vez maior de catástrofes climáticas, com inundações em algumas regiões e insolação de deserto em outras. Cidades inteiras devastadas pela enchente ou pela seca, doenças mortais se alastrando a cada ciclo, porém, nada parece conseguir frear o descaso do homem com o lugar onde vive. 

Nós criticamos os “chatos” dos ambientalistas, dizemos que isso é “questão ideológica”, “coisa de gente que não tem o que fazer”, que preservar as florestas é “atravancar o progresso”, atacamos os outros para justificar os nossos erros… Não abrimos mão do plástico – e também não sabemos descartá-lo -, geramos cada vez mais lixo sem qualquer preocupação com o que fazer dele, matamos as nascentes, poluímos os rios e provocamos queimadas. 

Enquanto isso, a última década apresentou as temperaturas mais elevadas da história, diversas espécies de animais desapareceram, São Paulo já teve algumas chuvas químicas e as torneiras do Rio de Janeiro, há pouco tempo, jorraram água turva como se não tivesse sido tratada…O que mais de grave terá que acontecer para o homem entender que ele NÃO É DONO do meio ambiente, mas, pelo contrário, ele faz parte e precisa dele? 

O problema ambiental é muito maior do que parece. Essencialmente, em sua causa principal, encontramos o mesmo fator que também é causa de inúmeras outras mazelas humanas; nossa profunda ganância, e nosso profundo egoísmo e egocentrismo. Já está mais do que provado que é possível conciliar desenvolvimento e boa qualidade de vida, preservando-se o meio ambiente. Não o fazemos em escala global por interesses econômicos. O homem não é a única espécie a habitar o planeta. Ele é apenas a espécie dominante, e a única capaz de destruir todas as demais. Mas se não conseguimos frear nosso egoísmo nem nas relações entre nós mesmos, como esperar que tenhamos respeito pelas demais espécies que dividem conosco o mesmo espaço?

Somos o resultado das nossas escolhas. E, ao que parece, na questão ambiental, fizemos e continuamos a fazer as escolhas erradas…

“Para a ganância do homem, toda a natureza é insuficiente”, Sêneca.

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.
*Charge do ‘Edra Cartunista


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A cada viagem que faço na companhia do meu filho e netos, o primeiro assunto a ser tratado no carro, logo após as orações, é a questão do “pum”. Não sei se acontece com vocês, mas parece até que o ambiente que envolve a viagem, com o ar condicionado ligado e os vidros fechados, propicia a liberação dos gases que são normalmente produzidos pela digestão dos alimentos que ingerimos. Tecnicamente são chamados de “flatulência” e eternizados popularmente como “pum”. 

Engraçado como eles não conseguem entender e aplicar a necessidade de “avisar se for soltar pum”, para que os vidros possam ser abertos. Normalmente o processo de circulação do ar só acontece após o odor tomar conta do veículo. 
– Vovô, você é maluco? Não existe isso de avisar… 
– Claro que existe. Ninguém é obrigado a sentir esse odor…
– Mas não dá tempo! Ninguém consegue segurar um pum… 
– Paizinho, soltei uma bufa…
– Eu sei, os vidros já estão abertos. Não podia ter avisado antes? 
– Ué, eu pensei em avisar… Mas quando falei já tinha saído… 

E assim, a cada viagem, vez ou outra é preciso abrir os vidros às pressas, para que o ar consiga ser respirável novamente. 

Recentemente, em nossa viagem à Itália, conhecemos Verona, cidade tombada como patrimônio mundial da UNESCO e que foi palco da famosa história de amor escrita por William Shakespeare, “Romeu e Julieta”. Depois de um lanche rápido – sem coragem para experimentar o tradicional prato à base de carne de cavalo ou burro -, uma visita à famosa Arena de Verona e nos dirigimos para um dos endereços mais famosos da cidade: a Via Capello. 

Neste endereço está localizada a “Casa de Julieta”. Como sempre acontece, uma multidão estava aglomerada na rua, em frente à entrada do portão principal da residência da famosa personagem da tragédia de amor mais conhecida em todo o mundo. As pessoas sabem que a história é uma ficção e que aquela casa nem é do período em que a história foi escrita, porém, quem é que se preocupa com isso? Segurei firme na mão do meu garoto e nos dirigimos à enorme fila de interessados em ver a sacada da casa e, no jardim, a estátua de Julieta. Segundo a tradição, o turista deve se colocar ao lado da estátua e colocar a mão em seu seio, como forma de ter sorte no amor. 

A fila era interminável. Caminhamos por entre paredes completamente tomadas de bilhetes apaixonados, de recados de amor, deixados pelos amantes que passaram por ali. Depois de muitos minutos, conseguimos avistar o tal jardim. À direita, no alto, a sacada onde Julieta teria sido cortejada por Romeu e, nos fundos do jardim, a estátua da donzela. Confesso que achei estranho a figura de uma mulher sendo tocada como um objeto. Ainda mais, tratando-se de uma jovem que teria morrido aos 13 anos de idade. De toda sorte era, apenas, uma estátua e parecia ser bem mais velha, e o meu garoto fazia questão de tocá-la, assim como todos os demais ali. 

Aos poucos fomos nos aproximando da estátua. Pense em uma multidão em um espaço apertado e sem qualquer organização – com uma fila para chegar e outra para sair – praticamente parada há uns dois metros de distância de Julieta… Ela estava sob um pequeno pedestal, onde o turista se posicionava para colocar a mão em seu peito e ser fotografado. Assim que ele descia, outro subia, enquanto o “sortudo” tentava retornar passando pela multidão.

Pelas minhas contas, existiam pelo menos umas cem pessoas à nossa frente. Foi quando João me disse: 
– Paizinho, acho que vou soltar uma bufa…
– Não João, segura…
– Não consigo paizinho… 

Foi tudo muito rápido, as pessoas se afastaram subitamente e um grande clarão se abriu ao nosso redor. Não sei se foi porque ele “segurou” por muito tempo a flatulência, mas o odor foi quase insuportável e em virtude dele, fomos colocados lá, bem em frente à Julieta. Levei a mão ao nariz, como para dizer “não temos nada com isso” e o meu garoto sorriu, feliz com a mão no peito esquerdo de Julieta. 

Entramos naquele espaço com o pensamento fixo em Shakespeare e saímos com os versos de Renato Russo na cabeça: “Quando tudo nos parece dar errado
acontecem coisas boas, que não teriam acontecido se tudo tivesse dado certo”.

*Eugênio é escritor e funcionário da Funec. 
Ilustração de ‘Edra Cartunista


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*Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 19/01/2020

Há quem diga que o ano de 2019 não foi lá estas coisas. Existem, inclusive, os que dizem que “já foi tarde, graças a Deus”. Todo ano é a mesma coisa: a gente reclama, reclama, mas, ainda bem que as esperanças se renovam a cada novo ano que se inicia. Aliás, eu nunca entendi bem essa comemoração na virada de um ano para o outro, se ela acontece festejando o bom resultado do ano que termina, ou se comemorando o fim de um resultado ruim. Prefiro pensar que a comemoração acontece para festejar a oportunidade que temos de fazer algo diferente e de tornar o novo ano algo que valha a pena viver. Particularmente aproveito esta época para agradecer e, claro, renovar pedidos. E o que não me faltam são motivos para agradecer: tenho Deus no coração, Família, Amigos, Amor, trabalho e Fé, muita Fé. 

Terminei o ano com um saldo mais que positivo: tentei não me afastar de Deus (sim, Ele nunca se afasta, nós é que nos distanciamos Dele); priorizei as minhas relações familiares; mantive ótimos laços de amizade e de afeto. Em 2019, a minha crença no ser humano deixou de ser irrestrita (apanhei um bocado!) e me senti na obrigação de selecionar um pouco as companhias; participei de programas de preservação do Meio Ambiente, reciclando mais e levando menos sacolas plásticas para casa; escrevi, publiquei, fui homenageado e mantive a crença na força do Livro e da Leitura como instrumentos efetivos e eficazes para melhorar a vida das pessoas. 

Consegui, no ano passado, fazer belas viagens com o meu filho João; aprimorei a técnica de separar os colegas dos amigos e aprendi que, de verdade, estes, podem ser contados utilizando-se, tão somente, os dedos das mãos e iniciei um processo de reeducação alimentar. 

Nas redes sociais, tornei-me adepto da moderação. Fortaleci a certeza de que não devo compartilhar tudo o que recebo, criei coragem para falar com os mais desavisados sobre Fakes News e mantive a boa educação nos relacionamentos virtuais, curtindo somente o que eu realmente gostava e desconhecendo o que não me agradava, consciente de que a página alheia não é lugar para eu aborrecer ninguém e, muito menos, me aborrecer com o que pensa e acredita o outro. 

Entrei no ano de 2020 acreditando cada vez mais no Deus do amor, do perdão e da reconciliação, certo de que Ele, jamais, em nenhuma circunstância, castiga seus filhos; pretendendo estar cada vez mais perto das pessoas que eu amo e acompanhar a chegada da minha neta Ísis; programando novas viagens com o João e a leitura de bons livros. 

Neste novo ano, pretendo diminuir, ainda mais, as discussões sobre Política, até porque os políticos acabam se entendendo e quem perde somos nós que não ganhamos nada com isso. Prometo não me irritar com a turma que acha que tudo “antes” era melhor e com a que acha que “agora” está tudo muito melhor, mesmo com o país mergulhado em uma de suas maiores crises de credibilidade e com a recessão batendo à nossa porta. 

Definitivamente, não discuto mais religião. São discussões que não levam a nada, até porque o problema não é a religião, mas a forma como cada um a vivencia, assim como as motivações que levam as pessoas a procurá-la. 

Quero, neste ano novo, lançar mais três obras literárias, sendo duas no início de abril: SEM DATA DE VALIDADE ¬– CRÔNICAS (volume 6) e PÍTER, A ESTRELINHA (6º volume da série Maria Contando Histórias). Pretendo, também, completar a série de 500 textos publicados no Jornal DIÁRIO DE CARATINGA (este é o de número 492). 

Que o novo ano seja bom. Que os ventos soprem amenos, que a concórdia se instale e sejamos mais felizes. Como será um ano bissexto teremos mais um dia para aproveitar a beleza da Vida!

Para 2020, Paz e Alegria! 

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec. Ilustração do ‘Edra Cartunista


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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA,em 21/12/19

Localizado em um dos edifícios do antigo castelo dos Duques de Bourbon, primeiro monumento renascentista francês, na Cidade de Moulins, encontra-se o museu Anne de Beaujeu. Neste espaço maravilhoso, há um quadro muito especial chamado “A Verdade saindo do poço”. De fato, a denominação correta da obra é “A Verdade saindodo poço armada do seu chicote para castigar a humanidade”.

A obra fascinante, pintada em 1896 pelo artista francês Jean-Léon Gérôme, foi aparentemente inspirada em um conto judaico, que de tão antigo, apresenta versões um pouco diferentes, embora em todas elas, a essência da mensagem que tenta transmitir seja a mesma.

Diz esse antigo conto que certo dia a Verdade e a Mentira se conheceram. A Mentira diz à Verdade: 
 “está muito bonito hoje”. A Verdade olha à volta, olha o céu, e constata que o dia está realmente bonito. A Verdade vê que nisso a Mentira não mentiu. Seguiram juntas até chegarem a um poço onde a Mentira então diz à Verdade: 
 “A água está muito agradável, vamos tomar banho juntas?”. A Verdade, mais uma vez desconfiada, põe a pontinha do pé na água, e percebe que realmente a água está agradável e refrescante. Decide tirar suas roupas, entrar no poço e nadar. De repente, a Mentira sai da água, se veste com as roupas da Verdade e foge. A Verdade fica furiosa, sai do poço procurando por todos os lados encontrar a Mentira e recuperar suas roupas. Mas a essa altura, a Mentira já andava longe. O mundo inteiro vendo então a Verdade nua vira seu olhar com desprezo e raiva. A pobre Verdade, humilhada e triste, volta para o poço e desaparece para sempre, escondendo ali toda a sua vergonha. 

Desde então, a Mentira viaja pelo mundo vestida com as roupas da Verdade, satisfazendo assim todos aqueles que não querem em nenhuma hipótese aceitar a Verdade, muito menos, nua.

A batalha entre a Verdade e a Mentira é tão antiga quanto a própria história humana. Parece que algumas vezes, preferimos a Mentira travestida de Verdade à Verdade com sua aparente crueldade ou sua aparente frieza.

É que a Mentira, às vezes, nos parece doce, suave, agradável, afável. Ela atenua a dureza dos fatos verdadeiros, distorce a realidade dos sentimentos vividos, ou dos fatos históricos ocorridos. A Mentira, quase sempre, nos parece melhor que a Verdade, pois ela permite escaparmos daquilo que realmente somos, sentimos e queremos. 

Nas nossas relações sociais mais próximas mentimos cotidianamente. Alguns mentem diariamente, incontáveis vezes. Contar mentiras inofensivas, as denominadas “mentiras sociais”, todo mundo conta, em um momento ou outro. Seja para não magoar alguém, seja para evitar uma situação social desagradável ou até para não se expor. 

Mas quando mentimos compulsivamente, sem uma avaliação moral das consequências, o ato de contar histórias falsas, relatos falsos, deturpar os fatos, manipulando a boa fé alheia, transforma-se em uma patologia, chamada Mitomania ou doença da mentira.

As conseqüências desse desvio de caráter podem ser catastróficas. Os meios de comunicação modernos, as mídias sociais principalmente, são campos férteis para a propagação exponencial da Mentira. No Facebook, no Twitter, no Instagram, nos grupos de whatsapp proliferam as mentiras. Mentimos sobre nossa felicidade, sobre nossa riqueza, sobre nosso cotidiano, sobre nosso trabalho, nossos afazeres, sobre nossos sentimentos, nosso estado de espírito; mentimos, enfim, o tempo inteiro. Pouquíssimo do que se encontra nesses veículos de comunicação interpessoal é realmente verdade…

Para além das relações sociais mais intimistas, já no âmbito das relações comunitárias, a mentira desagrega e desestabiliza as relações. Associada à fofoca, outro meio muito eficaz de propagar as inverdades, a mentira provoca desunião, a discórdia e propicia a perpetuação de relações falsas e superficiais, impregnadas de “meias verdades”.

Já no âmbito das relações políticas de amplitude nacional, a Mentira atualmente encontra-se em um verdadeiro pedestal. Utilizando-se como nunca das vestes da Verdade, a Mentira deturpa fatos históricos sob o pseudônimo do Revisionismo. Mente-se sobre a existência da ditadura e da tortura. Mente-se sobre a existência do racismo, mente-se sobre o passado, mente-se sobre o presente e mente-se, principalmente, sobre o futuro, pois se apresenta um futuro mentiroso, fraudado, deturpado. 

Não há pequenas mentiras, porque não há pequenas verdades. Ou somos fiéis à nossa essência, ao nosso ser verdadeiro, ou somos mentiras ambulantes. Ou enfrentamos a verdade que se mostra diante de nós, no espelho que nos aguarda todas as manhãs, expondo sem retoques a nossa alma verdadeira, quando ninguém nos vê além de nós mesmos, ou estaremos fadados a viver uma vida miserável, atolados para sempre em um lamaçal de mentiras.

A verdade, mesmo nua e crua, ou até mesmo cruel ou dolorosa, sempre é melhor, porque apenas a verdade é capaz de ser o elemento transformador de nossas vidas. 

Neste período de festas de final de ano, temos a oportunidade de rever nossa existência e assim, se for o caso, mudar nosso comportamento. No dia 25 de dezembro comemoramos o nascimento daquele que veio ao mundo para nos anunciar a Verdade. A Verdade que nos liberta. Mais à frente, um ano novo desperta com ele mais uma oportunidade de rejeitar a Mentira vestida de Verdade, e abraçar a Verdade, em toda a sua nudez, e assim, apenas assim, reescrevermos a nossa história, uma história de verdade!

Somos frutos de nossas escolhas. Então, que façamos a escolha certa. Não esqueçamos, porém, que um dia, inevitavelmente, a Verdade sairá do poço, nua e com seu chicote pronto a castigar a humanidade!

“Num mundo de verdades e mentiras, todos temos medo da mentira, mas apenas os tolos têm medo da verdade”.

Feliz Natal e próspero Ano Novo. 

*Eugênio Maria Gomes é funcionário da Funec e escritor. 


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Publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, edição de 17/12/19

Assim que chegamos à festa fomos recebidos pelo casal anfitrião Daso e Sheila. A acolhida, a ornamentação da entrada do salão do América e a boa música que tomava conta do ambiente sinalizavam que aquela seria “A Festa”. Como de praxe, meu filho João saiu em direção ao ponto de origem do som e se posicionou em frente ao cantor Dedéu, embriagado pela apresentação do artista, enquanto eu fiz o dever de casa, circulando pelas mesas para cumprimentar os irmãos, cunhadas e convidados.

E foi assim que fui abordado pelo irmão Vanderlei para que fôssemos compartilhar a mesa com ele e sua esposa Renata. Já sentados, solicitei ao garçom uma dose de whisky e um copo d’água. Para o João – neste momento já conosco à mesa -, um suco. A mesa farta com as entradas, estrategicamente posicionada no salão, foi um convite para que o João para lá se dirigisse em busca de petiscos. Um gole rápido no drink e decidi solicitar ao João que colocasse um pouco do famoso “bode” entre as iguarias escolhidas. Feito isso retornei à mesa, quando então passei por um dos maiores “micos”, daqueles que apenas os desatentos costumam passar. 

Sentei-me em minha cadeira, tomei mais um gole do whisky e um pouco de água. Olhei ao redor e percebi que durante o breve lapso de tempo em que me levantei, algumas pessoas se sentaram conosco. Renata já não estava mais em seu lugar original, a cadeira do João continuava vazia e as demais estavam praticamente todas ocupadas. Não pude deixar de pensar que o Vanderlei, pelo menos, deixou reservadas nossas cadeiras. Nesse momento Elizângela aproximou-se da cadeira que estava reservada para o João… 

– Boa noite. Pode se assentar Elizângela.
– Boa noite. Vou pegar minha cerveja.
– Fique à vontade, pode ocupar o lugar do João. Ele se sentará em outra cadeira. 

Ela se acomodou na cadeira, enquanto eu passei a cumprimentar com a cabeça e com um sorriso os demais “convidados” da nossa mesa. Renata não retornava, assim como o João ainda devia estar se esbaldando na mesa de petiscos. Foi quando se aproximou o Bráulio, ao lado direito da mesa. Não poderia, de forma alguma, separar o casal, mesmo aquela sendo a nossa mesa. Vanderlei deveria ter distribuído melhor os convidados… 

– Boa noite Bráulio
– Boa noite meu irmão.
– Pode se sentar aqui meu irmão. Eu me sento com o João aí. 
– Não, pode ficar a vontade.

Ele nem precisava ter dito isto, pois eu estava à vontade. Satisfeito por tê-los conosco, mas cônscio de que eu deveria fazer o que o Vanderlei não havia feito: colocar ordem nas posições na mesa, para que todos ficassem confortáveis e próximos por afinidades. Ao belo som de Daywison Dhalma saí da minha cadeira, liberando-a para o Bráulio (claro, levando o meu whisky e a minha água), perguntei pelo copo de suco do João que não estava lá (na hora pensei que um dos convidados o tivesse bebido), pedi licença a um senhor que estava do lado, arredei uma bolsa de mulher que estava no local onde o João deveria se sentar e me acomodei. Foi quando passou o Diogo e disse “Boa noite Padrinho”… 

Levantei-me, abracei o meu afilhado, brinquei com a sua filha que estava acomodada em seu colo e tive então uma melhor visão do entorno. Contemplando as mesas próximas àquela onde Eu estava, Eu pude então perceber o grande mico que estava passando: na mesa ao lado, estavam sentados João, Vanderlei e Renata, todos aguardando por mim. Eu simplesmente me sentei à mesa errada, onde estavam Bráulio e seus familiares. Que gente educada! Eram só sorrisos, enquanto eu “chefiava” uma mesa que não era minha, tomando o whisky e a água dos outros… 

Depois de rir com o Bráulio sobre o assunto e ouvir dele “Me fale o que você bebeu, para eu não beber”, até para aproveitar mais a festa, busquei consolo nas palavras de Arnaldo Jabor: “… Pague mico, saia gritando e falando o que sente, demonstre amor. Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto e cada instante que vai embora não volta mais…”. 
*Escritor e funcionário da Funec


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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 08/12/2019

Enquanto o palestrante-autoridade se dirigia ao local reservado para o evento, fomos nos acomodando nos lugares disponíveis. Eu estava acompanhado de uma professora, uma autoridade de fato e de direito. O encontro foi profícuo, a palestra proveitosa e o palestrante nos pareceu uma pessoa relativamente simples e acessível, em flagrante contraste com todo o aparato que havia sido deixado do lado de fora do prédio. 

Terminado o encontro, nos dirigimos para a saída do prédio. Assim que atingimos a calçada da rua principal, percebemos que o trânsito estava bastante complicado. Minha amiga, professora-autoridade, deveria esperar por sua condução e eu fiquei ali com ela, batendo um papo, enquanto assistíamos àquela movimentação. É que, em frente ao prédio, em uma vila, os carros da comitiva do palestrante estavam sendo estacionados e a fila na rua era por conta da demora natural de ocupação do espaço. 

Em pouco tempo tudo voltou ao normal, com o trânsito fluindo normalmente. Do ponto em que estávamos, víamos a vila por inteiro, e nela os quatro carros da comitiva do palestrante- autoridade que a ocupavam. Carros grandes e pretos, de luxuosos modelos, dotados de vidros extremamente escuros, dirigidos por motoristas muito bem fardados. Pelo que conseguimos decifrar, um ou dois dos veículos deveria estar destinado ao palestrante e à sua pequena comitiva e, os demais, provavelmente, rodavam apenas com os motoristas, como forma de driblar qualquer tipo de contratempo.

Porém, eis que surge o inesperado, que associado à falta de previsibilidade da segurança responsável, fez com que o trânsito ficasse, de fato, caótico. Um carro modelo Gol parou na rua, em frente à vila e buzinou. Era uma moradora da última casa, precisando estacionar o seu carro. Ela saíra mais cedo, tranquilamente, sem saber sobre qualquer necessidade de ocupação da vila e ao voltar a encontrou entupida de carros pretos, numa fila que mais parecia um cortejo fúnebre. Não deu outra: buzinou, buzinou e buzinou. Um a um os carros pretos foram deixando a vila – alguns de ré, outros de frente -, causando a maior confusão na rua, para que a moradora, em seu carro modelo Gol, pudesse ocupar a vaga ao final da vila onde residia. Nada mais justo. Não fazia o menor sentido deixar uma senhora, com o carro cheio de compras, sem o seu estacionamento. 

Logo após a entrada do proprietário, os carros da comitiva foram reconduzidos ao local. Não foi uma tarefa muito simples, até porque, ficou claro que havia uma ordem de posicionamento dos carros a ser cumprida. Passados alguns bons minutos, o trânsito ganhou fluidez novamente. Minha amiga esperou mais um pouco, tomou a sua condução e eu prossegui o meu caminho, rumo ao estacionamento especialmente destinado a este fim, cuja utilização se dá a partir do pagamento de uma pequena quantia ao seu proprietário. 

Por falar em pagamento, é bom que se diga que nós, também, pagamos altas taxas tributárias, que permitem manter todo aquele aparato utilizado para levar o palestrante-autoridade ao encontro. E ai de nós se ousarmos causar qualquer transtorno, até mesmo menor, como aquele causado ao trânsito, naquele dia, em virtude da presença daquela autoridade.

Ainda bem que, de vez em quando, aparece um ou outro carro, simples como os nossos, para dar trabalho a essa turma. Sempre é possível que apareça um Gol contra a ostentação. 

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec —


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Publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 01/12/19

Na última quarta-feira (27) tive a honra de ser homenageado pelo Judiciário de Minas Gerais, através da Comarca de Caratinga, com a medalha “Desembargador Hélio Costa”. Trata-se de uma homenagem feita, a cada dois anos, a uma única pessoa de cada Comarca do Estado de Minas Gerais. De fato, uma honraria diferenciada, da qual muito me orgulho de receber. Além de agradecer aos Juízes, promotores, OAB, prefeito e presidente da Câmara Municipal – colegiado que escolhe o agraciado -, preciso agradecer às instituições da qual faço parte, com as quais divido a honraria: Funec, Unec, Unec TV, Loja Maçônica Obreiros de Caratinga, Lions Clube Caratinga Itaúna, Academia Maçônica de Letras do Leste de Minas, Lions Clube Caratinga Itaúna, além, é claro, de meus familiares e amigos. Principalmente o meu agradecimento a Deus por me permitir momento tão gratificante. Não poderia esquecer do Coral Ad’Glorian/São João Batista, do Coral Infantil da Escola Menino Jesus de Praga e de cada um que esteve no Salão do Júri, no Fórum de Caratinga, para me prestigiar. 

Transcrevo aqui parte do discurso proferido na ocasião, quando optei pela abordagem do conceito de sermos, todos, brasileiros. E foi citando Guimarães Rosa – “O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando” -, que abordei questões como Igualdade e Mudança. 

Na comparação entre pessoas, ser igual é ter as mesmas oportunidades, ser destinatário dos mesmos juízos de valor, ser titular dos mesmos direitos. Gozar e Fruir de forma igualitária e indistinta, de todas as garantias fundamentais que a civilização humana conquistou após séculos de árduos conflitos.

Todos nós brasileiros, independentemente de ideologias, preferências políticas ou partidárias, precisamos nos aproximar, cada vez mais, deste importante conceito lapidar de Igualdade, expresso com maestria por Rui Barbosa, na célebre “Oração aos Moços”: “A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade iguais, ou desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”.

Precisamos parar de separar os brasileiros por seu gênero, classe social, etnia, orientação sexual, ideologia, opção religiosa. Brasileiro é brasileiro. Não existem brasileiros melhores ou piores, brasileiros certos ou errados. Não podemos permitir um Cabo de Guerra, com brasileiros de um lado e brasileiros do outro.

A profunda e secular desigualdade social, uma espécie de cancro que insiste em perpetuar-se na tessitura social do nosso país, passou a exacerbar-se, espalhando seus tentáculos para círculos nunca d’antes visto.

A divisão e a discórdia que se instalaram em nosso país, baseadas em uma míope visão da realidade, temperada por um misto de conceitos equivocados e de pré-conceitos rancorosos, apenas contribuem para que nos tornemos uma sociedade ainda mais desigual, ainda menos solidária, ainda menos harmoniosa.

A sociedade brasileira precisa de mudanças. Precisamos nos reencontrar com nossos objetivos comuns, precisamos nos reconciliar, acomodar nossas diferenças, harmonizar nossos interesses, superar os conflitos e nos dirigir conjuntamente a um futuro que seja pacífico, profícuo, justo, igualitário e digno.

Essa mudança, cabe à sociedade brasileira implementar e, as diretrizes para tanto, acham-se claramente dispostas no preâmbulo da nossa Carta Magna. Ali, numa passagem importante da nossa Constituição, os representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte instituíram um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social.

Lá estão expressos de forma clara e objetiva, numa singeleza raramente encontrada em textos jurídicos, os valores fundantes de nossa Nação: a Igualdade, a Liberdade, a Justiça, a Fraternidade, o Pluralismo, a Harmonia Social e a Ausência de Preconceitos.

Ainda que caiba à sociedade brasileira, em seu conjunto – titular primeira do comando supremo do destino do País -, a implementação dos ideais elencados pelo legislador constituinte, cabe também aos operadores do Direito (Magistrados, membros do Ministério Público e Advogados), papel fundamental na construção do projeto de nação idealizado e plasmado no texto da Constituição Cidadã.

A messe é grande. Os desafios, enormes. A missão é prosseguir firmemente na construção de uma sociedade justa, livre e solidária, como o quis e como o quer o texto constitucional. Rejeitando o sectarismo, o preconceito, o autoritarismo, o revisionismo, o rancor e o ódio, e abraçando a conciliação, a harmonia, a cedência recíproca, na certeza que as diferenças devem combinar-se, para formar a paz e o desenvolvimento.

*Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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Texto publicado no DIÁRIO DE CARATINGA deste domingo. 

No último feriado de novembro, tivemos a oportunidade de ir a Montes Claros, quando participamos das comemorações dos 50 anos de vida religiosa de uma querida tia, irmã de meu pai, membro do Instituto Sagrado Coração de Maria de Berllar. Fomos recepcionados pelas irmãs e ficamos hospedados no Colégio onde residem e mantêm uma escola de altíssima qualidade na cidade. Em cada quarto uma identificação e, na cabeceira da cama, um cartão de boas vindas e um presente. Café às 7 da manhã, almoço às 12 horas e jantar às 19 horas. Em um dos almoços, a presença do Arcebispo de Montes Claros, Dom João Justino, que também presidiu a celebração da Eucaristia. No meio disso tudo, passeios, alegria, confraternização, bate papo saudável e muito carinho das irmãs, que se esmeraram na acolhida. 

A Irmã Leda – para nós, sempre a Tia Leda -, depois de anos atuando na área educacional, na condição de professora, supervisora, orientadora e diretora de escola, aposentou-se das atividades escolares. Desde garoto, a Tia Lêda sempre foi uma referência positiva para mim e, com certeza, para todos os seus sobrinhos. Alguém que estudou em uma época onde tudo era muito difícil, principalmente para as mulheres. Além disso, ela teve a coragem de dizer NÃO ao costumeiro caminho preparado para as moças do interior e disse SIM à Vida Consagrada, respondendo livremente ao chamado de Cristo. 

Meus pais sempre tiveram um carinho muito especial por ela e, a contrapartida, sempre foi um cuidado e um grande amor dela para conosco, além do respeito e de uma verdadeira reverência que ela sempre demonstrou aos meus pais. Cada vez que a Tia Lêda anunciava sua chegada à nossa casa, a rotina se transformava, ficava tudo muito movimentado e a ansiedade tomava conta de todos.. Ainda é assim: em todos os lares, de todos os parentes e amigos, em que a Tia Leda chegue, o quarto é especial, o cardápio é cuidadosamente preparado e as conversas se prolongam por muitas e muitas horas. Como é bom bater um bom papo com a Tia Lêda! 

Bem, com a tia Leda aposentada, estava previsto que, em Montes Claros, teríamos muitas horas para colocar a conversa em dia. Que nada! Lá estava a Tia Leda envolvida com projetos sociais e com a comunidade da qual faz parte. Seus olhos brilhavam enquanto falava das atividades desenvolvidas no Centro de Convívio Madre Teresia Vermeylen. O Centro é um oásis no meio de uma comunidade muito pobre, denominada Vila Castelo Branco. O mais interessante é saber como surgiu a ideia do projeto: as irmãs desenvolviam atividades de orientação a adolescentes, em outra comunidade, quando se deram conta de que a maior parte das adolescentes grávidas era provenientes da comunidade Vila Castelo Branco e, por isso, decidiram criar o Centro de Convívio lá. 

E foram com força total, com coragem, buscando ajuda do Serviço Social, fazendo parcerias diversas. Construíram uma estrutura de fazer inveja a muitos clubes sociais e colocaram todo o aparato a serviço da comunidade local. Lá tem capela, cozinha, refeitórios, brinquedoteca. Cheguei a pensar que certamente era mais um complexo de ajuda paliativa e orientação às pessoas, como tantos por aí. Não, lá a coisa é diferente. As crianças brincam, recebem orientações, se alimentam, aprendem enquanto as mães estão nas oficinas de geração de renda, aprendendo a costurar, pintar, bordar, a fazer artesanato e a confeccionar enxovais. O Centro oferece, ainda, aula de espanhol e outros cursos de qualificação. 

O mais legal dessa historia foi o entendimento das irmãs de que não bastava falar para as adolescentes não se prostituirem ou “puxar a orelha” das mães para não as deixarem “soltas” pela vida. Elas visitaram as famílias, conheceram suas histórias e perceberam que era preciso mais para livrar aquelas crianças do relacionamento sexual prematuro, em troca de dez, quinze reais. Elas viram que, algumas mães, sentiam alívio quando uma adolescente conseguia um homem para sustentá-las, pois seria um estômago vazio a menos. Era preciso mais. Era preciso envolver a família no projeto e é o que vem acontecendo. Ainda há muito o que fazer, mas o passo certeiro está sendo dado. 

Tivemos a oportunidade de ver pessoalmente como é difícil e sofrida a vida daquelas pessoas e de constatar como um trabalho de dedicação, de entrega, de solidariedade e de profundo amor ao próximo é capaz de atenuar o sofrimento das pessoas e de contribuir para resgatar-lhes a dignidade. O projeto desenvolvido naquele Centro de Convívio fez bater forte aquela sensação que às vezes temos de que, na verdade, muitos de nós desperdiçamos nosso tempo com coisas fúteis, com atividade e afazeres improdutivos, que nada nos acrescentam e que tanto consomem a nossa energia. Uma breve visita àquele local faz-nos perceber, que muitos de nós levam uma vida egoísta, vaidosa, mostra-nos de uma forma vívida a nossa falta de respeito ao próximo, e o nosso profundo narcisismo. Uma simples visita ao Centro de Convívio é o suficiente para nos mostrar a necessidade de cultivarmos, cada vez mais, as virtudes. 

A solidariedade, a Caridade, o Amor ao próximo. Nada pode ser mais gratificante e mais enriquecedor do que fazermos o Bem. Do que utilizarmos nossos dons, nossos talentos, nossa energia e nosso trabalho em prol dos nossos semelhantes. 

“Todos aqueles que se doam, mesmo que seja apenas um pouco de si pelo Bem, estão semeando flores. Cada gesto de caridade e de amor é uma semente, e cada semente, uma flor. Se todos nós fizéssemos isso, apenas por uma pequena parte do nosso tempo, faríamos da terra em que vivemos, em pouco tempo, um imenso jardim…” (Irmã Dulce – a Santa Dulce dos Pobres). 
• Eugênio Maria Gomes é Professor, escritor, funcionário da Funec e sobrinho da Irmã Leda.


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Texto publicado no jornal Diário de Caratinga, em 10/11/2019

Quantos anos você tem? Eu tenho sessenta, setenta, oitenta, noventa, cem anos! Eu tenho cento e poucos ou cento e muitos anos. A idade, não importa. Eu sou uma pessoa idosa. Não sou um apêndice, um objeto, um encosto, uma doença ou, apenas, um velho. Sou simplesmente uma pessoa idosa! 

Meus cabelos estão embranquecidos, minha voz embargada e minha alma repleta de emoções. Já trabalhei muito, sofri o suficiente e chorei bastante. Alegrei-me muito, ajudei e fui ajudado, criei e fui criado, enxuguei lágrimas, consolei prantos, curei feridas… 

Eu sou de todas as cores, de todos os amores, de todas as crenças e de todas as classes sociais. E você, que está lendo este texto agora, quantos anos tem? Eu tenho muitos anos, mas, por favor, não me chame de velho. Eu sou uma Pessoa Idosa. Tenho sentimentos como você. Eu rio, choro, entristeço e me divirto como você. Eu sou um caminhante e, antes do porto final, ainda farei muitas paradas. Sou idoso sim, meu amigo. Mas, não estou morto. Por favor, me trate com respeito. Eu não sou um estorvo, eu sou a experiência… Eu sou a maturidade!

Ao ver meus entes queridos sucumbindo a velocidade e a rapidez que a vida moderna lhes impõe, escravos de uma existência fútil e fugaz, intoxicados com a falsa sensação de pertencimento que as redes sociais lhes propiciam, penso como seria bom se ainda pudéssemos sentar na varanda e contar histórias, trocar olhares, sentir odores, secar algumas lágrimas e gozar o mais profundo prazer do simples “estar junto”…

Quantos anos você tem? Eu preciso de você! Mas eu não preciso de sua piedade, eu preciso é de sua atenção, de sua alegria e de seu carinho. Por que essa falta de cortesia e de respeito comigo? A preferência no acesso ao transporte, aos assentos dos ônibus e aos primeiros lugares na fila, é minha. Eu tenho direito a prédios com rampas, corrimão e sinalização. Eu quero respeito à concessão de próteses, cadeiras de rodas, aparelhos auditivos e visuais, direitos dos idosos previstos em lei, mas quase nunca concedidos.

Meu amigo, eu fico muito triste quando você faz questão de me mostrar que o meu envelhecimento está se transformando em sinônimo de inutilidade… Sim, na medida em que vou envelhecendo, a sociedade tenta me transformar em empecilho, esquecendo-se de que neurônios não envelhecem. Você sabia que grande parte do sucesso dos países desenvolvidos advém do respeito e do bom uso da experiência e do conhecimento acumulados por seus idosos? No entanto, meu caro, em minha própria casa, às vezes, sou maltratado, agredido e, até, dopado com medicamentos, para poder ficar quieto, para não incomodar os mais novos… 

Mas, eu resisto. E grito: quantos anos você tem? Eu tenho muitos anos. Sou apenas uma pessoa idosa, mas sou gente. Gente como você. Quando Aristóteles, há mais de 2300 anos, disse que “A Cultura é o melhor conforto para a velhice”, referia-se ao conforto da velhice coroada pelo saber, à segurança que eu – e cada idoso do mundo – teríamos, já que somos templos da Cultura e do Conhecimento. 

Venha! Venha caminhar comigo. Venha aprender a envelhecer, porque este será, também, o seu destino. Venha sem preconceitos, sem fazer julgamentos e sem se preocupar com eles. Há muito já não me preocupo com a calvície e com os cabelos brancos e já consigo ver o mundo com os olhos de quem já viveu muito, mas que tem muito ainda para viver. 

Já não ando tão rapidamente, nem respondo com a voz tão forte. Já não me preocupo tanto em estar no controle de tudo, ou saber de tudo que acontece em todos os recantos do mundo. Meu tempo flui de forma diferente, pois aprendi a me dedicar apenas àquilo que realmente me importa. Não quero mais Ter, mais do que nunca quero apenas Ser…

Quantos anos você tem? Eu tenho o suficiente para caminhar olhando para frente, com a certeza de que tudo que ficou para trás, os erros e os acertos, foram necessários para que eu me tornasse o que sou hoje! Caminho, tendo em mente as palavras de Sêneca: … Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a. Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem. Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres”.

* Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Do outro lado do telefone, uma voz pedindo ajuda: “há um casal de idosos, na lateral da Catedral, em situação de miserabilidade. Estão dormindo ao relento, sem qualquer cuidado em relação à higiene, estão magros e entregues à própria sorte. Será que o senhor não consegue ajuda para eles?”. O casal ao qual a pessoa se referia era formado pelos conhecidos “Carioca e Nora Ney”. 

Meu primeiro contato com o casal se deu na virada do milênio, quando atuava na Secretaria de Ação Social, da Prefeitura Municipal de Caratinga. Eles tinham moradia – não sei se era própria ou alugada – porém, viviam embriagados pelas ruas da cidade, buscando uma ajuda aqui, outra ali, para sustentar um vício que, aos poucos, os consumia. Porém, eles tinham algo de muito especial: estavam sempre juntos. Não importava se o tempo estava quente ou frio, se chovia ou fazia sol, se era noite ou dia, o certo era que onde estava o Carioca, lá estava também a Nora Ney. A Secretaria os atendeu durante todo o tempo, sempre com ajudas paliativas, até porque eles não aceitavam nenhum tipo de auxílio que fosse mais consistente, que pudesse retirá-los daquela condição de mendicância e de vulnerabilidade social. 

Terminada a minha participação no governo, durante muitos anos continuei a encontrá-los pelos caminhos da vida e, vez ou outra, batiam à minha porta, solicitando uma ajuda financeira, tendo sempre como referência uma conta de luz atrasada, o corte no fornecimento de água ou uma receitar para aviar. Ambos sempre foram muito magros, maltrapilhos e, via de regra, estavam embriagados. 

Logo após receber o telefonema fiz alguns contatos com algumas instituições sociais e órgãos governamentais, solicitando uma intervenção que pudesse amenizar tanto sofrimento. Eles haviam improvisado uma cama de papelão próximo à igreja, enrolavam-se em cobertores tipo “bicicleta” e dividiam o espaço com dezenas de pombos, ávidos pelos restos de alimento espalhados em seu entorno. Paralelamente providenciamos roupas para os dois com o intuito de levá-los para um banho, para tentar melhorar aquela imagem quase sub-humana. Não conseguimos levar a termo a efetivação da ajuda. Não pareceu ao grupo ser sensato a locomoção dos dois de automóvel e, também, a utilização da residência de um dos membros da equipe para o acolhimento. . 

O certo é que, em poucos dias, a Nora Ney foi a óbito, enquanto acompanhava o marido em um atendimento na UPA. Com isso, o Carioca conseguiu ser removido pela Secretaria de Ação Social. Eu sei das tentativas da PMC e de algumas instituições sociais de retirá-los, sem sucesso, do local onde escolheram para viver e morrer. Eles não aceitavam se separar e, em Caratinga, não há lugar destinado à recuperação da mulher viciada, como existe para o homem. 

Por mais que tentemos justificar o não atendimento adequado e humanizado ao casal “Carioca e Nora Ney”, a culpa por essa ocorrência há de habitar nosso ser por um bom tempo. Sim, somos todos culpados por este casal perder sua casa e ganhar as ruas, por suas feridas, por sua pele fétida, por sua magreza, pelo frio que sentiram, pelo estômago vazio e pela morte de um deles. Se não sentirmos culpa por isso, teremos perdido a essência de criaturas de Deus que somos e estaremos fazendo vista grossa aos ensinamentos de Cristo, quando nos disse “Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes”. 

Sim, somos todos culpados por esse triste desfecho. A Igreja é culpada, as Ongs são culpadas, os transeuntes são culpados, os poderes públicos são culpados. Quem passou por eles e ajudou com algo, é culpado, assim como os que sequer souberam da existência do casal são culpados. Em pleno século XXI, uma mulher morreu, depois de passar momentos de dor e tristeza, na Praça da Matriz. O atestado de óbito acusou enfarto, mas sabemos que também já teve pneumonia, passou fome, sentiu frio e, sua esquelética figura certamente foi resultado de muitas e muitas infecções. Só sei que, uma mulher morreu, antes que pudesse ser ajudada, cuidada, mesmo se negando a aceitar ajuda. Precisamos ter vergonha e nos aprimorarmos como seres humanos, mesmo que seja através da culpa. Só assim poderemos continuar acreditando que a humanidade tem salvação.

A perda de um ser humano, na forma de “farrapo humano”, fruto de uma vida cruel, quase anônima no atendimento na UPA, espelha a profunda falta de solidariedade, de amor ao próximo, de comprometimento e de uma genuína e verdadeira ligação com o Divino. Envoltos em nossas orações, entorpecidos em nossos cânticos de louvor, dentro de uma Catedral iluminada e aquecida, rezamos por nossas almas e rogamos ao Deus dos Miseráveis que nos conceda a salvação! Embora, ali, bem perto de nós, dois “pequeninos” jaziam no abandono e no esquecimento…

Meus Deus! Quanta hipocrisia…

Pie Jesu, Qui tollis peccata mundi. Dona eis réquiem!

Eugênio Maria Gomes é Funcionário da Funec e escritor.


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Diário de Caratinga, 01/9/2019

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, passamos por problemas, por perdas, por dores, pelo sofrer inevitável que é fruto das nossas escolhas, das nossas ações, dos nossos vícios, enfim, fruto da nossa imperfeita condição humana. Porém, há momentos onde tudo em nossas vidas encontra-se em verdadeira ebulição. Nada está no lugar. Nada vai bem. Todos os aspectos do nosso Ser, de forma insistentemente coincidente, parecem nos levar ao desespero. Falta-nos o chão, falta-nos um porto seguro, falta-nos a paz!

Vivemos hoje, em todo mundo, momentos de profundo sofrimento, de imenso desamor. Em várias localidades, populações inteiras padecem das mais variadas doenças. Epidemias dizimam milhares de seres humanos. A fome, um mal constante na História da humanidade, ainda ceifa vidas, por várias regiões do planeta. No século onde a tecnologia nos permitiu avanços inimagináveis, ainda se morre de fome e de subnutrição.

Na Europa, países avançados fecham suas portas a legiões de desterrados, de pessoas que fogem de sua terra natal em busca de condições de sobrevivência. A crise dos refugiados aumenta a cada dia, assim como aumenta a cada dia a falta de solidariedade daqueles que podem ajudar, acolher, atenuar o sofrimento de seus semelhantes, mas que estão absorvidos na ilusão de que seus quintais ajardinados, suas mesas fartas e seus comparecimentos semanais a cultos recheados de louvores vazios, livrarão suas almas do julgamento pelo seu egoísmo, inexoravelmente imposto pelo ciclo da vida.

O Brasil, outrora uma terra de harmonia, de alegria e de esperança, perdeu-se num redemoinho de desencontros, de embates, de radicalismo, de rancor histórico, de intensa discórdia social. Capitaneados por um grupo de destemperados e de inconsequentes, que se esquecem de que “gentileza gera gentileza” e “ódio só produz ódio”, vivemos em constante ebulição, em constante sobressalto. A cada dia, novos embates são propostos, novos motivos para discórdia são semeados. Destila-se um ódio profundo por tudo aquilo que uma mente tacanha e apequenada é incapaz de compreender. Rejeita-se, com violência, desprezo e intolerância, qualquer coisa que escape de uma visão de mundo limitada, provinciana, obscurantista, radical e preconceituosa.

Não. A Terra não é plana. Plana, limitada, circunscrita a um espaço bidimensional é a visão deturpada de uma mente e de uma personalidade estreita e mesquinha.

Sim. As pessoas são diferentes. A diversidade, a multiplicidade de cores, de opiniões, de posicionamentos, de modos de vida e até de deuses é que nos faz uma espécie rica, interessante e atraente. A similitude, a mesmice e a identidade total de comportamentos, de opiniões e de ações só nos leva ao marasmo, ao atraso, à permanência, opondo-nos à própria essência do Universo, que é dinâmica, pulsante, móvel e em constante mutação. Tudo se movimenta e se altera a cada instante.

Mas não é só no nosso entorno distante que as coisas não vão bem. 

No nosso cotidiano, na nossa vida pessoal, nas nossas famílias, relacionamentos, trabalho, saúde, tudo parece conturbado, tudo parece desmoronar, como um castelo de cartas.

Nesses momentos, ficamos frente a frente com o mais severo dos juízes: o espelho! São momentos onde desconhecemos a imagem refletida naquele pequeno espaço de metal e vidro. Momentos onde todo o peso de nossa inconsequência e de nossas mazelas existenciais insistem em se mostrar, de forma insensível e acusadora. Por instantes, que parecem perdurar por anos, vemos ali, estampada naquela superfície fria e inerte, a nossa incapacidade de superar as tentações, de resistir aos vícios, de optar pelo o que é certo, o que é digno, o que é altivo, ainda que isso tivesse causado alguma dor, em algum momento do passado.

Vemos o tempo que desperdiçamos com coisas fúteis, com atividade e afazeres improdutivos, que nada nos acrescentaram e que consumiram uma energia enorme, em detrimento da convivência familiar, do encontro real com amigos verdadeiros, do ócio reflexivo, do olhar para as estrelas, do tocar um instrumento, do cuidar de uma planta, do deitar no peito da pessoa amada.

Vemos o resultado das nossas ações egoístas, da nossa vaidade, da falta de respeito ao próximo, do nosso narcisismo. 

Vemos que abandonamos o culto das virtudes, pois as virtudes não nos são inatas. Precisam ser adquiridas, praticadas, constantemente observadas. O Bom, o Justo, o Digno, a Empatia, a Caridade, a Lealdade, a Fidelidade… Não nascemos com essas virtudes. Elas precisam ser cultivadas a cada dia, a cada momento. Precisamos, cotidianamente, resistir bravamente às virtudes opostas ou aos pecados, como as religiões as denominam. Precisamos, insistente e constantemente, optar por sermos bons!

Esses momentos, em que tudo nos parece perdido e em que nos sentimos incapazes de seguir adiante, em que fraquejamos e duvidamos até da existência do Bem e do Amor, onde o espelho insiste em nos observar, ainda que nos afastemos dele, são como noites traiçoeiras, quando a escuridão nos rodeia e quando nem o conforto dos nossos lençóis é capaz de nos proporcionar um pouco de Paz.

Mas um dia, a humanidade encontrará soluções que lhe permitam superar esses momentos difíceis. Nosso País resistirá e sobreviverá à arrogância e à intolerância, e nós, ainda que vivamos muitas “noites traiçoeiras”, sempre teremos um novo amanhecer. Pois, o Amanhã, depois dos ódios aplacados e dos temores abrandados, há de ser pleno!

“O momento mais escuro da noite, é pouco antes do Amanhecer!”

*Eugênio Maria Gomes é funcionário da Funec e escritor.