NOSSO RIOBALDO INTERIOR

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*Eugênio Maria Gomes

Riobaldo é o protagonista de uma das maiores obras literárias brasileiras, denominada “Grande Sertão: Veredas”, de autoria de João Guimarães Rosa. O romance, escrito em seis centenas de páginas, no ano de 1956, é sempre atual no monólogo do velho jagunço, que trocou a vida de bandidagem pela de fazendeiro, propiciando-nos uma analogia com o tempo em que vivemos, como se o sertão fosse o mundo. E mais, através das falas de Riobaldo, Guimarães nos dá a oportunidade ímpar de refletirmos sobre nós mesmos, sobre nossas dores, nossos medos e nossos objetivos.

Separei algumas frases da obra, ditas pelo protagonista, que falam muito do tempo e espaço em que vivemos, como se fôssemos, todos, Riobaldos.

         “O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia”. Cada um de nós tem feito a sua travessia. Cada um à sua maneira, mas, ninguém, está incólume ao que anda acontecendo. Alguns com muitas dores, outros nem tanto, mas, certamente, todos com algum sentimento novo, diferente, que vai do medo à perplexidade, do choro à euforia, da impotência à soberba. E sobre a travessia de cada um, o autor nos dá de presente algo que devemos carregar para a vida toda: não existe dor maior ou menor, existe dor. Jamais tente quantificar o que outro sente por conta de suas convicções, de suas experiências, por conta da sua forma de atravessar a vida, porque “Um sentir é do sentente, mas o outro é o do sentidor”.

         “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Só mesmo a coragem para nos conduzir nesse momento. Como lidar com o olhar dos filhos que passam fome porque os pais não podem trabalhar?  Como lidar com a dor da ausência de um amor, de um parente ou de um amigo, perdido para o coronavírus? Como se acostumar com a partida de alguém muito querido se não foi possível dele se despedir, por conta de um caixão lacrado? Guimarães Rosa parece que responde isso ao dizer “Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto”, exatamente por não ter respostas a estes questionamentos. E ele deixa fluir o que, às vezes, o incomoda, mostrando como somos volúveis também em relação ao que nos vai na alma, ao dizer “Medo, não, mas perdi a vontade de ter coragem”.

        Ao mesmo tempo, através de Riobaldo, Guimarães nos leva à aceitação da complexidade da morte, pela simples razão de que, em relação a ela, não há muito o que fazer, ao dizer: “Viver é um descuido prosseguido”; “A gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver não é muito perigoso?” e “Viver é muito perigoso: sempre acaba em morte”. Fala isso tudo para terminar com a mesma sensação que a maioria dos homens tem de que a morte pode até chegar, mas ela não pode ser provocada: “Um dia ainda entra em desuso matar gente”.

E Riobaldo, como que para contrapor esse momento dolorido, também fala de amor, de amizade, de sentimentos que amenizam nossos medos, nossas dores, nossas angústias: “Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade”; “Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o porquê é que é”. Quem de nós, de fato, tem um amigo assim, verdadeiro? Daqueles que não te julgam, e mesmo criticando suas atitudes, te acolhe. Quantos amigos, verdadeiros, cada um de nós conseguiu reconhecer nesses momentos de isolamento, de incertezas? Ainda bem que, como bem disse Riobaldo, “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.

Riobaldo nos faz refletir sobre o caráter das pessoas, a capacidade que algumas têm de ceder à hipocrisia e à falsidade, mesmo nos momentos em que tudo o que a humanidade mais precisa é de um pouco de cuidado, de carinho, de verdade, de solidariedade. Ao dizer “Eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza!”, ele nos fala de como seria bom se pudéssemos acreditar no outro, sem receios, sem medo de estar sendo apenas usado e de como os homens de boa fé se deixam manipular pelos desejos espúrios de outros, por não carregarem em sua essência sentimentos menores. Para ele, “Ser ruim, sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de experiência”.

Ainda bem que existe a aprendizagem e, como tudo na vida, apendemos também pela dor, porque mesmo sabendo que “A colheita é comum, mas o capinar é sozinho”, no final boas coisas nascem até das experiências ruins, porque “Ah, a mangaba boa só se colhe já caída no chão, de baixo…”. E a gente erra de novo, se deixa levar pelo brilho do “ouro dos tolos”, porque “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só fazer outras maiores perguntas”. O melhor de tudo, porém, é que “O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”.

E para terminar, acredite: “O senhor ache e não ache. Tudo é e não é …”, porque “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.

*Eugênio Maria Gomes é escritor

  • Texto apresentado em reunião da Academia Caratinguense de Letras, em reunião virtual no dia 22 de março e publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, em 28 de março de 2021.

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