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Em um mundo onde os valores e as virtudes parecem estar em plena ebulição; em uma época na qual grande parte das pessoas parece ter se esquecido do real e verdadeiro sentido das coisas, e o real e verdadeiro sentido da própria vida, destaca-se, como nunca visto, a incapacidade de muitos em lidar, de forma comedida, prudente e mansa, com o Poder, com a Fama, e com suas próprias fraquezas.

Pode tratar-se de Poder político, econômico, social, institucional ou até mesmo em relações mais próximas, quer seja no ambiente de trabalho, ou até mesmo no convívio familiar. O fato é que, quando se alcança ou se é alçado à posições de comando ou de chefia, quando se ocupa cargos ou funções de Poder, não raramente se descobre a verdadeira face das pessoas em questão. Poucos sabem resistir à tentação do despotismo, do autoritarismo, da arrogância e da prepotência. Poucos sabem resistir à tentação ao nepotismo, ao fisiologismo, ao apadrinhamento, a autopromoção, à vaidade, sempre acompanhados, inevitavelmente, da autoindulgência, própria daqueles que embriagados pelo Poder, justificam seus atos de excesso, perdoando-os sempre, sob a justificativa de que são meras consequências do simples fato de ocuparem tais funções.

O Destino, o Divino, ou até mesmo, em alguns poucos casos, suas qualidades intelectuais, algo acima da média, concederam-lhe essas prerrogativas. Estavam fadados a exercer a chefia, o comando… Estavam predeterminados a comandar, esquecendo-se que todo Poder, sempre deve vir acompanhado de enorme responsabilidade, e que quando é legítimo e merecido, deve ser exercido com mansidão, empatia, compaixão, fidelidade de caráter e uma profunda convicção de que sempre será passageiro, efêmero, como tudo na vida.

O mesmo ocorre com a Fama, com a Beleza, com o vigor físico.

Um dia, invariavelmente, todos as perderemos. E assim ocorre, com o Poder. Sua transitoriedade nunca deve ser esquecida pelo seu detentor. Dias, meses, ou até anos podem passar, mas aquele que hoje ocupa as elevadas funções de comando e de chefia de forma despótica, que usa e abusa de sua influência e autoridade, sem comedimento, encontrar-se-á com a outra face do Poder: a Solidão, o abandono pelos verdadeiros amigos, a sujeição à vingança e a retaliação, e muitas vezes, ao próprio escárnio, por parte daqueles que foram vítimas de sua incapacidade de exercer o Poder de forma virtuosa.

Na verdade, muitas vezes se constata, que aqueles que buscam, a qualquer custo, o Poder, e o exercem de forma deturpada, não percebem que esta ânsia não se origina em suas forças ou em suas qualidades, mas sim em suas próprias fraquezas, em sua imaturidade, em seus caprichos.

Como muito bem registrado está, por vários pensadores, ao longo da história, alguns dizem que o Poder muda as pessoas, enquanto outros afirmam que, para conhecer, de fato, o caráter de alguém, basta dar-lhe Poder. Mas o Poder não muda, de fato, as pessoas, o Poder apenas mostra, de fato, quem verdadeiramente elas são…

De qualquer forma, o que sempre vimos ao longo da História humana, e o que ainda vemos hoje, na leitura cotidiana dos jornais, nos noticiários da TV, nos comentários de corredor, nos burburinhos quase inaudíveis das pessoas e nas mensagens que circulam pelos modernos meios de comunicação interpessoal, nos leva à clássica sentença, proferida pelos antigos de que o Poder é sempre perigoso. Atrai os piores e corrompe os melhores. E que o poder não legitimado pela temperança e pela altivez de caráter, sempre é dado apenas àquele que se sujeita a se rebaixar para pegá-los…

O exercício do Poder desenfreado e corrompido pela vaidade, pelo egocentrismo e pelo autoritarismo, pode ser bem exemplificado pela metáfora do balão de gás. Originariamente murcho e sem vida, vai sendo paulatinamente inflado pelos vícios, pelos abusos e pelos desmandos cometidos. A cada entrada de ar, vai adquirindo maior volume, maior grandeza, a ponto dessa grandeza, aparente, estimular, de forma desenfreada, maior entrada de ar, sem que o balão perceba que, quanto mais ar recebe, e maior volume adquire, mais próximo se encontra sua própria ruína, porém, mesmo assim, busca incansavelmente mais e mais ar. Até que em certo momento, exageradamente inflado por sua própria grandeza, esquece de seus próprios limites, e incapaz de reter tanto ar, explode subitamente, retornando ao seu estado inicial, murcho, esvaziado, desprovido de qualquer utilidade e imprestável para qualquer outra função…

Por tudo isso, se impõe àqueles que alcançam posições de Poder, que sempre submetam seus atos e suas decisões ao crivo das virtudes. Que ajam com mansidão e que reconheçam as limitações dos outros, além de nunca esquecerem a efemeridade do Poder que ora possuem. Nunca é demais reforçar a lembrança da metáfora do balão: todo aquele que, em algum momento, detém o Poder, está fadado, invariavelmente, a retornar, solitário e envelhecido, à insignificância e à imprestabilidade de um balão furado… É o ciclo natural das coisas.

“Pior do que o mau uso de Poder, é a ilusão de que esse Poder é eterno…”.

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor.


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Não podemos negar que o ano que está prestes a terminar foi muito difícil para a maior parte da população. Para alguns, inclusive, foi um ano muito, muito ruim. Um ano de perdas e de dor. Até quem não teve nenhum amigo ou parente acometido pela pandemia, acabou passando por dificuldades financeiras ou por dissabores relacionados à dificuldade de encontros, de relacionamentos e ou de aglomerações. Enfim, um ano que só não foi perdido, porque deixará marcas inapagáveis em muitos de nós, além de ter possibilitado momentos de grande aprendizagem para a humanidade.

Sem dúvida o ano de 2020 nos fez caminhar em direção ao nosso interior (só não aproveitou quem não quis) e à vivência de alguns valores importantes, tais como a oportunidade da prática da humildade, da serenidade, da temperança, da penitência e da coragem de voltarmos para dentro de nós mesmos, reconhecendo nossas imperfeições, nossos vícios, nossos “pecados”, nossas fraquezas. Tivemos a oportunidade de dar um basta na complacência com as nossas próprias imperfeições, de submetermo-nos à nossa própria consciência e, assim, de sermos capazes de olhar com mais compaixão para com nossos semelhantes.

2020 nos propiciou a oportunidade de descobrir o quão importante é a dádiva da vida. Nos fez enxergar que mais importante do que a quantidade de anos vividos é a intensidade com que cada dia é vivenciado; que cada dia tem sua importância, se de alguma forma conseguirmos tocar o coração de alguém. Por mais que esteja doído, difícil, complicado mesmo viver nesse isolamento, nesse distanciamento das pessoas, aprendemos muitas coisas, passamos a conhecer mais os outros e a nós mesmos e, mesmo à distância, chegamos a nos aproximar mais de muita gente que andava distante.

O ano da pandemia, além de provocar sofrimentos físicos e psicológicos, ainda trouxe agravamento da crise econômica, nos levando a mudar o foco em nossas prioridades, em nossos desejos, em nossas exigências. Reclamar de conversas na hora do almoço? Que nada, quem dera pudéssemos ter muitas pessoas ao nosso lado, comendo e conversando, em vez de termos tantas cadeiras vazias em torno da mesa… Reclamar da visita do parente ou do amigo fora de hora? Que nada, quem dera pudéssemos abrir a porta para receber as pessoas, deixando rolar boa música e cerveja gelada… 2020 nos fez sentir falta de coisas que não valorizámos muito, mas que se tornaram fundamentais para nós: abraços, beijos, carinhos, conversas, histórias, afagos…

2020 foi um ano em que pudemos perceber a importância da autonomia na interpretação dos acontecimentos e da nossa responsabilidade pelos resultados obtidos. Tivemos de nos “virar” mais e a ocupar menos os outros, porque todo mundo esteve, e ainda está, no mesmo barco. Passamos a entender, rapidinho, que programar o futuro significa tomar as melhores decisões no presente. Aprendemos, na dor, que de nada adianta ficar chorando o leite derramado e que, às vezes, é preciso parar, recarregar as energias, retomar a caminhada ou, simplesmente, mudar. E como aplicamos a Metanóia nestes últimos dez meses! Sangrando descobrimos que, assim como acontece com as águas do rio, nossa vida se movimenta sempre para a frente, insiste e persiste nesse movimento contínuo e é certo que, jamais, retornará ao mesmo lugar.

O ano de 2020 exacerbou em nós a nostalgia, a saudade, trazendo-nos lembranças de um tempo que não volta mais, de uma época em que as coisas eram mais fáceis, a vida corria mais lenta, tínhamos mais tempo para o lazer, para a família, para os amigos, para as brincadeiras na rua, para a missa e cultos aos domingos. Um ano que nos fez valorizar mais o que tínhamos, o antigamente, onde os pais eram respeitados, em que a pobreza não era a causa da violência e a cura para a insônia era encontrada numa xícara de chá de camomila. Neste momento de nossa história, com essa pandemia maluca que se abateu sobre a humanidade, foi praticamente impossível não sermos tomados por um saudosismo, por certa melancolia, uma quase tristeza, mas que nos levou ao crescimento a partir de questionamentos como “O que terá dado errado? Onde será que nos desviamos do caminho? Como reverter isso?” “… Sim, este foi um ano de muita aprendizagem.

Aprendemos, por exemplo, a rezar mais e melhor, a falar menos da vida alheia, a cuidar mais de nossa saúde, a higienizar devidamente os alimentos, a valorizar mais nossos empregos, a entender que o tempo passa rápido demais e que cada minuto precisa ser vivido intensamente. Aprendemos a conviver com a melancolia, a ver a vida passar com a sensação de que estávamos parados. Este foi um ano que nos ensinou, através da dor, a economizar energia para o que realmente importa. É um bom começo!

Descobrimos que a bondade é capaz de nos tornar pessoas mais felizes, que a melhor recompensa não estará ao final da busca, mas no resultado de cada boa ação que realizarmos durante o percurso. Aprendemos a levar a vida de forma mais leve, com mais propósito, com menos preconceitos e com mais respeito às diferenças. Aprendemos a viver mais devagar, a observar nossos ritmos individuais, a humanizar os relacionamentos e a priorizar o que é, genuinamente, mais importante. Aprendemos a consumir menos, a ter menos coisas para cuidar e menos coisas para fazer, para assim, cuidarmos melhor do que temos, e fazermos melhor o que fazemos.

Em 2020 nós choramos, sofremos, vivemos… Aprendemos. Quem não o fez, perdeu!

• Eugênio Maria Gomes é professor e escritor.


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Estamos no Tempo do Advento e, daqui a cinco dias será Natal. Na memória, me vem a lembrança desse mesmo tempo vivido nos anos anteriores, quando a preocupação que pautou meus escritos, então, foi a de que não ficássemos presos às compras, aos presentes, às fartas ceias, mas sim, que nos lembrássemos do outro, do abraço, do carinho, do perdão, da confraternização em família, do compartilhamento do calor humano.

E aqui estou, em plena pandemia, para sugerir a todos que continuem evitando gastos desnecessários com natais suntuosos, com ceias exageradas, daquelas que fazem o pernil perdurar por dias na geladeira e as latas de lixo serem entupidas por sobras de comida. Porém, preciso completar: dessa vez, nada de abraços, nada de confraternização com várias pessoas, nada de compartilhar calor humano através do toque, do beijo, de demonstrações físicas de afeto.

O momento, agora, exige de nós o maior distanciamento possível. Vamos compartilhar emoções, carinho e amor pelo telefone, pelas vídeochamadas ou através da janela e da soleira da porta. Não podemos presentear quem amamos com a doença, com o sofrimento.

Essa semana circulou uma mensagem nas redes sociais, na verdade um desabafo, da psicóloga Larissa Figueiredo, que atua no CTI do Hospital Felício Roxo. Em um dos trechos mais dramáticos de seu relato, ela diz: “Entro no box acompanhando o médico que calmamente e com muita segurança explica ao paciente que as medidas ventilatórias não invasivas foram insuficientes… o paciente já sabe com o que está lidando: ‘deixa eu conversar com minha família antes?’. Videochamada. Anota aí a senha do banco, avisa nossa filha que amo ela demais. O carnê do plano funerário tá na segunda gaveta da minha mesa. Ainda não paguei a rematrícula da escola. Rezem por mim, serei intubado”.

E ela continua a relatar os momentos dramáticos que vive o paciente e a equipe médica, sem poder precisar se aquele paciente conseguirá ser extubado, se precisará de uma traqueostomia, se conseguirá sobreviver e passar por tratamentos muito dolorosos, e voltar ao convívio dos seus.

Tocou-me fundo esse relato, esse desabafo da psicóloga. Eu também tive parentes e amigos lutando pela vida e sofri juntamente com seus familiares. Eu também chorei a morte de pessoas muito queridas e não posso sequer imaginar que eu possa ser o agente causador de uma dor desta para alguém, simplesmente porque não pude ou não quis passar um Natal com um pouco mais de distanciamento.

Há anos comemoro o Natal da minha família, em minha casa. São sempre mais de cinquenta pessoas, entre tios, irmãos, sobrinhos, cunhados, genros e amigos mais próximos. Esse ano, nem pensar. A tradição terá de ser quebrada e me arriscarei, no máximo, a comemorar com o meu núcleo familiar, com os que estão mais próximos, com os quais convivo diariamente, ainda assim tomando todos os cuidados para não me contaminar e não contaminar ninguém.

Será doído para nós? Com certeza. Mas será também uma boa penitência, um sacrifício que ofereceremos pelos que estão sofrendo por conta dessa pandemia: milhares de pessoas nas enfermarias, buscando a recuperação; pessoas nas UTIs, lutando pela vida; pessoas adoecendo por acompanhar e tratar tantos doentes; pessoas chorando a morte de um ente querido; milhares de pessoas que passarão um Natal muito mais triste do que o nosso, já que não poderão simplesmente postergar um abraço… Milhares de famílias não poderão voltar a abraçar algumas pessoas, pelo real motivo de não estarem mais aqui, nem próximos, nem longe, mas na dor de uma saudade que não tem fim.

Neste Tempo do Advento, enquanto esperamos o nascimento de Cristo, elevemos a Deus as nossas preces, para que a vacina ou algo que amenize tanta dor chegue breve. Aproveitemos para aglomerar corações. FELIZ NATAL!

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Como um contumaz leitor, enquanto me atualizo com as notícias da semana, automaticamente vou construindo minha crítica interior sobre o que estou lendo, mas ela é sempre amenizada pelo meu lado escritor, pois sei que quem escreve coloca no papel aquilo que lhe vai na alma, o que, necessariamente, não é uma radiografia fria da realidade, pois costuma estar impregnada pela forma com que o autor enxerga a vida e de como compreende a si mesmo.

Tanto quanto os textos, chama-me a atenção os comentários dos leitores.

Quando lemos algo, adquirimos o direito de tomar o texto para nós, passamos a nos apropriar dele e a interpretá-lo com base em nossas crenças, em nossos desejos, inclusive os mais escondidos. Assim que corremos os olhos no que foi escrito, deixa de importar o que o escritor quis dizer e passa a importar tão somente aquilo que eu consigo entender, aquilo que eu quero que esteja ali, no texto à minha frente.

Quando algum colunista escreve, por exemplo, sobre a importância de se esclarecer, com a maior precisão possível, as nuances das mortes de Mariele Franco – brutalmente assassinada no Rio de Janeiro -, do garoto Miguel – que despencou do 9º andar do prédio na grande Recife -, do João Alberto – espancado até a morte em Porto Alegre – ;das meninas Emily e Rebecca, mortas na porta de casa durante um tiroteio, em Duque de Caxias; ou do Cabo Derinaldo Cardoso dos Santos, morto enquanto cumpria o seu dever, em um mercado na Baixada Fluminense; parecem-nos cruéis os comentários do tipo “Esse assunto já deu” e “Essa mídia não tem outro assunto?”, mas é possível, ainda que não se os aceite, pelo menos que se entenda tais comentários. É que estes assuntos, definitivamente, não fazem a menor diferença para quem faz essa espécie de comentário.

Muitas pessoas, de fato, não estão interessadas nesses temas, porque são assuntos que não fazem parte de suas preocupações. Interessante que, logo após escreverem tais comentários, eles costumam escrever coisas do tipo “O fulano fez isso e ninguém falou nada”, “Quando morreu sicrano, ficou todo mundo calado”, naquele viés que todo mundo já conhece muito bem: para se livrar da responsabilidade de discutir algo que incomoda, basta desviar o foco e contrapor o tema com outro que mais lhe seja do agrado.

Tem dois temas, no entanto, que estão deixando alguns leitores sem terem muito o que comentar, de tão esquizofrênicas que estão ficando essas questões: a incapacidade de Donald Trump de entender o “Perdeu cowboy”, e o reconhecimento de que o coronavírus não é só uma “gripezinha”.

A posição adotada pelo atual presidente norte-americano, de querer permanecer no poder a qualquer custo, em uma das mais consolidadas democracias representativas do mundo atual, iniciou-se causando certo pânico, encaminhou-se para a posição do ridículo e, agora, encontra-se na seara das piadas. Sua imagem, de homem mais importante da terra, transformou-se na de um menino chorão, que depois de chupar o seu pirulito, não que deixar que o seu coleguinha também saboreie um. Tipo “Esse pirulito é meu” e “Não saio, não saio, não saio”.

Já a pretensa despreocupação com a pandemia, a tentativa de minimizar os seus riscos a todo custo, criou uma onda de negacionismo sem precedentes em algumas partes do mundo, mais perceptíveis nos E.U.A e aqui, no Brasil, levando à morte milhares de pessoas. No começo, as mortes estavam acontecendo longe, na Europa, na Ásia. “O vírus não gosta de calor, no nosso clima ele não sobreviverá”, diziam muitos. Depois, ele veio para América do Norte e depois chegou no Brasil. “Isso é vírus de rico, só anda de avião”, “Pobre não pega isso não”, “Brasileiro precisa ser estudado, pois não pega esse vírus não”, foram apenas algumas das nossas frases a demonstrar a não aceitação do que estava à nossa porta.

Teve quem dissesse que o vírus não cruzaria as montanhas de Minas, como se o covid-19 conhecesse ou fosse limitado por fronteiras. Pois bem, ele chegou, e as mortes começaram a ficar cada vez mais próximas de nós. Saíram das ruas e vieram para as nossas casas. Sentimos, na pele, que não era apenas uma gripezinha. Até quem sempre defendeu que “é assim mesmo, o efeito rebanho vai selecionar os mais fortes”, ou então “um dia todos nós vamos morrer”, anda mudando de ideia, porque até pode morrer muita gente, desde que não seja “nenhum dos nossos”, ou melhor, “nenhum dos deles”!

Ainda há os que dizem “Aqui em casa os meninos pegaram e não tiveram nada” e “Esse vírus chegou e vai ficar e não vamos parar a vida por conta disso”. É sabido que a maioria das pessoas não sente qualquer efeito mais grave do vírus, mas são justamente estas pessoas que colaboram para matar os avós, os pais, os tios, o parente ou amigo que possui alguma comorbidade. Insisto: a sua liberdade termina exatamente onde começa a minha. Você pode fazer o que quiser da sua vida, mas não da minha vida!

Da minha vida eu cuido e quero essa peste de vírus bem longe de mim e dos meus! Mas não posso deixar de perceber, que em poucos momentos da História, algumas pessoas foram tão hábeis em deturpar a realidade, moldá-la aos seus próprios interesses, ou analisá-la através de seus olhares míopes e suas visões curtas.

“Porque eu sou do tamanho do que vejo, e não, do tamanho da minha altura…”, disse Fernando Pessoa, no início do século passado. Nada mais atual. Talvez o mais universal poeta português estivesse antevendo o comportamento de muitos, um século a frente…

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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No último fim de semana do mês, a festa rolava solta. A segunda quinzena começava com a turma trocando ideias nos intervalos para café ou nas rodas de conversa que se formavam na entrada e na saída da fábrica. A cada encontro, uma temática diferente, por isso os encontros eram tão esperados. Naquele mês, não foi diferente, com as pessoas chegando fantasiadas, mas se identificando na portaria. Terminado o tempo determinado para o fechamento das portas, mais uma vez o Manoel não apareceu.

Como toda festa que se preze, esta também tinha aquela famosa formação de grupos, com as pessoas se enturmando de acordo com os que as aproximavam. No entanto, algo era comum em todos os grupos: os comentários sobre a ausência do Manoel. As pessoas não dançavam, mas gritavam por conta da música alta, tratando do tema que mais lhes interessavam, qual seja, a ausência do Manoel. “como ele é esquisito, nunca vem na nossa festa”; “acho que ele não deve ter roupa para sair”; “ele é desengonçado demais”, eram alguns dos muitos comentários que tomavam a noite daquela turma.

Certa vez resolveram fazer um piquenique, no lugar da festa. Assim, prepararam muitas guloseimas, muita cerva gelada, e até uma “pinguinha da boa” era possível provar. Marcaram o ponto de encontro na subida da serra e, aos poucos, todos estavam lá, menos o Manoel. A subida, em grupos, era intercalada pelas respirações aceleradas e pelos comentários sobre o Manoel. “o Manoel é casado? Se for, é com mulher muito brava”; “que nada, deve estar lavando roupa”; “ele devia arrumar aqueles dentes”, eram apenas alguns dos comentários que consumiram toda a caminhada até o topo.

O período em que ficaram lá, cerca de duas horas, as brincadeiras, a música ao violão, eram sempre intercaladas com comentários sobre o Manoel, sobre sua ausência, sobre sua vida pessoal, sobre sua família ou sobre o seu trabalho. A descida, não foi diferente, com Manoel continuando a ser o tema principal das conversas, ladeira abaixo.

Certa vez combinaram uma viagem, para uma cidade próxima, onde passariam o dia em um pesque-pague. Correram a lista e, como sempre, os quarenta funcionários a assinaram, inclusive o Manoel. Nas conversas a “boca pequena”, todos falavam a mesma coisa, que o valor deveria ser dividido por trinta e nove, porque o Manoel, certamente, assim como fez das outras vezes, não iria participar, que apenas colocava seu nome por educação.

Marcaram de sair no domingo bem cedo, por volta de sete horas, para que pudessem estar lá, pescando, por volta de nove horas. Pescariam até ao meio-dia, almoçariam e chegariam cedo em casa, a tempo de descansarem para mais uma semana de trabalho. Na medida em que foram chegando, as pessoas iam ocupando os lugares e, de vez em quando, ouvia-se algo como “o Manoel vai comigo”, como a dizer “vou usar duas poltronas, porque o Manoel não vem mesmo”.

Os trinta e nove amigos já estavam devidamente sentados, fazendo o que mais gostavam de fazer, ou seja, ajudando a esquentar a orelha de Manoel. Foi quando alguém gritou: “Olha lá, o Manoel está vindo”.

Manoel chegou, pediu desculpa pelo atraso e tomou o seu lugar. A viagem transcorreu tranquila, com um silêncio que, em nada, combinava com uma aglomeração de quarenta jovens, dentro de um ônibus. A pescaria foi boa, o almoço também, e o retorno foi aproveitado para o cochilo dos cansados viajantes.

No mês seguinte, ao programarem a atividade do mês – provavelmente mais uma festa temática -, os organizadores esperaram a saída de Manoel para o almoço e circularam a lista. Não podiam arriscar, pois o Manoel poderia aparecer de novo e a turma, mais uma vez, ficaria sem assunto em seus encontros.

Enquanto isso, Manoel seguia seu caminho, convicto no entendimento de que se todos se ocupassem mais de suas próprias vidas e apenas dos impactos positivos que elas pudessem ter sobre a vida dos outros, o mundo seria muito melhor e os medíocres ficariam sem voz.

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Mais uma vez quero tratar de um tema sobre o qual muitos não gostam de conversar, preferindo “empurrar o assunto para debaixo do tapete”. Porém, a minha cultura, a minha formação, o meu aprendizado familiar e as minhas crenças não permitem que eu me omita. Sei que isso tem um preço, mas, infelizmente, pagarei se for preciso. Já me chamaram de “esquerdista” – como se o fato de ser de esquerda fosse algum ruim, e de “apoiador de comunista”. Bem, se o fato de acreditar na fraternidade; na igualdade; na liberdade de expressão com responsabilidade; na diversidade e na pluralidade; na importância da preservação ambiental e na possibilidade de uma convivência harmoniosa do homem com os seus pares, independentemente do gênero, credo e raça; se o fato de acreditar na educação como ferramenta transformadora de uma realidade e desejar que a saúde e o bem-estar sejam oferecidos a todos, indistintamente, significar ser o que pensam os extremistas de direita, então serei de fato qualquer coisa que queiram me denominar. E, hoje, mais uma vez, eu quero falar de racismo. A cada vez que acontece um ato de racismo no país, daqueles que são óbvios demais e que não dá para ficar fazendo de conta de que esse pérfido sentimento não existe por aqui, também ficam evidentes as desculpas e as justificativas que são apresentadas pelas pessoas. “Tenho sangue negro nas veias”, é a mais comumente utilizada por alguns brancos, como se o fato de ter resquício de sangue afrodescendente no genótipo fosse suficiente para retirar o seu nome da lista dos racistas. Não, não é, até porque, negros racistas também os encontramos aos montes. Aliás, entre os negros, o que existe de gente que, para fugir da responsabilidade de lutar por um resgate social de seus iguais – ou por vergonha de sua origem -, se declara “moreno”, não está no gibi. Você, certamente, tem um amigo ou uma amiga assim, da pele “moreninha”, que não admite a sua negritude. Triste de ver! Essa turma não entendeu que a terminologia “negro” engloba todos os pretos e os pardos do país. Ou seja, a maioria de nós é muito mais que “moreninho”. Esta semana presenciamos quase que uma reedição do caso George Floyd, aqui no Brasil, quando morreu asfixiado, depois de ser duramente agredido, o negro João Alberto, em um estacionamento de uma grande rede de supermercados, em Porto Alegre. Impressionante como gostamos de copiar coisas dos americanos: a comida gordurosa e calórica, o halloween, o black Friday, as expressões inglesas no meio das frases – coisas do tipo “oh my god” e “yes” -, entre outras. Mas, precisávamos importar as loucuras do Trump e o descaramento e a violência do racismo americano? Recentemente, ao comentar o ocorrido com João Alberto, nosso vice-presidente afirmou, categoricamente, que aqui nós não temos racismo, citando inclusive a sua experiência nos Estados Unidos, onde, para ele “lá é que existe o racismo. As pessoas de cor são separadas das pessoas brancas”. Não bastasse sua fala ser impregnada de eufemismo racista – como assim, pessoas de cor? -, parece que nosso mandatário não tem a menor ideia da diferença entre segregação racial e racismo. Ah, João Alberto foi quem começou a confusão, inclusive agredindo pessoas. Pode ser verdade. Porém, haveria necessidade de ele ter sido espancado daquela forma? Se naquela mesma situação a vítima fosse branca, loira, de olhos azuis, o gran finale teria sido o mesmo? Ah, mas o rapaz não era lá essas coisas, com passagem pela polícia… Sim, e daí? Por isso torna-se necessário espancar uma pessoa até à morte? Então a maneira de livrar a sociedade daquilo que ela não gosta, ou que não se coaduna com o seu “jeito de pensar e de viver”, é matando? Ora, cada um de nós não gosta de alguma coisa. Se formos olhar o gosto de cada um, certamente teríamos um país praticamente desabitado, porque além dos que têm “passagem pela polícia”, dos que brigam em supermercados e dos que agridem as pessoas, temos as prostitutas, os mendigos, os corruptos, os mais feios, os pretos, os branquelos, os ladrões, os estupradores, os homossexuais, os políticos, os professores ruins, os comunistas, os maridos infiéis, as meninas que provocam os homens, os ladrões de galinha, os hipócritas, os racistas, os supremacistas e por aí vai. Se fôssemos olhar o gosto individual de cada cidadão, é bem provável que nós mesmos seríamos mortos. As reações ao crime ocorrido foram as mais diversas, inclusive ocorrendo invasões e depredações de algumas lojas da rede de supermercados, e isso não podemos aprovar. De fato, violência só gera violência. Entendo que os negros estejam cansados de tanta conversa fiada e pouco resultado prático, mas ainda assim, nada justifica a violência. Sem contar que a reação violenta não ameniza, em nada, a violência da morte de João Alberto. Por que a nossa dificuldade em aceitar, neste caso, que independentemente de quem era João Alberto, ele não poderia ter sofrido aquela violência? Por que a nossa insistência em negar que o racismo existe por aqui? Não, o que aconteceu com João Alberto não foi uma ocorrência isolada, mas apenas mais um ato desse triste espetáculo que é vivenciado pelo país, há séculos, tendo como protagonistas os negros. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. A maioria dos pobres é negra e os negros superlotam os presídios país afora. Há quem diga que essa estatística se justifica pelo fato de a maioria da nossa população ser negra, mas não conseguem explicar por que então eles não são a maioria nas melhores escolas, no congresso, nos clubes de serviço, nas empresas, nas instituições em geral. Se conseguirmos explicar isso, sem constatar que ao longo dos séculos eles vêm sendo preteridos, subjugados e menosprezados, talvez eu também faça coro para dizer, com orgulho, que não somos racistas. Às vezes olho para o meu filho e para o meu neto, negros, e me dá aquela vontade de ir embora, de levá-los para um local bem longe, em outro continente, onde pudessem ter uma vida mais feliz, sem olhadas de “rabo de olho”, sem desconfianças, sem menosprezo. Onde possam ser informados e conhecer, orgulhosamente, seu passado glorioso, seus deuses e sua mitologia, seus costumes e sua cultura sofisticada. Onde não sejam lembrados a todo instante que são descendentes de escravos, e compreender que são descendentes de seres humanos que foram escravizados por outros seres humanos. Onde possam ser pessoas boas ou más em função de seu caráter, e não em função da cor de sua pele…É que, às vezes, cansa. Mas, prosseguir é preciso. Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Criamos nossos filhos para serem felizes. No entanto, é muito comum que ofereçamos ferramentas diferentes aos meninos e às meninas para que cavem o túnel que os levarão à felicidade. Meninos, futuros homens, são criados “mais à vontade”, enquanto as meninas, futuras mulheres, são quase sempre criadas com regras mais rígidas, devem estar sempre arrumadas, bonitas, devem aprender a cozinhar, ajudar a mamãe nas tarefas da casa e são ensinadas a serem prendadas. Em muitos casos, meninos são criados para terem sucesso profissional, enquanto boa parte das meninas são criadas para serem boas esposas, boas mães, boas donas de casa. É claro que isso não é mais uma regra geral, mas ainda acontece com muita frequência em vários pontos do país.

Com raras exceções, a menina que se torna uma profissional em condições de concorrer com o homem, é quase sempre resultado de um ato de rebeldia, afrontando alguns idiotas que, ainda, acham que lugar de mulher é em casa. E antes que você pense “lá vem ele com esse negócio de igualdade de gênero”, quero lhe dizer que a questão vai muito além do “menino veste azul” e “menina veste rosa”. Estamos falando de oportunidades, de valorização e de reconhecimento do ser humano, independentemente de seu gênero.

A questão, no Brasil, extrapola qualquer tentativa de justificar o óbvio, ou seja, a mulher brasileira é sim muito desrespeitada, muito desvalorizada e isso não faz o menor sentido. Não podemos continuar convivendo com o triste resultado de uma estatística que apresenta como maioria absoluta dos pobres do país as mulheres e, em sua maior parte, negras. Um país onde a mulher continua a receber um salário muito inferior ao do homem, mesmo desempenhando funções ou ocupando cargos iguais aos deles. Mulheres que, mesmo após a criação de uma lei específica de proteção a elas, continuam sendo maltratadas, agredidas, violentadas, vilipendiadas e mortas, por alguns “machões”.

Talvez o fato de eu ter quatro filhas, facilite este meu posicionamento, mas, todo homem é gerado no ventre de uma mulher e a maioria deles cresceu sob o olhar vigilante, o colo aconchegante e o amor incondicional de uma mulher, o que por si só já é motivo de sobra para querer que elas sejam amadas, respeitadas, valorizadas e felizes.

Propiciar meios para que a mulher seja feliz na vida, que encontre o seu lugar no mundo e seja reconhecida por isso, significa que elas devem ser educadas para que possam decidir os caminhos profissionais que seguirão, as atividades que vão exercer, os comportamentos que vão adotar, sempre com dignidade, responsabilidade e honestidade.

Minhas filhas, desde pequenas, sempre andaram bonitas, cheirosas e bem arrumadas. Todas sempre ajudaram nas atividades domésticas, mas sempre me viram também ajudando, dividindo as tarefas, para saberem que, em casa, não existe o “papel do homem” e o “papel da mulher”. Existem atividades necessárias que devem ser igualmente compartilhadas por todos que moram na casa, sem qualquer distinção de gênero. Todas foram educadas para o trabalho, para a importância da aquisição de conhecimento e para a independência. Sempre lhes disse que elas não deveriam, jamais, se submeterem ao julgo masculino por conta de dependência financeira ou qualquer outro tipo de “poder” que alguns homens costumam exercer. Também foram criadas para a vida em família, para o respeito ao outro, para serem mães ou não, para se casarem ou não, mas principalmente, foram criadas para só fazerem aquilo que as deixassem felizes e para lutarem sempre pelos seus direitos. Elas sempre tiveram em mim um guerreiro pronto para uma batalha, ao lado delas, seja em que fronte fosse.

Temos, ainda, um longo caminho a percorrer, pois não basta apenas criarmos nossas meninas mais preparadas para o mundo, mas, também, é preciso criarmos nossos meninos para que enxerguem nelas seres humanos iguais a eles, com os mesmos direitos e deveres. Talvez, nesse quesito, muitos de nós, incluindo muitas mulheres, estejamos cometendo erros, alguns imperceptíveis, mas que transmitem mensagens muito significativas, tanto para nossas meninas, quanto para nossos meninos. Não podemos esquecer, que de início, tudo se aprende em casa, na forma como discriminamos, de maneira quase natural, nossos meninos e nossas meninas, em função do gênero.

Meninas vestem rosa, mas podem, se quiserem, vestir azul, verde, amarelo, laranja, ou qualquer outra cor existente. Meninas devem ajudar nas tarefas da casa, assim como os meninos, pois todos habitam o mesmo espaço. Todos devem receber a mesma educação, devem ser preparados para serem boas pessoas, bons cidadãos. Respeitados e reconhecidos em sua integral identidade humana, em sua infinita diversidade existencial e em sua plenitude espiritual!

Se quisermos que as mulheres da nossa vida – mães, esposas, filhas, sobrinhas, amigas, cunhadas etc. -, sejam verdadeiramente felizes, teremos de passar pelo entendimento de que o empoderamento da mulher é assunto para todos nós.

• Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Todo Mundo tem algo em seu corpo que não o agrada muito. Não estou falando de nada vaidoso demais, apenas de algum detalhe que nos incomoda e que, em algum momento, a gente acaba dando um jeito de consertá-lo ou, pelo menos, de disfarçá-lo. Alguns não gostam do nariz, outros não gostam da orelha, do cabelo ou da boca. No meu caso, nenhum disfarce deu jeito, nem mesmo uma camisa preta ou um terno escuro: a barriga. Desde pequeno – período em que eu consegui receber o apelido de “desnutrido” na escola, e nem entendia isso como bullying, mas apenas como uma constatação da minha magreza -, mesmo magro, a barriga estava ali, como se fosse um grande depósito de lombrigas…

E assim foi a vida toda, em todos os momentos da minha vida, estando magro ou gordo, a barriga desconhecia qualquer parâmetro harmônico entre ela e o todo. Ainda hoje é assim e as ações para exterminá-la não param. Abdominais? Aos montes. Hoje faço, diariamente, entre 150 e 200 flexões. Faço-o de teimosia, porque tanto faz fazer ou não, ela permanece imutável, protuberante, como a me dizer “Não perca seu tempo, daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Dieta? Só se for para morrer de fome. Na verdade, quando corto a massa, o doce, a sobremesa, o “sanduba” com bastante molho, o sorvete, ela até se acomoda um pouco, mas nada de sumir.

O maior problema com esta minha – já de casa -, barriga, é que quando eu consigo, enfim, depois de muito abdominal e muita dieta, fazer com que ela dê aquela disfarçada boa, as pernas ficam mais finas, o rosto fica “acaveirado” e a bunda que já é pequena, desaparece de vez… Certa vez minha mulher me deu uma “coisa” de presente, como se fosse um colete, de borracha elástica, daqueles que entra apertado e quase não te deixa respirar. A ideia do “troço” é te fazer suar, apertar suas banhas o bastante e te fazer se sentir um pouco mais fino. Depois de muito esforço, consegui enfiar aquilo no corpo, coloquei uma camisa por cima e sai, animado, para uma volta na rua. Mal saí de casa encontrei uma amiga, ganhei de seus braços aquele abraço e, de sua boca, o seguinte: “Rapaz, como você engordou!”. Além de não disfarçar nada, só quem já usou uma vez sabe a dificuldade que é tirar aquilo do corpo suado, principalmente para os que, como eu, tem essa quantidade toda de pelos…

Já testei algumas receitas e simpatias. Passei a comer uma maça pela manhã e engordei alguns quilos, pois nunca vi nada para me dar mais fome que a tal da maçã. Tomar limão com água, em jejum? Ah, fiz muito e o estômago quase foi para o brejo. Aliás, uma vez me mandaram partir um limão ao meio e colocar uma parte em cada olho… Não fiz, mas certamente era para arder bem os olhos para que eles não enxergassem a comida….

No fim do ano passado, agradeci a Deus o ano que tivemos e pedi um ano novo com muitas viagens e menos peso. Eu certamente já tinha bebido além da conta quando falei com Ele, pois recebi justamente o contrário, ficando preso em casa este tempo todo e aumentando significantemente o peso, perfeitamente justificável pela vida de panda que levei nesses últimos meses.

Recentemente achei que tudo estaria resolvido, pois ao voltar de uma viagem à casa da minha filha, em Lagoa Santa, encontrei em um ponto de apoio ao viajante algo que me encheu os olhos: um pote branco, com o nome “Adeus barriga”. Ao ler as inscrições verifiquei que era feito a partir de ervas naturais. Entre os ingredientes, cana de açúcar, berinjela, folha de inhame, maracujá, abóbora, laranja, feijão, beterraba etc. Até aí, tudo bem. Passei, então, a ler as indicações que estavam em dois pequenos quadros. No primeiro: “Cura varizes, diminui a ansiedade, melhora o diabete, regula a pressão, solta o intestino, emagrece e combate a TPM”. Achei desnecessário sobre a TPM, mas me animei a ler o segundo quadro, onde constava: cura espinhela caída, melhora a sorte, reata amizades, traz a mulher de volta e enxuga a barriga. 100 cápsulas, por apenas R$10,00. Como efeito colateral, aumento na produção de gases.

Não comprei. Além de barrigudo só faltava passar a ser peidorreiro.

· Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec


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– 52 milhões de pobres
– 14 milhões de miseráveis
– Entre as pessoas abaixo da linha de pobreza, 70% são de cor preta ou parda
– Entre os milhões de pobres, cerca de 40% são mulheres negras
– 45 milhões de brasileiros residem em domicílios inadequados, sendo 31 milhões de cor preta ou parda.
– Brancos ganham muito mais que os negros
– Homens ganham muito mais que as mulheres
– Violência doméstica só aumentando .

As grandes questões nacionais continuam sem solução e sem qualquer sinal de uma luz no fim do túnel. Enquanto isso os políticos vão se digladiando por conta de poder e de pretensões futuras. Se não bastasse tudo isso, ainda temos de conviver com desatinos diários, de uma pseudo supremacia branca, de machistas, de gente sem educação, sem qualquer capacidade de compartilhar afeto, de gente incapaz de enxergar além do próprio umbigo.

Infelizmente temos entre nós pessoas que a minha educação não permite adjetivar. De mim receberão sempre repúdio e desprezo.

Vidas Negras Importam.
Pela igualdade de oportunidades para todos.
Pelo empoderamento feminino.
Pelo respeito ao Ser Humano

Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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Sempre foi inegável a enorme influência que os Estados Unidos exercem sobre o Brasil. Não me refiro, apenas, à influência econômica e política, que seriam relativamente óbvias diante da absoluta hegemonia que esse país adquiriu no mundo e, em especial, na América latina, desde a segunda guerra mundial. Refiro-me a influência que o “american way of life” exerce sobre os brasileiros em geral, pelo menos, na parcela urbana da classe média brasileira. No cinema, na música, e em diversas outras áreas, o jeito americano de viver está presente em diversos aspectos do nosso cotidiano.

Porém, a par dessa gigantesca preponderância cultural norte-americana, que foi capaz de banir totalmente a outrora mania dos brasileiros de copiar os franceses – e os europeus em geral -, nunca uma eleição presidencial daquele país chamou tanto a nossa atenção. A vitória de Obama, primeiro presidente negro, foi muito comentada por aqui, mas nada comparável a derrota de Donald Trump.

Donos de um sistema eleitoral idealizado há mais de duzentos anos para evitar que a Federação, recém criada, acabasse dominada pelos estados mais populosos; titulares de uma plêiade de legislações eleitorais locais e fanáticos em prognósticos estatísticos, tudo isso banhado por declarações de um presidente cuja bizarra personalidade assemelha-se às piores performances de telenovelas mexicanas, fez com que as eleições americanas dominassem totalmente os telejornais brasileiros, e despertassem amor e ódio entre nós.

A eleição de Trump, há quatro anos, inaugurou uma era de radicalismo, conservadorismo e sectarismo que rapidamente, alastrou-se pelo mundo. Em um breve período, Trump fez vários discípulos. Cá entre nós, na Hungria, em Israel, na Bielorrússia, enfim, eleito, o presidente norte-americano encarnou, não uma postura conservadora, mas um conservadorismo arcaico, violento, misógino, negacionista, sectarista, algo que envergonharia até Margareth Thatcher, Ronald Reagan ou mesmo George Bush… Porém, Trump exagerou tanto em suas performances ridículas, com gestos e palavras absolutamente incompatíveis com a dignidade e compostura que se espera de um Presidente, que os eleitores americanos – pelo menos a maior parte -, resolveram desalojá-lo da Casa Branca.

Em que pese as bravatas e ameaças dessa “triste figura” não terem ainda terminado e que, provavelmente, tenhamos que suportá-las por algum tempo, o certo é que Biden foi eleito como o quadragésimo sexto Presidente daquele país, de todos os demais do mundo, o que mais possui traços de similitude conosco.

Diante de tudo isso, parece mesmo que os norte-americanos tem algo a nos ensinar.

Em primeiro lugar, fica uma importante mensagem sobre a organização e a confiabilidade do nosso sistema eleitoral. A unificação da legislação eleitoral, o sufrágio direto, as urnas eletrônicas, a Justiça Eleitoral de âmbito nacional, tudo isso, comparado ao caótico sistema americano, nos ensina que somos capazes de desenvolver e aplicar técnicas e processos infinitamente superiores.

Em segundo lugar, vemos que o populismo nasce sempre com data marcada para morrer, independentemente de sua base ideológica.

Obviamente, a derrota de Trump foi fruto de diversas questões de conjuntura, como a crise econômica, a crise sanitária e a crise racial. No entanto é importante localizar o significado da derrota de Donald Trump dentro do chamado Populismo. O termo “populismo” atualmente tem sido utilizado para se referir a regimes políticos baseados em líderes que dizem expressar a vontade do povo – seja lá o que tal conceito realmente signifique –, frente a elites corruptas.

O sucesso desses políticos se basearia em um discurso que divide a sociedade em dois polos antagônicos: os bons contra os ruins, os não corruptos contra os corruptos, o povo contra o Poder, os “servos” de Deus contra os “pecadores”.

A retirada de Trump da Casa Branca demonstrou que a maior parte dos eleitores percebeu a hipocrisia, a falsidade e o enorme perigo que se escondia nas entrelinhas desse discurso de ódio e de total desrespeito à diversidade, aos direitos e às liberdades civis em geral, e de absoluto desprezo a tudo aquilo que não correspondia à deturpada e medieval visão de mundo que dirigentes desse naipe ostentam.

Por último, embora fosse possível extrair ainda diversas outras lições desse evento eleitoral americano, destaco uma derradeira lição, ou melhor, uma derradeira premonição: deveremos ver aqui, nessas terras tropicais onde permanecemos deitados em berço esplêndido, episódio semelhante. Não me refiro a questões relativas ao sistema eleitoral. Refiro-me a uma postura de negação do resultado das urnas, de questionamentos sobre a confiabilidade do sistema de votação e apuração. Refiro-me a estratégia de tentar desacreditar o processo eleitoral. O populismo – seja de direita ou de esquerda -, só sobrevive se conseguir manter hipnotizada sua base de apoiadores, ainda que o contexto econômico, social, político e sanitário não lhe favoreça.

Para os que advogam a tese populista, o messianismo, o culto à personalidade e a certeza subjetiva de que são instrumentos divinos, enviados para uma “Cruzada” de salvação da Pátria, o povo se resume àqueles que o seguem. Os demais são “impuros”, ou “inimigos da Nação”, ou “pervertidos”, ou “traidores”, ou simplesmente “comunistas”.

A mesma tempestade perfeita que propiciou a ascensão desse conservadorismo raivoso, deve repetir-se, às avessas, daqui em diante. Continuamos profundamente divididos, permanecemos ainda, cada um a seu modo e com seus argumentos, donos exclusivos da verdade e da razão; ainda não fomos capazes de perdoar ou esquecer os erros praticados por parte dos políticos mais progressistas do nosso espectro partidário, porém, a profunda crise econômico-social que vivemos, o aumento exponencial da miséria, da fome, do descaso ambiental, as palavras chulas, o comportamento misógino e vulgar, e, principalmente, a comprovação de que a corrupção não é exclusividade da Esquerda, deverão cobrar seu preço nas próximas eleições…

Enfim, quem viver verá…

Ainda há luz no fim do túnel.

Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.