O MICO DA FESTA

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Publicado no DIÁRIO DE CARATINGA, edição de 17/12/19

Assim que chegamos à festa fomos recebidos pelo casal anfitrião Daso e Sheila. A acolhida, a ornamentação da entrada do salão do América e a boa música que tomava conta do ambiente sinalizavam que aquela seria “A Festa”. Como de praxe, meu filho João saiu em direção ao ponto de origem do som e se posicionou em frente ao cantor Dedéu, embriagado pela apresentação do artista, enquanto eu fiz o dever de casa, circulando pelas mesas para cumprimentar os irmãos, cunhadas e convidados.

E foi assim que fui abordado pelo irmão Vanderlei para que fôssemos compartilhar a mesa com ele e sua esposa Renata. Já sentados, solicitei ao garçom uma dose de whisky e um copo d’água. Para o João – neste momento já conosco à mesa -, um suco. A mesa farta com as entradas, estrategicamente posicionada no salão, foi um convite para que o João para lá se dirigisse em busca de petiscos. Um gole rápido no drink e decidi solicitar ao João que colocasse um pouco do famoso “bode” entre as iguarias escolhidas. Feito isso retornei à mesa, quando então passei por um dos maiores “micos”, daqueles que apenas os desatentos costumam passar. 

Sentei-me em minha cadeira, tomei mais um gole do whisky e um pouco de água. Olhei ao redor e percebi que durante o breve lapso de tempo em que me levantei, algumas pessoas se sentaram conosco. Renata já não estava mais em seu lugar original, a cadeira do João continuava vazia e as demais estavam praticamente todas ocupadas. Não pude deixar de pensar que o Vanderlei, pelo menos, deixou reservadas nossas cadeiras. Nesse momento Elizângela aproximou-se da cadeira que estava reservada para o João… 

– Boa noite. Pode se assentar Elizângela.
– Boa noite. Vou pegar minha cerveja.
– Fique à vontade, pode ocupar o lugar do João. Ele se sentará em outra cadeira. 

Ela se acomodou na cadeira, enquanto eu passei a cumprimentar com a cabeça e com um sorriso os demais “convidados” da nossa mesa. Renata não retornava, assim como o João ainda devia estar se esbaldando na mesa de petiscos. Foi quando se aproximou o Bráulio, ao lado direito da mesa. Não poderia, de forma alguma, separar o casal, mesmo aquela sendo a nossa mesa. Vanderlei deveria ter distribuído melhor os convidados… 

– Boa noite Bráulio
– Boa noite meu irmão.
– Pode se sentar aqui meu irmão. Eu me sento com o João aí. 
– Não, pode ficar a vontade.

Ele nem precisava ter dito isto, pois eu estava à vontade. Satisfeito por tê-los conosco, mas cônscio de que eu deveria fazer o que o Vanderlei não havia feito: colocar ordem nas posições na mesa, para que todos ficassem confortáveis e próximos por afinidades. Ao belo som de Daywison Dhalma saí da minha cadeira, liberando-a para o Bráulio (claro, levando o meu whisky e a minha água), perguntei pelo copo de suco do João que não estava lá (na hora pensei que um dos convidados o tivesse bebido), pedi licença a um senhor que estava do lado, arredei uma bolsa de mulher que estava no local onde o João deveria se sentar e me acomodei. Foi quando passou o Diogo e disse “Boa noite Padrinho”… 

Levantei-me, abracei o meu afilhado, brinquei com a sua filha que estava acomodada em seu colo e tive então uma melhor visão do entorno. Contemplando as mesas próximas àquela onde Eu estava, Eu pude então perceber o grande mico que estava passando: na mesa ao lado, estavam sentados João, Vanderlei e Renata, todos aguardando por mim. Eu simplesmente me sentei à mesa errada, onde estavam Bráulio e seus familiares. Que gente educada! Eram só sorrisos, enquanto eu “chefiava” uma mesa que não era minha, tomando o whisky e a água dos outros… 

Depois de rir com o Bráulio sobre o assunto e ouvir dele “Me fale o que você bebeu, para eu não beber”, até para aproveitar mais a festa, busquei consolo nas palavras de Arnaldo Jabor: “… Pague mico, saia gritando e falando o que sente, demonstre amor. Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto e cada instante que vai embora não volta mais…”. 
*Escritor e funcionário da Funec


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