QUANTOS ANOS VOCÊ TEM?

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Texto publicado no jornal Diário de Caratinga, em 10/11/2019

Quantos anos você tem? Eu tenho sessenta, setenta, oitenta, noventa, cem anos! Eu tenho cento e poucos ou cento e muitos anos. A idade, não importa. Eu sou uma pessoa idosa. Não sou um apêndice, um objeto, um encosto, uma doença ou, apenas, um velho. Sou simplesmente uma pessoa idosa! 

Meus cabelos estão embranquecidos, minha voz embargada e minha alma repleta de emoções. Já trabalhei muito, sofri o suficiente e chorei bastante. Alegrei-me muito, ajudei e fui ajudado, criei e fui criado, enxuguei lágrimas, consolei prantos, curei feridas… 

Eu sou de todas as cores, de todos os amores, de todas as crenças e de todas as classes sociais. E você, que está lendo este texto agora, quantos anos tem? Eu tenho muitos anos, mas, por favor, não me chame de velho. Eu sou uma Pessoa Idosa. Tenho sentimentos como você. Eu rio, choro, entristeço e me divirto como você. Eu sou um caminhante e, antes do porto final, ainda farei muitas paradas. Sou idoso sim, meu amigo. Mas, não estou morto. Por favor, me trate com respeito. Eu não sou um estorvo, eu sou a experiência… Eu sou a maturidade!

Ao ver meus entes queridos sucumbindo a velocidade e a rapidez que a vida moderna lhes impõe, escravos de uma existência fútil e fugaz, intoxicados com a falsa sensação de pertencimento que as redes sociais lhes propiciam, penso como seria bom se ainda pudéssemos sentar na varanda e contar histórias, trocar olhares, sentir odores, secar algumas lágrimas e gozar o mais profundo prazer do simples “estar junto”…

Quantos anos você tem? Eu preciso de você! Mas eu não preciso de sua piedade, eu preciso é de sua atenção, de sua alegria e de seu carinho. Por que essa falta de cortesia e de respeito comigo? A preferência no acesso ao transporte, aos assentos dos ônibus e aos primeiros lugares na fila, é minha. Eu tenho direito a prédios com rampas, corrimão e sinalização. Eu quero respeito à concessão de próteses, cadeiras de rodas, aparelhos auditivos e visuais, direitos dos idosos previstos em lei, mas quase nunca concedidos.

Meu amigo, eu fico muito triste quando você faz questão de me mostrar que o meu envelhecimento está se transformando em sinônimo de inutilidade… Sim, na medida em que vou envelhecendo, a sociedade tenta me transformar em empecilho, esquecendo-se de que neurônios não envelhecem. Você sabia que grande parte do sucesso dos países desenvolvidos advém do respeito e do bom uso da experiência e do conhecimento acumulados por seus idosos? No entanto, meu caro, em minha própria casa, às vezes, sou maltratado, agredido e, até, dopado com medicamentos, para poder ficar quieto, para não incomodar os mais novos… 

Mas, eu resisto. E grito: quantos anos você tem? Eu tenho muitos anos. Sou apenas uma pessoa idosa, mas sou gente. Gente como você. Quando Aristóteles, há mais de 2300 anos, disse que “A Cultura é o melhor conforto para a velhice”, referia-se ao conforto da velhice coroada pelo saber, à segurança que eu – e cada idoso do mundo – teríamos, já que somos templos da Cultura e do Conhecimento. 

Venha! Venha caminhar comigo. Venha aprender a envelhecer, porque este será, também, o seu destino. Venha sem preconceitos, sem fazer julgamentos e sem se preocupar com eles. Há muito já não me preocupo com a calvície e com os cabelos brancos e já consigo ver o mundo com os olhos de quem já viveu muito, mas que tem muito ainda para viver. 

Já não ando tão rapidamente, nem respondo com a voz tão forte. Já não me preocupo tanto em estar no controle de tudo, ou saber de tudo que acontece em todos os recantos do mundo. Meu tempo flui de forma diferente, pois aprendi a me dedicar apenas àquilo que realmente me importa. Não quero mais Ter, mais do que nunca quero apenas Ser…

Quantos anos você tem? Eu tenho o suficiente para caminhar olhando para frente, com a certeza de que tudo que ficou para trás, os erros e os acertos, foram necessários para que eu me tornasse o que sou hoje! Caminho, tendo em mente as palavras de Sêneca: … Quando a velhice chegar, aceita-a, ama-a. Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem. Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres”.

* Eugênio Maria Gomes é escritor e funcionário da Funec.


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