NOITES TRAIÇOEIRAS

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Diário de Caratinga, 01/9/2019

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, passamos por problemas, por perdas, por dores, pelo sofrer inevitável que é fruto das nossas escolhas, das nossas ações, dos nossos vícios, enfim, fruto da nossa imperfeita condição humana. Porém, há momentos onde tudo em nossas vidas encontra-se em verdadeira ebulição. Nada está no lugar. Nada vai bem. Todos os aspectos do nosso Ser, de forma insistentemente coincidente, parecem nos levar ao desespero. Falta-nos o chão, falta-nos um porto seguro, falta-nos a paz!

Vivemos hoje, em todo mundo, momentos de profundo sofrimento, de imenso desamor. Em várias localidades, populações inteiras padecem das mais variadas doenças. Epidemias dizimam milhares de seres humanos. A fome, um mal constante na História da humanidade, ainda ceifa vidas, por várias regiões do planeta. No século onde a tecnologia nos permitiu avanços inimagináveis, ainda se morre de fome e de subnutrição.

Na Europa, países avançados fecham suas portas a legiões de desterrados, de pessoas que fogem de sua terra natal em busca de condições de sobrevivência. A crise dos refugiados aumenta a cada dia, assim como aumenta a cada dia a falta de solidariedade daqueles que podem ajudar, acolher, atenuar o sofrimento de seus semelhantes, mas que estão absorvidos na ilusão de que seus quintais ajardinados, suas mesas fartas e seus comparecimentos semanais a cultos recheados de louvores vazios, livrarão suas almas do julgamento pelo seu egoísmo, inexoravelmente imposto pelo ciclo da vida.

O Brasil, outrora uma terra de harmonia, de alegria e de esperança, perdeu-se num redemoinho de desencontros, de embates, de radicalismo, de rancor histórico, de intensa discórdia social. Capitaneados por um grupo de destemperados e de inconsequentes, que se esquecem de que “gentileza gera gentileza” e “ódio só produz ódio”, vivemos em constante ebulição, em constante sobressalto. A cada dia, novos embates são propostos, novos motivos para discórdia são semeados. Destila-se um ódio profundo por tudo aquilo que uma mente tacanha e apequenada é incapaz de compreender. Rejeita-se, com violência, desprezo e intolerância, qualquer coisa que escape de uma visão de mundo limitada, provinciana, obscurantista, radical e preconceituosa.

Não. A Terra não é plana. Plana, limitada, circunscrita a um espaço bidimensional é a visão deturpada de uma mente e de uma personalidade estreita e mesquinha.

Sim. As pessoas são diferentes. A diversidade, a multiplicidade de cores, de opiniões, de posicionamentos, de modos de vida e até de deuses é que nos faz uma espécie rica, interessante e atraente. A similitude, a mesmice e a identidade total de comportamentos, de opiniões e de ações só nos leva ao marasmo, ao atraso, à permanência, opondo-nos à própria essência do Universo, que é dinâmica, pulsante, móvel e em constante mutação. Tudo se movimenta e se altera a cada instante.

Mas não é só no nosso entorno distante que as coisas não vão bem. 

No nosso cotidiano, na nossa vida pessoal, nas nossas famílias, relacionamentos, trabalho, saúde, tudo parece conturbado, tudo parece desmoronar, como um castelo de cartas.

Nesses momentos, ficamos frente a frente com o mais severo dos juízes: o espelho! São momentos onde desconhecemos a imagem refletida naquele pequeno espaço de metal e vidro. Momentos onde todo o peso de nossa inconsequência e de nossas mazelas existenciais insistem em se mostrar, de forma insensível e acusadora. Por instantes, que parecem perdurar por anos, vemos ali, estampada naquela superfície fria e inerte, a nossa incapacidade de superar as tentações, de resistir aos vícios, de optar pelo o que é certo, o que é digno, o que é altivo, ainda que isso tivesse causado alguma dor, em algum momento do passado.

Vemos o tempo que desperdiçamos com coisas fúteis, com atividade e afazeres improdutivos, que nada nos acrescentaram e que consumiram uma energia enorme, em detrimento da convivência familiar, do encontro real com amigos verdadeiros, do ócio reflexivo, do olhar para as estrelas, do tocar um instrumento, do cuidar de uma planta, do deitar no peito da pessoa amada.

Vemos o resultado das nossas ações egoístas, da nossa vaidade, da falta de respeito ao próximo, do nosso narcisismo. 

Vemos que abandonamos o culto das virtudes, pois as virtudes não nos são inatas. Precisam ser adquiridas, praticadas, constantemente observadas. O Bom, o Justo, o Digno, a Empatia, a Caridade, a Lealdade, a Fidelidade… Não nascemos com essas virtudes. Elas precisam ser cultivadas a cada dia, a cada momento. Precisamos, cotidianamente, resistir bravamente às virtudes opostas ou aos pecados, como as religiões as denominam. Precisamos, insistente e constantemente, optar por sermos bons!

Esses momentos, em que tudo nos parece perdido e em que nos sentimos incapazes de seguir adiante, em que fraquejamos e duvidamos até da existência do Bem e do Amor, onde o espelho insiste em nos observar, ainda que nos afastemos dele, são como noites traiçoeiras, quando a escuridão nos rodeia e quando nem o conforto dos nossos lençóis é capaz de nos proporcionar um pouco de Paz.

Mas um dia, a humanidade encontrará soluções que lhe permitam superar esses momentos difíceis. Nosso País resistirá e sobreviverá à arrogância e à intolerância, e nós, ainda que vivamos muitas “noites traiçoeiras”, sempre teremos um novo amanhecer. Pois, o Amanhã, depois dos ódios aplacados e dos temores abrandados, há de ser pleno!

“O momento mais escuro da noite, é pouco antes do Amanhecer!”

*Eugênio Maria Gomes é funcionário da Funec e escritor. 


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